segunda-feira, 8 de julho de 2013

Somewhere over the rainbow....

Ninguém sabe de onde vem ou para onde vai Linda George. Tentei saber e nada encontrei. Perguntei-lhe, e ela apenas disse que tinha nascido no Camboja. Linda foi o nome que lhe foi dado pelos primeiros locais que conheceu. Tornou-se o seu nome Khmer. George continua um segredo.
- Há coisas que não se contam assim... disse-me sorrindo.
Mas fui ter com ela, porque queria ouvir a sua primeira experiência na província – não muito longe da cidade, mas com estradas e deslocações que fazem uma grande viagem.
Calor, chuva torrencial, um carro grande que às tantas que se tornou pequeno para tanta gente. Umas estradas longas e atribuladas percorridas por mais de duas horas, entre uma curta passagem de ferry para o lado de lá.
Dentro do carro, entre amigos não faltava a cerveja e uns belos cigarros locais. Lá fora a paisagem era desconcertante. Uma vila em jeito de gueto, e quando parados no trânsito, a janela era o espelho das caras de pessoas que vivem ali mesmo... na rua ou em casas improvisadas.
- Eram na maioria vendedores ambulantes. Mulheres e crianças, revestidas de roupas esfarrapadas e caras tapadas,  algumas apenas pela sujidade. Tinham sumos, água e alguns petiscos, como baratas fritas, ou outro insecto qualquer. Um pitéu! – ironiza.
- Lembro de comer arroz com feijão de soja, cozinhado dentro de bambu. Surpreendentemente bom...
Viagem feita. Destino cumprido. A vila. Uma família inteira à espera. Um verdadeiro clã. Instalaram-nos e, de repente, dão-nos uma carta escrita na língua local. Linda conta que era para dar dinheiro aos monges.
- Em terra de budistas, há que dar e calar. Não me importei, mas parece que estavam mesmo à nossa espera.
E estavam. O plano era pescar no Mekong River, um dos maiores rios da Ásia, e que alberga quatro rios e fez um dia da capital, a cidade dos quatro destinos.
Depois de umas belas cervejas e de uns cigarros nativos, um barco com data de 15 anos, feito de madeira, o mais rudimentar possível albergou seis pessoas.
O céu estava mais azul que Linda podia imaginar. As nuvens estavam delicadamente distribuidas, para lembrar que levantar a cabeça e olhar o céu pode provocar uma sensação vibrante. Um rio calmo, mas sem grande peixaria, voltaram mesmo com um cesto cheio de zero peixes. Voltaram com a alma cheia de cor e sorrisos. Um terreno plano, a perder o seu verde, para a cor do horizonte.
- Como é belo quando céu e terra se unem! – exclamou as suas recordações.
Cheirava a terra, ouvia-se o silêncio da natureza. O sol estava charmoso e ameno. A brisa no ar aumentava a sensação de leveza e dominava o seu corpo. Uma paragem na outra margem, deu para se deitar na terra, fechar os olhos e derreter-se em terras do Camboja.
Linda lembra uma personagem que apareceu do nada, ali no meio do campo, numa bicicleta bem estilosa a falar muito. As palavras saiam-lhe à velocidade que o “sraso” – vinho de arroz local, ao sabor de uma aguardente – lhe invadia as veias. Um sorriso do tamanho da terra que pisava, uma toalha enrolada à cintura, ao estilo Khmer, deixou-se ficar a dizer adeus ao barco, que entretanto abandonou terra vazio de peixe. Ao longe a bicicleta entra em movimento, mas o braço e os “goodbyes” foram eternos.
- Nunca vou esquecer aquele homem, aquele sorriso, um sorriso próprio de quem nada tem... só mesmo o sorriso e alegria de viver. Ou simplesmente uma alegre bebedeira.
Linda conta que naquela paisagem meio bucólica, no entanto, ao mesmo tempo, vibrante em cor e sentidos, o homem adquava-se perfeitamente. O puzzle completou-se com a chegada daquela personagem. E assim se perpetua uma lembrança.
De volta à vila, havia reunião na pagoda – local de oração e onde pessoas, monges e deuses se juntam. Depois das obrigações religiosas, quem se junta são as pessoas, num grande convívio onde não falta um prato de arroz para toda a gente e um belo coco para matar a sede.
Música, gargalhas de quem só tem isso para dar. Partilhar está-lhes no sangue, está-lhes na cultura de clãs e tribos, cujo líder monge decide, cujas pessoas seguem religiosamente.
As crianças são livres, andam nuas e descalças, brincam todos juntos, zangam-se todos juntos. Crianças são assim, em todo o lado... mas aqui não discutem por brinquedos, ou fazem birras para comprar. Arreliam-se por causa de um pedaço de madeira, brincam com folhas secas e soltam gritos e risos, porque são crianças.
As mais velhas, meninas aprendem a ser mulheres e os homens aprendem a ser homens. O limite de cada um está bem definido, a mulher toma conta da casa e do dinheiro, o homem põe o dito dinheiro em casa e tem que ser cuidado.
Se vão à escola não se sabe, quem são os pais talvez também não. Crianças cujo futuro é incerto, pequenas pessoas que podem cair nas mãos das esmolas organizadas.
A noite é cedo numa terra de calor e de trabalho de campo. Mas antes há tempo para celebrar a bebida de arroz entre todos os visitantes.
- O filho da dona da casa, que nos albergou, era de uma simpatia e delicadeza que nunca vi, nem mesmo num homem reconhecido como civilizado  – recorda.
A casa era de bambu, tinha duas divisões, a cozinha, que também servia de local para lavar as partes baixas numa bacia. E a outra era sala e quarto. Uma pequena construção, que albergou familiares, visitantes e vizinhos, à volta de um termo cheio de sraso. Um copo de shot para cada um, a rodar.
- Mas da maneira que o arroz está cozinhado, à terceira ronda já se suspira – diz com o sorriso de quem lhe sentiu bem o efeito.
- In Cambodia... happy happy... dizia o anfitrião.
Entretanto Linda George, apresenta-lhes queijo e um belo chouriço português. Orgulha-se a contar que pôs uma provincia no reino do Camboja a comer a bela da “salsicha portuguesa”.
- A reacção não foi das melhores, mas pelo menos provaram – solta uma gargalhada. E à velocidade da coisa a felicidadade já transbordava. E a hora de recolher já se tornava tarde. Mas antes, bem ao jeito de gente que vive de música, antes de deitar o corpo no bambu, tivemos direito a música no telemóvel de meninas locais, que queriam era dançar e nos fizeram dançar também.
Por umas escadas improvisadas de vigas de madeira, a suite esperava. Duas crianças já mais que a dormir fizeram companhia à noite de Linda. Protegida por uma rede que mantem os mosquitos longe, deixou repousar o corpo num chão duro e irregular. Entre dores nas ancas e reviravoltas sonhou com o infinito do céu e com a imensidão de uma terra verde e virgem. Acordou com música. Era domingo, dia de celebração e dia em que as pessoas da cidade foram ajudar a construir mais uma parte da pagoda – para albergar os monges que ali habitam.
- E é assim que vejo o Camboja, com música, cor e boa disposição.
A vida é lenta, os ponteiros do relógio encravam, porque tudo desperta bem cedo. Às cinco da manhã, já se ouve vida, já se respira agitação.
O pequeno almoço, um prato de arroz com carne, a meio da manhã de novo a felicidade chega. Porque está na hora de dizer adeus, então há que brindar com o vinho de arroz. Meia dúzia de shots e a viagem prossegue.
O regresso foi ainda mais caótico, mais pessoas, que espaço. Colos vagos dão sempre para sentar mais. E lá se vai, duas horas, enlatada num carro, um calor abrasador e uma dimensão asfixiante.
Mas tudo vale a pena quando na memória vão sorrisos, boa gente e um céu que chega à terra.