quinta-feira, 10 de setembro de 2015

Rascunhos de viagem, Camboja




     Linda George esgotou as páginas do passaporte. Andou de aeroporto em aeroporto a pedinchar para um carimbo no sítio certo, afim de fazer render o pouco espaço que lhe restava. Se nalgumas emigrações lhe achavam piada e lá lhe faziam o favor, noutras mandavam-na para o país dela para resolver a questão, que assim não podia andar a viajar! Mas Linda tinha um objectivo, calcorrear céus e terras do sudoeste asiático. Ela e Tom delinearam rotas e prazos, que foram sendo alterados e reformulados um sem número de vezes. Num curto espaço de tempo e em constantes mudanças de planos. A primeira viagem ficou decidida, o Cambodja iria dar início à grande jornada por um mundo novo. 




     Os dois companheiros decidiram fazer esta viagem ao assento de uma scooter e com apenas uma mala, para reduzir espaço e peso, apesar, de mais tarde, se vir a tornar um verdadeiro inconveniente, que fez ambos ir deixando coisas pelo caminho.
     A jornada iria ter início com a chegada de dois amigos a Phnom Penh. Dali desceriam a costa rumo à cidade de Kampot, “terra da pimenta e com um rio que nos acolhe”, descreveu Linda. A  partir daqui seguiriam, Tom e Linda, com uma ideia de onde ir, algumas fotos de mapas e uma vaga noção de onde estavam. Para a frente seria o caminho, dar a volta ao país, descer pela costa, passar pelo reino de Angkor Wat, dar uma vista de olhos no lado este do país, com as suas florestas tropicais com natureza selvagem e regressar ao ponto de partida.
     Assim, de Phnom Penh, Linda e Tom seguiram viagem acompanhados pelos amigos. Iam visitar mais um outro amigo, agora a viver na região. Três horas distanciam a capital da cidade de Kampot, terra de conhecida rotunda do durian, fruta ambundante e de um outra, a 2000, que reza a lenda tem a ver com superstições e magia negra. Durian é uma fruta que cheira mal, mas dizem que sabem bem. Para Linda o cheiro será mais aceitável até mesmo que o sabor, apesar de contaminar tudo à sua volta.
     Os quilómetros foram feitos com calma e com algumas paragens para descansar, chegados ao local encontraram o amigo, que os recebeu de braços abertos e já com planos para visitar a zona.
     Em plena época alta no Camboja, Kampot tinha agora mais gente do que Linda se lembrava da primeira vez. Cheia de mochileiros, que encontram naquela terra um retiro, onde o rio nos deixa levar na pacatez daquela pequena cidade, de traços coloniais a viver à moda do reino. O tom relaxado e livre que Linda George irá sempre sentir falta. É o tempo alto desta terra, que cultiva uma afamada e deliciosa pimenta, onde abundam os tais durians, onde se faz molho de peixe, e onde habitam muitos expatriados. Terra dona de umas das mais belas montanhas do país – Bokor Mountain. Kampot é a capital da provícia de Kampot, no sudoeste do Camboja e o rio a separa em poucos quilómetros o Golfo da Tailândia.
     Da montanha avista-se o Vietname e todo o Cambodja.
Um dia foi usado para uma viagem de mota ao topo da montanha. Uma jornada de algumas horas, que valeu cada quilómentro feito, contou Linda George. Quedas de água, rios, montanhas e muito verde prefaziam o cenário. A meio umas pessoas, que vivem ali e acolá, porque se estão a construir resorts e, dizem, um casino. Uma casa chamada de assombrada, uma estranha construção, imponente e inacabda, a aparentar um já pequeno casino.
    Perto da população, numa subida sem saída, escondia-se um templo budista. Uma construção pequena e simples, a revelar as boas intenções religiosas. Uma vista extensa de verde a perder-se no nevoeoiro. Com o cair da tarde o frio fazia-se sentir mais intenso. Hora de regressar, para um final à beira rio, num bar com a água ali ao pé, com uma cerveja Cambodia na mão e umas gargalhadas entre amigos. Houve ainda direito a um mergulho enquanto se saboreava uma ou outra cervejola.
     Um começo bem humorado e descontraído, faziam prever uma viagem plena, afinal fora da cidade o reino é tranquilo, sem azáfama e vagaroso no seu jeito de agir.
     Os companheiros seguiram viagem. A próxima paragem seria Kep, a cerca de meia hora de Kampot. Uma pequena, também ela cidade, à beira mar, famosa pelo peixe e marisco, em especial o seu carangueiro. A pimenta faz também um vistão nos muitos pratos que confecciona. Sabe-se que se chegou ao destino, quando se avista uma estátua de um carangueijo, lá no mar, a imagem da cidade. Sempre a direito, entre casas dispersas e o nada, avistam o centro da cidade. Ali, os dois amigos queriam seguir directos uma ilha   chamada de Rabbit Island – a ilha do Coelho. O nome não é literal, porque à data nehum coelho foi avistado naquele pequeno pedaço de terra. Uma ilha deserta, onde mesmo em época alta, a tranquilidade existe e privacidade é possível. 



  
   Não era possível, àquela hora já não havia barcos que os levasse para o outro lado. Teriam de passar a tarde e a noite em Kep e só na manhã seguinte ir para a ilha. Compraram o bilhete, depois de regatear, como apraz o Cambojano, a quem Linda já conhecia as manhas. Havia agora um novo plano, procurar um local para pernoitar e tomar um merecido banho. Perguntaram ao senhor que lhes havia vendido os bilhetes onde poderiam encontrar um sítio barato para passar a noite. Afastado da praia, numa cortada quase imperceptível e por um caminho de pedras, Tom e Linda chegaram à pousada. Um sítio charmoso, calmo, com casinhas feitas em palha, uma cama, e casas de banho partilhadas. As casas estavam construídas numa pequena encosta, por onde descia um jardim.
      A noite estava encantadora, o pôr do sol mostrava-se num espectáculo de cores. O jantar foi num restaurante acima do nível do mar, construído sobre estacas de madeira. Ao longe avistaram pescadores a recolher as redes cheias de carangueijo, sentiram as ondas a remexer por baixo dos nossos pés, o olfacto absorveu a maresia.
     A comida guarnecida de pimenta fez uma festa nas pupilas gustativas dos dois viajantes. O molho preferido de Linda era simples, a pimenta preta de Kampot, usada por todo o país, e o sumo de lima. “Uma delícia”, contava ela.
No dia seguinte levantaram-se cedo para rumar à ilha. Como sempre, os horários do Camboja diferem entre uma a duas horas, isto quer dizer... que estão sempre atrasados. Já com longa espera Linda começou a recear terem sido enganados e fazia sentido ter sido mais barato. Ligaram ao homem dos bilhetes e ele disse sempre que alguém estaria para chegar. Na sua pontualidade, quase duas horas depois chega, alguém para os encaminhar até à ilha. Stress passado, tempo de apreciar a viagem de barco. Sentir o calor e disfrutar da paisagem. A viagem duraria cerca de quarenta e cinco minutos.
      O barco atraca ainda sobre a água. É preciso arregaçar as calças, precaver os bens e saltar o melhor possível. A Linda, a elegancia não chegou, saiu do barco num tombo que a deixou debaixo de água e com a máquina fotográfica ensopada.
     Ao longo da pequena dimensão da praia sobrevivem cerca de três negócios de bungalows. Alguns mais modestos e em feitos em palha, outros em madeira, criando uma atmosfera de Alice no País das Maravilhas. “Somos gigantes naquele pequeno pedaço de terra”, descreveu a nossa personagem. A tranquilidade de uma ilha sem luzes artificiais, que por volta das nove se apaga, cada um dos donos dos bungalows desliga os geradores, para uma noite iluminada pela lua. E essa brilha cheia de graça. 


     Acordar num local daqueles é quase idílico, recorda Tom. De manhã o galo canta e acorda os mais preguiçosos dos turistas. Manhã cedo e o sol já vai alto, convida a um mergulho no mar. Uma caminhada pela praia ou uma massagem ali mesmo, enquanto se passeia, a ouvir as ondas, a cheirar a maresia. Em cada um dos negócios existem restaurantes associados. Comida do mar cozinhada em modo artesanal, alimentou-lhes a alma. O mar pacífico repousou-lhes o corpo, que se foi deixando embalar nas redes baloiçantes em cada par de árvores ao longo do areal. A paz reina na ilha do reino. A noite cai, com ela as luzes. Fica a tal lua e fica a pureza do espaço. Repostas energias há que prosseguir com a viagem.
     Ao quinto dia, o destino era agora Sihanoukville. Uma terra com o nome de vila do rei, de praia, de ilhas e de uma noite que guarda alguns famosos segredos negros do Cambodja. A partir daqui Linda iria ao desconhecido. Tinha visitado antes Kampot e Kep e tinha ido até Siem Reap para ver Angkor Wat. O resto iria descobrir com Tom a seu lado. E até aquele ponto a jornada fluía. Estava calor, os locais e as pessoas com que se iam cruzando despertavam uma boa relação com o país. O único incomódo era o transporte da mala, desde Kampot, Tom tinha criado uma estrutura com paus de madeira atrás na mota. Contudo, era frágil e passava o tempo a desmontar-se, e, por vezes, a deixar a mala para trás. Pequenas atribulações, que se tornaram grandes com a distância a percorrer e o tempo a escassear. Momentos de irritação que começavam a deixar levar os dois companheiros pelo cansaço.
      A chegada a Sihanoukville durou, talvez, cerca de quatro horas, com paragens e desorientações pelo caminho, assumiu a nossa personagem. A entrar na cidade cansados e já sem saber o que fazer com a mala, que estava a ficar cada vez mais vazia, tiveram de pôr gasolina. A cara de desespero de Tom levou uma menina das bombas, que sem saber uma palavra de inglês, a apenas pegar na mala, virá-la na vertical, encaixá-la entre o volante e o assento do condutor. Assim resolveu o problema deste dois aventureiros. Quando Tom a conduziu, luz foi feita, aquela era realmente a forma mais confortável de a transportar.
     - Esta gente transporta grandes mercadorias em pequenas motas, há que os respeitar nisso e levar os seus conselhos a sério – comentou Linda com Tom. Ambos deram uma garglhada. Tão simples.
      Um problema resolvido. Havia outro para solucionar - situarem-se. Sihanoukville é composto por várias praias ao longo da costa. Os dois companheiros queriam ir a uma chamada Otres. Uma praia feita, mais uma vez, por expatriados, que a exploram com as suas guesthouses e bares, mas com uma boa onda no ar. Esta praia é conhecida pelo seu Mushroom Point, um pequeno areal rodeado de sombras feitas em bambu, em forma de cogumelos. Antes de conseguirem chegar passaram por outras praias. Com os seus bosques, as suas rochas e o seu mar azul. À volta haviam ainda mais ilhas desertas onde se pode pernoitar umas noites, no doce sossego do isolamento. Linda e Tom passaram um dia numa ronda a três ilhas. 


       - Uma excursão muito mal organizada, lá meteram cerca de trinta pessoas, ou mais, num pequeno e lento barco. Contudo a beleza das paisagens, aquele céu azul que desenha o Camboja, as ilhas com meia dúzia de bungalows e um ou dois pequenos restaurantes fazia esquecer qualquer frustacao, descreveu Linda. A vida simples daquele reino, que seja em terra ou no mar, nunca se lhe muda o ritmo.
     - Sem dúvida que nos faz ponderar o nosso lugar do mundo, reiterou. A viagem ao Sudoeste Asiático provocou-nos mudanças profundas, sem dúvida.  
     À noite Linda e Tom decidiram dar um giro pelo centro da cidade. Ver a famosa noite louca de Sihanoukville. Os dois, numa passagem, viram como funcionava, não era muito diferente de qualquer outra vida nocturna turística. Sexo fácil, pedofilia são a maior atracção turística naquela zona. Mandam os chulos e os mafiosos, na maioria estrangeiros, que à se noite rodeam dos prazeres da noite, de manhã batem com toda a agressividade na casa das meninas, entram e o que se passa lá dentro só eles sabem. Esta imagem deixou pouca vontade de usufruir daquela que dizem ser uma grande noite no Camboja. O vício circula livre, as leis tomam outras medidas. Tudo é possível naquela terra, a quem a gente de fora corrompe.





      Linda tentou afastar esta ideia e aproveitar a cidade. O final da tarde estava a chegar e era hora de mudar de poiso novamente. Seria um dos mais longos destinos a enfentar. O que nunca julgaram é que passariam dois dias no meio de uma densa floresta tropical e atravessariam uma das montanhas do mundo com menos mão humana. Encontrariam neste grande desvio e erro de cálculo as mais impressionantes paisagens e os mais incríveis sentimentos que alguma vez imaginariam na sua volta de mota pelo Camboja, com os seus vales encantados.

terça-feira, 23 de junho de 2015

Gente tao cool…

Em conversas aleatorias entre amigos, num outro dia, calhou em tema falar de vegetarianos, dos novos estilos que sao agora trendy, substituiem-se os velhos hippies pela nova tecnologia dos hipsters, que se ao que me parece se aliaram aos betinhos, que fartos dos polos e das calcinhas arranjadas, querem ser considerados mais alternativos, os punks foram passados para tras e estao em desuso, os goticos sao agora mais emocionais, e por ai alem no mundo das modas e dos grupos sociais.


Tantas vezes ouco falar e ouco pessoas assoberbadas de orgulho quando se dao o rotulo de vegetarianas. Abro ja aqui um parenteses para os mais susceptiveis, que nada tenho contra de quem escolhe esta dieta, mas quem a escolhe de forma desinterssada nao se gaba, nao deixa ao vento palavras bonitas, apenas o e, e ai nada a dizer. Aborrece-me sim, quem fala demais e age de menos.
Depois de as tanto ouvir e observar, percebi que este ser vegetariano e uma moda, um quer ser um tao cool e trendy, que nao sabe o que diz ou fala. Um ser que quer parecer, que a unica coisa que transmite e uma hipocrisia de algo que quer tentar ser de forma forcada e pouco digna.
Falam dos direitos dos animais, da brutalidade com que sao alimentados e levados ao momento da matanca. Pode tudo ter um fundo de verdade, mas claro esta, em toda a natureza, em toda a fauna e flora, existe, desde sempre, uma cadeia alimentar, uma luta pela sobrevivencia e isto provoca o equilibrio do mundo natural, ou assim o deveria ser.
Talvez se tenham esquecido dos bancos da escola e das aulas de ciencia. O que talvez se tenham esquecido e das noticias de tantas cacas ilegais, de tantos animais mortos por marfim ou por pele, que estes vegetarianos, na sua maioria filhos da riqueza e da vaidade, se passeiam pela vida a ostentarem boas botas de pele e casacos de cabedal, cujo dinheiro paga os cacadores ilegais e contribui para a continuacao da exterminacao de animais, quase sempre em vias de extincao. Tudo em nome da moda e da beleza vaga.
Gostam tambem de decorar as suas casas com fantasticas estatuetas ou artefactos feitos de marfim, que sacrificam tantos elefantes, e esses sim, nao sao feitos para comer. Talvez tambem no seu dia-a-dia de beleza trendy e cool usem a sua dispendiosa maquilhagem, feita dos sacrificios de tantos animais, como o grande mamifero dos mares. Por isso me questiono o que vai na cabeca desta gente. E com isto escondem a fealdade das suas atitudes, das suas caras cobertas de mentiras e cinismo.
      Mas comer carne para se alimentar, nao pode ser ser, porque mata os animaizinhos. Tambem talvez se esquecam que as plantas, elas seres vivos e umas ate sao carnivoras as grandes pecadoras.
     Hipocrisia, burrice ou simplemente mentes vazias de valores e de razao, que querem parecer bonitos aos olhos dos outros, que tambem eles burros ou hipocritas os acham uns “gandas fixes” e que nao tenham qualquer discernimento ou cerebro a funcionar.
O que se passa no mundo de hoje, uma crise de valores, uma confusao entre o certo e o errado, ou simplesmente uma futilidade de farsante, que se impoe como defensora e modelo a seguir. O mais engracado disto tudo e que ha ja nomes bonitos para isto tudo, ate para o seu movimento. A sociedade cobre-se dos cool hipsters, que se passeiam com as suas roupas alternativas, que talvez lhes tenham custado os olhos da cara ou talvez sejam feitas de pele, nas suas mochilas carregam I qualquer coisa que a Apple desenvolveu e mais umas tantas tecnologias caras. Na boca trazem palavras pomposas como organica, urban yoggie (que me faz sempre lembrar da marca de iogurtes), agricultura biologica, vegetarino, veggie, vegan, que agora pelos vistos existem varios tipos, como as religioes, e so escolher a quem mais lhe convem e a que lhe parece mais estilosa.
Cruzei-me com varias especimes desta cultura tao trendy, que me comecaram a enunciar palavras bonitas, que eu nao entendia. Ao inico pensei que houvesse alguma ciencia por detras, que a culpa seria minha, estaria eu mal informada? Fui ao fundo da questao e a primeira que desvendei foi a agricultura organica e biologica.
Perguntei a uma desta especie o que era a tao famosa agora agricultura biologica. A especie altiva e cheia de orgulho, nos pes umas valentes botas de boa pele, comecou-me a contar que tinha ido fazer um workshop desta agricultura, numa quinta em Hong Kong. Em grande estilo ja para comecar. Era vegetariana e defendia-o com unhas e dentes. Ouvi-a com atencao.
-      Sabes, plantamos muitas coisas, havia minhocas e tudo e o mais impressionante foi o facto de usarem o coco das vacas para fertilizar a terra.
Fiquei estupefacta com tanta estupidez. Respondi:
-      Sabes que o coco das vacas se chama estrume e isso ja e usado ha demasiado tempo para que so agora penses que e novidade.
Olhou para mim, sem qualquer reaccao. Afinal a diminuicao de quem cresceu no campo, parece que se transformou agora numa alta inteligencia. Na sua maioria meninos e meninas citadinos, que sempre acharam que ser do campo e menor, e parolo, nao e de bem, acham agora que tudo sabem sobre a vida no campo, e sao tao fixes.
Foi assim que fiquei esclarecida, com a estupidez de quem se quer fazer passar por quem nao e, ou quem pensa ter um tesouro de conhecimento sobre uma das mais antigas actividade do ser humano, que contribuiu para a nossa evolucao de nos seres sedentarios e do viver em sociedade. Parece que tambem faltaram as aulas de Historia. Se nao era assim, nao faco ideia como o primeiro homem fazia a sua agricultura.
Outro especie que conheci tinha acabado de visitar Portugal, um pais de natureza rica e de tradicao agricola. A tentar ser simpatica e a espera que este especie, que tanto gostava de se chamar de alternativo e de dizer comer organico, tivesse uma resposta minimamente inteligente.
-      Ah Portugal foi muito bom, e um pais muito organico.
Fiquei sem palavras, redimi-me a sua ignorancia. E quando lhe olhei para os pes, ostentava tambem ele umas botas de pele, que tanto se gabava por terem sido caras. Uma outra especie, que se auto-intitualava de freaky ou urban yoggie, passeava-se em grande estilo com o seu casaco de cabedal e a sua fashion super trendy. Mas o que interessa e chamar-se vegetarianos, organicos, alternativos. Querem dizer que estao perto de uma natureza que desconhecem. No momento da verdade fogem dela a sete pes, afinal de contas e suja,  nao tem predios, nem lojas de peles para os seus casacos e sapatos.







terça-feira, 3 de fevereiro de 2015

Um regresso ao pressente


Linda George voltou a ver Macau. O seu guião parecia levá-la para aquele sítio, desta vez, com o coração apertado de quem fica onde não esta bem, a nossa personagem teve que fazer paragem nestas bandas por um questão de visto. Por mais de um mês foi turista em Macau, reconhecendo-lhe os becos, fugindo ao publicitado como a galinha dos ovos de ouro da terra dos casinos. Deixou de lado a loucura destes estabelecimentos de luzes ofuscantes e deixou-se levar pelos pequenos pormenores que abrem uma brecha para uma velha Macau. Ruas, ruelas, becos, espaços que se abrem longe do frenesim dos neos e do jogo livre e desenfreado. A afamada Las Vegas chinesa vive um presente inquieto, vive enterrado num objectivo único, que deixa de fora a população local e os pequenos comerciantes. Ruas calcorreadas por um mar infindável de gente, que dificulta uma vida diária, os preços a subir, uma nova geração sem poder de compra. Uma Macau visivelmente dos ricos, de quem conhece alguém, de quem se vai safando, dos lideres dos gangs, dos mitras, uma terra de quem pertence ao dinheiro. Ostentação, espectáculos cheios de glamour, salas de casinos apinhadas a qualquer hora do dia, turistas apertados nos locais que se dizem ter que se visitar, nos bens que se tem que comprar. Sacas e mais sacas, onde se lêem marcas caras, que saciam a alma do chinês agora rico.
Linda não conheceu o Macau de antigamente, aquele sitio calmo, tranquilo, de pescadores, de mistura de raças, onde havia qualidade de vida. Segundo sempre ouvia, depois dos anos noventa, aparentada década de ouro, tudo mudou, tudo se transformou. A era desta colónia portuguesa, fácil e calorosa, foi sendo deixada no passado. O futuro vê-se diferente, a grande China pensa outros planos para a RAEM e mostra-o em grande estilo. Poder. O poder de um Governo Central que se vai mostrando com a apreensão de cargos importantes e das meninas mais famosas de Macau, as meninas do antigo hotel Lisboa, que desfilavam, sem parar, nos corredores, numa mostra aos clientes. As meninas que viviam num aquário, a procura de dinheiro por um punhado de homens a precisar de libertar a sua libido. Um dos mais poderosos hotéis atacado por alguém. Uma ameaça? Uma chamada de atenção? Uma mostra de poder? Em Macau ha murmúrios de máfia a voltar a tona, na grande China prendem-se corruptos.
A Macau dos anos noventa, apesar de levar uma vida local pacata, foi também marcada por grande actividade das suas máfias. Ouviam-se e tiros, havia incêndios e bombas postas em certos locais que dispensavam a protecção dos gangs. Houve uma prisão do líder do grande gang. Mais de uma década passada, Macau apinhou-se de gente poderosa, lida com muito dinheiro, o líder foi libertado e prometeu paz. Queria vingança, mas na região do turismo, tudo o que não se quer e mexer com a fluidez com que tudo acontece. Ha pequenos pormenores que fazem adivinhar que algo anda a mudar. Uma caça aos maus? Será agora que podemos vê-los a afundar? - perguntava-se Linda muitas vezes.
No meio deste filme de gangsters e jogo, esconde-se como escolha cénica, uma terra que alberga raças de todo o lado, que na sua pequenez faz conviver diferentes países. E estes parecem viver em harmonia. Os chineses compõem a maioria, muito provavelmente oriundos de algures da grande mãe, mas já com gerações que pertencem a China de Macau. Os filipinos representam a segunda maioria de habitantes. Sao os trabalhadores, são amas, empregadas de limpeza, trabalham nos casinos e no aeroporto, são explorados e as vezes maltratados. Vivem rodeados da sua comunidade, agem como uma grande família.
Linda George tinha uma cabeleireiro e eleição em Macau. Um filipino, mulher em toda a sua essência e no seu  jeito de ser, homem no aspecto físico, talentoso de tesoura na mão. A fama vem-lhe das Filipinas, onde trabalhava como responsável pela beleza de gente famosa. Chanel era o seu nome. Tinha a casa cheia de clientes a qualquer dia da semana, a sua loja enchia-se com filas de horas, a espera das mãos de Chanel. Os mais próximos chamavam-lhe Mama Chanel e tratavam-no por ela. Apropriado, sem duvida. Uma lady num corpo de homem, rechonchudo, de rabo empinado e mão de lado a dar-lhe o estilo. Linda, como todos, esperava horas na fila, porque ele era realmente bom, e mais barato, que nos fashionistas de Macau e o seu corte a artista pop.
Nas horas que passava na loja, a espera das mãos da Mama Chanel, Linda ia tendo contacto com o ser filipino. O salão era todo ele como uma qualquer sala de estar. Pessoas a conversa, risos altos e sentidos, cantarolices, como apraz o bom filipino. Serviam-se cafés, ia-se buscar comida para os mais esfomeados. Uma grande reunião de famílias. Linda gostava de chamar os filipinos de latinos da Asia. O seu jeito caloroso, talvez reminescente do sangue espanhol que lhes foi herdado, define o povo filipino de forma muito simples. Abraços, beijos, lagrimas, risos, drama e mais drama de quem vem de um pais corrupto, a procura de uma vida melhor. E aqui, são felizes, apesar de separados das famílias e filhos feitos ao desbarato no calor da paixão. “Como uma vez uma filipina me disse, pensam primeiro com o coração e so depois com a cabeça, seguem o coração, apaixonam-se, amam e fazem filhos, como manter a relação ou criar o filho, não sabem bem, mas isso não importante, o amor e tudo”, recordava Linda. Para ela, este desabafo fazia-lhe todo o sentido para descrever este povo. Quase sem excepção, já todos tinham filhos, e muitos, mais que um. Foram deixados nas Filipinas, com os avos, a reconhece-los como pais, a afastarem-se de quem os teve. Quem os teve trabalha, num outro pais qualquer, ganha um salário sobrevivente, vivem empacotados em apartamentos, mandam o que ganham para as famílias. Os filhos vão ficando, ao encargo dos avos, sem poder viver com os pais. Algo dramático, mas que parece ser uma pratica comum deste povo, também ele espalhado pelo mundo, em países onde podem fazer uma vida, ter um trabalho onde ganham dinheiro para ajudar os seus. Em Macau respira-se filipino, ouve-se a língua, que soa comum aos ouvidos, que se reconhece, que ate se sabe umas palavras. Tagalog, uma língua que soa a uma mistura de espanhol com algum tipo de língua muçulmana, que explicada pela sua localização. Uma colónia espanhola que lhes deixou a paixão e a língua, uma sudoeste asiático que lhe conta a geografia e lhes define a personalidade. Oriundos de um pais pobre, tem a lábia de quem pedincha qualquer coisa, de quem abusa da confiança. Macau representa um futuro rico, alguns sobrevivem ordeiramente, outros perdem-se num imaginário jackpot nos casinos. 
Linda gostava de os observar, pareciam alegres, calorosos, defensores da sua cultura, da sua língua, do seu jeito de ser e de olhar o seu próximo como irmão. Um povo que sobrevive com a musica nos sentidos e o drama no coração.
Estas duas nacionalidades parecerem constituir a maioria da Macau do século vinte e um. Restam ainda um bom numero de português, não tão em abundância como no antigamente, mas ha uma vaga de novos vindouros, que também eles, procuram uma vida melhor, onde pensam ainda encontrar um poderio colonial. Ha também americanos vindos com a vaga de casinos, australianos, para a construção, que vao diminuindo, russos, com os seus negócios e as suas mulheres altas e esbeltas. E toda uma panóplia de nacionalidades, que fazem os espectáculos dos casinos, que são arquitectos, designers, dançarinos, acrobatas, cantores, entre outras profissões ditas liberais.
Esta mistura de culturas  fascinava Linda. Contudo, apesar de viverem juntas, as comunidades em Macau tendem a fechar-se nas suas culturas e a não conviverem. Contudo, ha sempre alguém que quer partilhar experiências com outros, sem querer saber o que lhe define o passaporte. Linda considera-se cheia de sorte quando vai encontrando estas pessoas na sua viagem. E por esta Macau, Linda passou os seus dias. A terra onde se sente o local, onde os seus habitantes locais habitam, onde se convive, onde se sente aquela Macau que um dia foi uma contadora de historias de navegadores e pescadores. Linda voltou a Macau e sempre que volta descobre ruas novas, paralelas, pequenas, com casas baixas, com portas pequenas, que dão tecto aos habitantes mais antigos, que vivem a vida longe da correria turística e do corrupio de fotografias e sacos de lembranças. Uma Macau pacata, com gente da sua terra, que vive o ritmo de uma terra de outrora. Ruas que desvendam a essência da gente de Macau. Da gente que aqui vive, que e de Macau, que lhe entende a língua, que lhe reconhece os recantos e os truques.
Linda relembra uma dessas noites, onde um jantar em casa de uns amigos a levou por novas ruas e vielas,  com um templo a dar-lhe o brilho arquitectónico, carrinhos de comida de rua e uma esplanada mesmo ali no passeio. A noite estava agradável, a iluminação e a solidão tardia da hora preencheu o cenário de melancolia. Uma cena perfeita para um filme sobre Macau. A trama continuaria na Macau da busca pelo dinheiro, do limitar uma carreira a um emprego no casino que melhor pague, rodeando-se de um glamour e de um estilo de vida condicionado pelas muitas paredes daquelas construções majestosas e imponentes. 


Um anjo Tailandês e uma Deusa negra

Durante a sua viagem pela Asia, Linda George viveu experiências que a transformam enquanto ser humano, e sentiu afectos que achava esquecidos na sua espécie. A curiosidade de experimentar, de viver cada momento de cada civilização por onde que passava deu ao final da viagem de Linda e Tom um desfecho inesperado que os iria deixar à deriva num hospital da Tailândia. O desprendimento com que visitavam e comiam, num efeito de habituação de quem tem que esquecer o conceito de higiene que traz da sua cultura, tardou, mas fez-se sentir sem dó nem piedade. Nesse mesmo desfecho, os protagonistas desta história encontraram o mais precioso sentimento, que os deixou estonteados, a bondade de um desconhecido. A viagem a Myanmar não correu como esperada. O país que mais ansiavam chegar entregou-os a um desapontamento depressivo.Decidiram sair do país mais cedo do que o previsto. Acordam cedo e procuraram a agência onde tinham comprado o voo. Queriam voar naquele mesmo dia, mas o destino parecia dar sinais de que algo estava para acontecer. O preço avultado de uma mudança de viagem no próprio dia, deixou-os retidos mais um dia na capital de Myanmar. Sentiam-se cansados e fracos, um corpo a desfalecer no tempo passado nas estradas do sudoeste Asiático. O espírito, também esse estava difícil de manter, desanimado, decepcionado, esgotado psicologicamente. A balbúrdia daquela cidade desorientava-os, os cheiros revoltavam-lhes o estômago. O odor do tabaco vermelho que mastigam, as ruas cobertas de cuspidelas deste produto deixavam Linda tonta e enojada. Apoderou-se sobre ela uma vontade de se fechar no quarto do hostel e não sair até a hora da viagem, que os levaria dali para fora. Tom desejava que o tempo passasse o mais rápido possível. Contudo, tinham que esperar e passar aquele dia a mais na cidade. Procuraram um restaurante para almoçar, a tarefa parecia impossível, os cheiros e a higiene tirava-lhes a vontade de comer. A chuva que brindou o dia não ajudava, inundava a cidade de cheiros passados, enchia as ruas do lixo produzido e deixado no chão ao desbarato. Encontraram um dos muitos sítios de comida indiana, pareceu-lhes minimamente limpo. O menu estava quase todo esgotada, não lhes restavam muitas escolhas. Pediram o que puderam, ingeriram o que conseguiram, o suficiente para se aguentarem. A seguir ao almoço, enquanto tentavam escapar a chuva, Linda começou a sentir umas pontadas fortes no estômago. Deixaram a chuva amainar e decidiram voltar ao hostel e descansar por uns instantes. Tom estava bem, apesar de naquela tarde ter tido frequentes idas a casa-de-banho. Passaram a tarde no quarto, Tom tentava, de pois muito tempo ausente, contactar alguns amigos, dizer olá, está tudo bem. Linda, essa, tentava ir dormindo sestas inquietas. A dor parecia ter desaparecido. Já hora de jantar e a fome a apertar, ganharam coragem e saíram das quatro paredes e jantaram  num tasco mesmo ao lado do hostel. Meio sujo, mas não dos piores, tinha vários pratos e até batatas fritas. Pediram os pratos e regaram-nos com cerveja. Tudo parecia estar bem, sentiam-se melhor, a comida estava deliciosa e a cerveja caia bem. Parecia, afinal de contas, um não tão mau desfecho, nos instantes finais naquele território. 
Iriam passar os dois últimos dois dias e meio na Tailândia, seria desta que iriam visitar o sul do país. Contudo, as circunstâncias estariam prestes a mudar com o acordar do novo dia. Tom levantou-se, sentia-se indisposto, e corria para a casa-de-banho a cada quinze minutos. Começou a sentir-se enfraquecido e nem sequer tocou no pequeno-almoço. O tom de pele tinha-se alterado, estava com uma cor azulada, que previa um mau estar mais grave. Até à hora de ir para o aeroporto, Tom tinha piorado, mal se aguentava em pé e deixava fechar os olhos a cada passo que dava. Linda estava inquieta e tinha devorado os naams do pequeno-almoço, na tentativa de absorver algo que nao sabia explicar e que nunca mais conseguiu comer de ânimo leve. Ainda se sentia bem, tentava cuidar de Tom o melhor que as circunstâncias lhe permitiam. Tom enfrentou as filas do aeroporto já de arrasto, quando se sentou no banco do avião, adormeceu de imediato. Linda começava a sentir também desconfortável. Sentia o seu sistema digestivo num corrupio. Assim que aterraram ambos procuram desenfreadamente uma casa-de-banho. Linda estava pálida, sentia o corpo vazio de corrente sanguínea. Fracos e Tom já desfalecido nos seus braços, procuram a clinica do aeroporto. Linda num desespero pede que lhe passem uma receita para a intoxicação alimentar, o pessoal da clinica insiste que ele fosse visto por um medico, Linda tentava resistir, quando se deu conta do estado de Tom. Quando voltou da sua busca, sem sucesso, procurar por uma famárcia que lhe vendesse algum medicamento que ajudasse o seu companheiro, Tom tinha-se deixado cair no sofá da sala de espera. Linda correu para o socorrer, ardia em febre. Precisava de um médico. Foi-lhe diagnosticado uma infecção no aparelho digestivo, provocada por uma bactéria qualquer deixando uma severa intoxicação alimentar, e por conseguinte desidratação. Enquanto Tom estava a ser medicado, Linda começou a ter os mesmos sintomas. Idas constantes ao WC e um sono perturbador. Cansada e já ela também enfraquecida, adormeceu ao lado da cama de Tom. Este, por usa vez, acordou depois de umas horas de sono. Dizia sentir-se melhor, apesar do aspecto físico dizer o contrário. Levantou-se e quis ir embora. Pediram a conta, mas quando foram levantar dinheiro, a sua situação deu uma volta, que os iria levar aos limites da necessidade e da dignidade humana. Seriam postas à prova na sua capacidade de sobrevivência, num país que não era nenhum dos seus, num país que vive e fala diferente. Linda e Tom correram as caixas multibanco do aeroporto. Todas lhes negaram dinheiro. Não entendiam a razão, verificaram o saldo e a conta ainda tinha dinheiro. Na carteira tinham meia dúzia de dinheiro tailandês e quarenta e cinco dólares em dinheiro de Myanmar. Uma solução tinha sido encontrada, bastava fazer o cambio e assunto resolvido, e assim poderiam pagar a conta do hospital. Dirigiram-se a uma caixa de câmbio e foi-lhes informado que nenhum banco lhes trocaria a moeda de Myanmar,por não ser ainda uma moeda internacional. Um nervosismo tomou conta de ambos. Um desespero, teriam que engolir o orgulho e voltar ao hospital mendigar que lhes fosse perdoada a dívida. Enquanto Tom negociava com eles, sem sucesso, com uma enfermeira que insistia em ser arrogante e sem coração,  que apesar da sua ganância teve que entender que não havia dinheiro para pagar. Perdoou-lhes a dívida, deixou claro que seria a primeira e ultima vez e negou os medicamentos a Tom. Os dois saíram da clínica envergonhados e nada saudáveis. Sem dinheiro, sem sitio para onde ir, sem forças para tomar decisões, Tom e Linda deixaram-se ficar pelo aeroporto. Tentaram ligar-se a internet para contactar amigos que viviam na Tailândia. O estado de Linda começava a piorar. A febre ia alta, Linda sentia-se zonza e a desfalecer, sabia o que a esperava, via o seu futuro em Tom, sabia que não havia dinheiro para que pudesse também ela ser medicada de alguma forma. Um pânico tomou conta do seu corpo dolorido e quente. Procuraram um local onde batesse o sol, no pais do calor, ambos sentiam um frio desconcertante. Tom olhava Linda num desespero de quem não tinha como resolver o problema. O local escolhido para se abrigarem ao calor do sol, era o caminho feito por todos os trabalhadores das companhias aérea, um corrupio de gente, que olhava Tom e Linda com desprezo. De toda aquela gente, nenhuma parou para sequer perguntar o que se passava. 
Sem aguentar ver a sua companheira a contorcer-se com dores, olhou-a nos olhos e disse-lhe: 'Não sei o que fazer, a única coisa que consigo pensar e em voltar aquela clínica e pedir ajuda, talvez...' Linda olhou-o e deu-lhe um sim, como se aquela fosse a ideia do ano. Voltaram, humilhados. A mesma enfermeira atendeu-os, troçou deles, olhava para Linda, já em delírios febris, e ria-se, como se gostasse do que via. Linda não aguentou e as lágrimas caiam-lhe cara abaixo, quentes e doentes. Por esta altura, os acontecimentos tiveram uma viragem, entraram em cena seres humanos dotados de alguma compaixão pelo seu próximo começaram a mostrar indícios de uma melhoria na sorte destes dois. Começou com a troca de turnos entre enfermeiras, a megera tinha acabado o trabalho e na sua vez tinha entrado uma outra ao serviço, que parecia mais meiga. Dirigiu-se a Tom para saber o que se passava, olhava Linda com um olhar de quem queria ajudar. Deixou-os ali algum tempo sem resposta. Voltou a eles, com uma solução. Ela chamaria uma ambulância do hospital publico, que os levaria de graça e lá Linda poderia ser assistida. Tom agarrou em Linda, já desfalecida, e levou-a à ambulância. Os auxiliares mandaram o corpo de Linda para um banco estreito, e desconfortável, sem grandes delicadezas arrancaram, deixando os corpos de Linda e Tom a deriva. Apesar da rudez, fizeram entrar Linda de urgência, puseram-na numa maca e tentaram entender o que se passava. Não demorou muito ate que alguém a atendesse. A barreira da língua foi atenuada por um medica jovem que arranhava no inglês. Tentou falar com Linda, mas esta tinha dado entrada com um ataque de pânico que lhe deixou os membros superiores paralisados e lhe descontrolou a respiração.  A jovem medica precisava que Linda falasse, deu-lhe um saco de papel para a mão e pediu-lhe que respirasse para dentro do saco. Linda acalmou e finalmente saiu do seu estado de alienação. Sentia o corpo dorido e uma sede insaciável. Pediu água, alguém a ouviu e veio a ela a rir-se e a repetir a palavra. Esse alguém parecia mais feliz por ter entendido uma palavra em inglês, do que propriamente pronto a fazer o seu trabalho. E Linda continuava seca. Foram-lhe feitos vários exames, estava intoxicada e desidratada. Foi-lhe dada medicação, que a deixou desorientada e a invadiu-lhe  um sentimento de desespero tão grande, que quase inconsciente, esbracejou  varias vezes para se tentar levantar da maca e arrancar os tubos que a medicavam. A resistência dos médicos ao descontrolo de Linda permitiu que conseguisse permanecer deitada. Conseguiu acalmar e deixou-se dormir. Inquieta e sem ver Tom, queria procurar por ele, mas sabia que ele estaria algures perto, a tentar também ele, recuperar. Uma das vezes em que acordou, Tom estava ao seu lado. Olhou-o, sentiu-se segura e voltou a dormir. Tom, ainda doente, tentava encontrar cantos onde pudesse descansar o corpo. Passado algumas horas, Linda deu de si, acordou e sentia a força voltar ao seu corpo. Ainda decadente, levantou-se e procurou Tom. Trouxeram-lhes a conta, e por 100 bahts, não tinham mais uma vez dinheiro para cobrir as despesas. De novo, explicaram o que se estava a passar, mas na mesma queriam o dinheiro. Confiscaram o passaporte de Linda, para se certificarem que voltariam para pagar. Nenhum deles sabia o que fazer. Não tinham como pagar, e sem passaporte não poderiam sair do pais. Estavam mais perdidos que nunca. O amigo de Tom vivia numa outra cidade, a amiga de Linda não tinha respondido. Já era tarde e ambos ainda estavam convalescentes.  
Mais uma vez, Tom dirigiu-se a Linda e com um olhar confuso perguntou-lhe se ela se importaria de dormir ali no chão da sala de espera, ele tinha visto gente lá a fazer o mesmo. Tinha consigo duas tolhas que tinha tirado da maca de Linda. Ela acedeu de imediato, como se ele lhe tivesse dito que iam dormir numa suite de um qualquer hotel de luxo. Moribundos e ainda drogados de dor e medicação, estenderam uma das toalhas, fizeram das mochilas um encosto e dos sapatos a almofada. Cobriram-se como puderam com a outra toalha. Linda nunca esqueceria o azul daquelas toalhas. 
No meio do sono, foram acordados por uma das enfermeiras que fazia o turno da noite. Abriram os olhos, mas a visão estava turva, recordam uma mulher que estendeu o passaporte a Linda para o devolver. Linda lembra ter balbuciado qualquer coisa a ver com o facto de não terem dinheiro. Ambos lembram as palavras daquela mulher, como um milagre. "Alguém pagou a vossa conta. Aqui esta o passaporte e a medicação prescrita pelo médico". Linda e Tom contam ter tido a mesma reacção, ambos levantaram cabeça, emitiram um som de espanto e voltaram para a sua inércia. Antes de adormecerem de novo, murmuram que deviam agradecer, mas não tinham forças suficiente para o fazer. Linda ainda se levantou para mais uma infindável ida à casa-de-banho, no regresso tentou ver  se encontrava a cara de quem os tinha ajudado. O curto espaço de visão que tinha, não a deixou ver claramente, deixou-se fazer uma vénia, a pensar que se ele estivesse ali, poderia sentir o agradecimento que tanto merecia. E só acordaram naquela manha já com o sol nascido. Tom acordou e queria sair do hospital, sentia que estava na hora, sentia-se humilhado e fraco. Ainda quiseram procurar aquele anjo da noite anterior, queria saber o nome, mas os turnos tinham mudado, levando consigo os vestígios daquele desconhecido. 
Saíram do hospital, contaram os trocos e compraram alguma comida e água, numa loja de conveniência portas meia com o hospital. Encontraram mais a frente um café com internet. Linda insistiu em descobrir o número de telefone da sua amiga. A sua busca teve um final feliz, procurou um telefone público e conseguiu contactar a amiga. Quando do outro lado da linha houve resposta, Linda chorou e pediu ajuda, precisava apenas da morada, ainda tinham algum dinheiro para apanhar um táxi. Deambularam os seus corpos exaustos pelas ruas até encontrem um livre, que os levasse a um porto seguro. Com aspecto de vagabundos bateram à porta, quando esta se abriu, Linda entregou-se aos braços da amiga, que naquele momento lhes pareceu a sua Deusa, de entre muitos que viram naquela jornada. Ambas riram, quando Linda evocou as crenças da amiga e apelidou-a do seu Deus negro. Inglesa de criação, apressou-se a servir um chá com leite aos moribundos. Uma bebida quente refez os corpos, endireitou-lhes as costas e deu-lhes a consciência do que tinham passado. Se a assistência não tivesse vindo ao seu alcance naquele tempo perfeito, o pior poderia ter acontecido, os sinais de desidratação no seus corpos deixava lembranças de tempos difíceis e de um físico debilitado, que iria acompanhar o casal ainda mais uns bons dias. A falta de dinheiro e apenas com medicamentos para um, partilharam a receita, e tardou o efeito desejado. Uma semana depois Tom apresentava melhorias, Linda ainda tentava livrar-se de um sistema envenenado. A amiga recebeu-os, deu-lhes um tecto, uns sofás improvisados para se esticarem, alimentou-os, deu-lhes algum dinheiro para que pudessem continuar a sua viagem e regressar ao Camboja, onde a sua espera estavam os seus pertences e uma viagem, que levaria Linda a terminar a sua estadia naquela país. 
Quando voltaram a pousar naquele reino, tudo lhes parecia encantado, familiar e tinha algo de casa. Passaram dois dias na capital do reino, despediram-se dos amigos, embarcaram de novo rumo a Macau, ainda debilitados e cheios de malas e bagagens, que viria a ser mais um teste a sobrevivência destes dois. De novo, amigos acolheram-nos e o casal pode recuperar e repor algum do peso que tinham perdido. Numa viagem encantada ao sudoeste asiático ficaram as recordações, guardaram-se as experiências, tiveram-se lições de vida. E foi no pior momento da viagem, que ambos os nossos protagonistas encontraram a bondade humana e um início para contarem as suas histórias pelas rotas do Sudoeste Asiático.