domingo, 11 de agosto de 2013

Uma trapalhada eleitoral

A nossa personagem rejeita política e políticos, no entanto tem dentro de si algo que a faz vibrar quando se aborda o tema. No Cambodja com a inflamação dos acontecimentos, Linda tem-se sentido, quase em missão. Quer saber tudo, fala com locais e estrangeiros, pelo menos com aqueles com quem pode falar. Tenta entender como funciona a política neste lado do mundo.
No passado dia 28 de Julho o povo Khmer votou. Votou para continuar a ter paz. Mas, começou nas urnas o regresso de instabilidade, quando houve pessoas a não constar nas listas, outros tinham o seu nome mais que uma vez; ou pessoas a votar duas vezes e as autoridades a darem cartões de voto temporários. Tudo vale para o belo do“cacique”.  Prometeram-se protestos.
A agitação teve início. Protestos e algumas pedras atiradas por gente local aos vietnamitas que podem votar. A oposição estava atenta. O líder do Cambodja tem a fama de ser um fantoche manobrado pelo Vietname.
Havia tensão no ar, as pessoas estava agitadas e assustadas.  
- A polícia tinha lançado uns tiros para o ar para parar as reivindicação. Em terra de guerra é o suficiente para o pânico – comentou Linda.
Phom Pehn aliviou-se de gente e de trânsito. Ficou uma cidade tranquila, mas por dentro estava em convulsão. As pessoas estavam a ficar nas suas províncias, onde tinham ido votar. Linda ouviu que o objectivo é manter o maior número de pessoas fora da cidade.
Jackon o amigo de Linda estava em frenesim.
- Sabes, o meu vizinho disse-me para ir comprar mantimentos e fechar-me em casa. A minha namorada quer que vá ter com ela à província. Nem quer voltar sozinha, vai tentar regressar com escolta.
- Oh, outras pessoas disseram-me para me preparar para ir para Siem Reap. - E outras dizem está tudo bem.
Depois de todas as mensagens, a nossa personagem perguntou-lhe:
- E o que estás a fazer.
- Estou no mercado a fazer compras, que vou-me fechar em casa. Faço o que diz o meu vizinho.
E este era o cenário local.

A tensão continua. 

O Cambodja tem um líder há 28 anos e, segundo o que foi escrito em notícias, décadas de autoridade dão à pessoa em causa, poder sobre as eleições e sobre as instituições chave. A oposição reclama fraude massiva no processo eleitoral e ameaçou um boicote à porta da Assembleia Nacional, caso não seja levado a cabo uma investigação independente. A investigação começou. Estados Unidos, claro, que já tinha declarado o não apoio a este governo e a eleições fraudulentas. Aos USA junta-se a  União Europeia. Já estão ao serviço, numa dita independência.
O povo está num impasse. O Comité Eleitoral Nacional não revelou ainda os resultados oficiais. O partido no governo reclama a vitória . Pouco depois das urnas terem fechado, este anunciou ter ganho com 68 lugares a serem ocupados pelo Cambodian People’s Party (C.P.P.) e 55 pela oposição - Cambodia National Rescue Party (C.N.R.P.)
O Primeiro Ministro opõe-se a qualquer inquérito não supervisionado pela própria comissão eleitoral e ameaçou redistribuir os lugares do CPP pelos que  CNRP deixar vagos.
Quem paga é o povo, que de repente, vive tenso e na incerteza. A oposição já vai na terceira fase de protestos e diz não parar até que haja uma conclusão.
O potencial de manifestações em massa tem tendência a crescer. O governo viu-se obrigado a redobrar a segurança na capital. A Amnistia Internacional  apela às autoridades e aos  líderes políticos para prevenir a violência.
"As autoridades do Cambodja e de outros dirigentes políticos no país devem garantir que a tensão pós-eleitoral não expluda em violência. Muitos cambojanos quiseram mudança - os líderes políticos devem fazer tudo para garantir que esta seja alcançada pela via pacífica e com pleno respeito pelos direitos humanos" disse Isabelle Arradon, a Amnistia Internacional o Vice-director do Pacífico Asiático.
Diz-se que o povo pediu mudança, e de acordo com os resultados que saíram  nem tudo foi derrota. A oposição tem agora um dizer nas decisões, os lideres já não estão sozinhos.
No entanto, os partidos não param de se disputar, se Sam Rainsy – líder do CNRP diz que vai haver nova onda de protestos  Hun Sen, do CPP, retalia e diz que o seu partido pode realizar contra-manifestações.
Mais uma vez, o povo continua à deriva e intimidado. Do que se diz as pessoas têm cortes na Internet por cabo a certas horas, a base militar cortou o acesso. O líder actual promete aumentos nos salários dos funcionários públicos. E mais para o final do ano.

Mesmo quem quer oposição admite que não sabe se o Rainsy é a melhor opção ou teme pela retaliação. A água ainda agora começou a ferver. Espera-se que não seja atingido o ponto de ebulição. 
 - Também já ouvi quem diga que nada muda, seja qual for o nome do partido no governo... e quem está no poder já perpetuou a linha que se segue...

sexta-feira, 2 de agosto de 2013

Cristãos por um budista

Quanto mais mergulha na cultura Khmer, mais ondas de metros vai encontrando, que a fazem perceber, que vive num país tão diferente do seu.
Religião. É este o tema que debatemos juntas e mais uma vez, Linda tem o dom de me deixar em grandes considerações sobre a vida e tudo o que a rodeia.
Num país ocidental o fosso cultural não passa muito pela religião, se calhar. Numa Macau chinesa (é no feminino, devido ao seu nome oficial: Região Administrativa Especial de Macau) há celebrações da China, e de Portugal. Sentem-se os festejos católicos, com procissões, santos, e religiosamente se celebram as grandes datas, como Páscoa e Natal. Da China, vêm algumas tradições budistas. A parte religiosa é uma mistura de budismo, confucionismo e taoísmo, sendo estas últimas também consideradas filosofias. Fazendo assim, com que a religião na China não seja um consenso. Assim vive o chinês cheio de filosofias, e que caros leitores, às vezes apercebemo-nos que o mundo dito ocidentalizado devia adoptar.
Se o mundo asiático e o mundo ocidental se misturassem, o mundo talvez estivesse melhor, nomeadamente em valores. Não os valores da China em si, mas das suas filosofias.
Adiante.
Linda está a viver num país budista, com o qual se depara  sempre que sai à rua, no trabalho ou numa simples ida ao mercado.
- Todos os dias de manhã tenho crianças de mão em oração a dizer-me “Bom dia”. Pedem assim para ir beber água ou ir à casa-de-banho. São adoráveis.
Há respeito, há um idolatração do ser branco.
- Somos artistas pop, quase. Aqui não há aquela coisa do cinema, explicando a referência.
E há um conhecimento da religião que comanda o outro lado do mundo.
- Na vossa religião vai tudo para o inferno. Na nossa podemos fazer tudo – disse Kaheng a Linda.
É uma religião mais leve, sem dúvida. Nos olhos de um ocidental é tudo deslumbrante, por isso muitos que aqui visitam se convertem.
- Houve uma noite que comecei a ouvir os cânticos dos monges. Perguntei ao Kaheng e ele disse-me que tinha morrido alguém. Durou depois dias, de manhã à noite.  Termina com a queima do corpo. Ao terceiro dia ouvi uns sinos e uns cantares, fui à varanda e havia um cortejo onde todos estavam vestidos de branco.
Uma curiosidade: quando os monges estão nos seus cantares, apenas alguns os entendem,  visto que eles possuem uma língua própria.
- Talvez haja pessoas mais velhas que os entendam, mas os mais novos não – comentou o amigo.
Linda ficou a pensar naquilo do catolicismo e dos castigos. E Kaheng tinha a sua razão. A nossa personagem que gosta muito de fazer perguntas, às vezes com conteúdo, outras sem tento na língua – a estas chegaremos em próximos relatos – quis saber o que pensam os budistas dos católicos. Ora, Kaheng tem a ideia dos cristãos.
A história tem um enredo que recua aos tempos de universidade. Sem muito dinheiro para estudar na cidade, Kaheng viveu numa pagoda – local onde estão os monges – e para conseguir seguir os seus estudos, juntou-se a um grupo que os ensinava... eram missionários, do que pelo que Linda entendeu era espécie do Reino de Deus. Dessas muitas religiões que foram um sucesso na bolsa de valores.
- Prometeram muito, fizeram pouco – iniciou o seu testemunho em grande.
- E depois tínhamos que rezar. E juntavam-se todos para entrar numa espécie de transe e choro colectivo, às vezes, estavam uma hora a chorar. Eu não percebia aquilo e havia milagres – contou-lhe o amigo.
- A sala era pequena e quente, um dia estavamos todos lá enfiados dentro, outra vez, a chorar. Não havia espaço para mais niguém. Um calor que não se aguentava, transpirei tanto que as gotas de suor me caiam pela cara. O meu amigo cristão olhou para mim e tocou-me no ombro. Pensava que estava a chorar. Só me apeteceu rir. Loucos.
Havia também uma rapariga que agora é namorada do amigo de Linda, o Jackon. Personagem que foi missonário, andou por alguns países do mundo a ser voluntário, graças ao chorar.
Jackson é um americano todo desconcertado. Um esteriótipo bem ao estilo USA. A ele iremos mais à frente. Conheceu então a cristã do Cambodja, amiga de Kaheng. E a Linda fez-se luz sobre Jackon. O porquê de como ele é...
Agora a nossa personagem sempre que está com ele, imagina-o a chorar dentro de uma sala, completamente encaminhado.
Dias mais tarde, Kaheng e Linda estavam a almoçar numa tasca de rua, mesmo ali à beira estrada. Três mulheres aproximaram-se, uma pediu um donativo aos dois amigos, as outras duas estavam já de viola pronta e vozes afinadas para dar um show à escuteiro.
- São filipinas, não são Kaheng?
- Sim. Olha, são cristãos. Era isto.
Os dois riram-se.
Kaheng acabou por sair do choro. Um final feliz.
- Era o meu amigo, mas pedi-lhe desculpa e disse-lhe que era budista e que não ia mudar pelo que tinha assistido.
Em terra de budistas tudo é diferente. Do vestir ao pensar nada é igual. E se estamos no país deles, porque não aprender mais de como vivem as pessoas diferentes de nós? Em vez de tentar mudar, o mais sábio seria entender.
Ser budista aqui é ser gente, faz desta gente quem são e como seguem a vida. Tal como outras, o budismo tem várias ramificações. O budismo aqui, não é aquele que se pratica no Japão, por exemplo. No entanto, Kaheng não sabia que poderia haver outro busdismo que não o seu.

- Um ponto de vista de uma ocidental – rematou a nossa personagem.

sexta-feira, 26 de julho de 2013

Se escrevesse à minha Mãe


As saudades da comida que lhe alimentam a alma foi atenuada com um convite para ir a um restaurante chinês. Linda esfomeada disse um entoado SIM.
Na hora combinada lá estava ela e um novo amigo, a rumar até à China de Phnom Penh. A nossa Linda quando se deparou com caracteres, um espaço decorado com coisas da China sentiu-se acolhida e viva.
Estava em território conhecido. Aquela é a cultura que ela sabe, que ela reconhece.
- Estava tão maravilhada com a familiaridade, que fiquei a olhar para as fotografias da comida nas paredes durante uns bons dez minutos. Um tão simples pormenor, que fez toda a diferença. Estava em casa.
Não se sabe de onde, nem para onde vai, mas sabe-se agora que parte de Linda é chinesa. Ela parece-se e veste-se à ocidental. É esclarecida e moderna, ao bom estilo europeu. Fala várias línguas, todas misturadas, mas lá se faz entender. Age como chinesa, e é quando se fala da China, que ouve falar de casa. Tem já hábitos do sudoeste asiático, come arroz, anda descalça e até já se bronzeia. O que para Linda é um milagre, visto que a sua brancura é de assustar o Gasparzinho. Para situar, o bronze é nos braços, por causa das suas voltas de bicicleta, de braço ao léu, num sol de um país tropical.
- Ena, sabias que consigo ficar morena? Os meus braços estão escuros, quando comparo com o resto corpo pareço um bolo mármore – ligou-me ela a contar.
- Mas não quero, porque eu sou gira é com esta minha beleza mórbida, à filme de Tim Burton... rematou à grande.
Mas a sensação de casa, de familiaridade e de acções, vem do Grande Continente. Uma ocidental, que virou asiática de alma e coração.
O que a faz sentir em casa, são uns bons dumplins banhados em molho de soja, um porco com ananás, um minchi, chao min ou chao fan.
Linda pegou no menu e tudo fez sentido. As fotografias, os nomes, a disposição das mesas e os utensílios usados. O pequeno prato, a tigela para o arroz, o pequenino copo de chá, a colher chinesa e os pauzinhos.
A nossa personagem gosta tanto de usar pauzinhos, que até na hora de cozinhar, já só lhe basta este utensílio.
- Uma profissional, dizem os meus amigos entendidos – disse rindo.
O seu novo amigo contou-lhe que tem uma companheira sueca, mas coreana.
- Hum? - pensei.
Ele explicou: ela nasceu na Coreia, mas foi adoptada, ainda com meses, por um casal de suecos. A jovem cresceu na Suécia e não conhece outro mundo. Conhece porque viajou, mas o seu país é aquele lá na Escandinávia, e não o da Ásia.
Nascemos num país... porque os nossos pais são de lá e aquela passa a ser a nossa terra. Somos dali... mas podemos ser de acolá. Assim é o ser humano, espécie que se envolvida de um ambiente, inevitavelmente e inconscientemente se começa a metamorfosear, numa espécie de osmose. O resultado é uma mescla de sentimentos e de acções.
Linda George sentiu-se em casa num restaurante chinês. Linda George sente saudades da comida da mãe. Linda George sente curiosidade pelo que existe.
O sentimento é ambíguo, vai connosco a saudade do que deixamos para trás, segue connosco a excitação do que vamos encontrar – escreveu, mais ou menos isto, Che Guevara a sua mãe, quando fez uma viagem pela América Latina.

- Seria assim uma carta que escreveria à minha Mãe. 

quinta-feira, 25 de julho de 2013

Sabores viciantes


Antes de ter saído do seu país, Linda George nunca tinha pensado que comer fosse algo tão particular a cada cultura. Quando experimentava comida de outros lados, a nossa personagem definia em: gosto ou não gosto. Quando abandonou o seu habitat natural, o encontro com outros paladares foram acontecimentos especiais. Ainda há comida que diz não, outra que diz um sim salivado, à Pavlov, e outras que vai tentando.
O seu palato alterou-se, há coisas que gostava e já não consegue comer, outras que dizia nunca comer e agora adora. Na China a comida era boa, no Cambodja o panorama foi diferente. Tanto que, duas semanas depois, tinha emagrecido de fome.
O arroz é tudo aqui. Come-se arroz de manhã, à noite, sete dias por semana. O acompanhamento nunca é farto, mas o arroz é a encher. Um arroz seco, branco ou frito – uma espécie do mais conhecido por arroz chao chao. Se gostam de um arrozinho malandro, esqueçam-se dele.
- Uma comida aborrecida.
Os pratos são pequenas porções de carne, cortadas em tiras muito finas, o molho é sempre o mesmo.
- Tenho que dizer que a forma como cozinham o peixe é óptima. Esse vale a pena.
Linda George depois da sua primeira ida a um mercado local, jurou virar vegetariana... no Cambodja. A carne está disposta ao sol, caso os mercados sejam a céu aberto, exposta a moscas e carros a passar ali ao lado. Para não falar da salubridade de algumas ruas e ruelas. Nos espaços fechados, as moscas estão lá e o calor do sol aquece o edifício  o que sem frigoríficos, vai dar ao mesmo. O peixe às vezes está vivo, os camarões em gelo se mortos... lá calha nalguns sítios ter formigas ou moscas.
De resto, a fruta é abundante, com um sabor que leva Linda à sua infância. Colher o fruto directamente da árvore.
- O sabor original – comenta.
É fartura de quantidade, qualidade e variedade. Fruta fresca cortada, ou em batidos de crescer água na boca, é só escolher.
- O resto é enfadonho. Toujours la même chose.
Entre um primeiro contacto árduo, Linda começou a conhecer os locais mais ocidentais, mais caros, mas uma vez ou outra é bom matar saudades de casa. E Linda confessou que já só come arroz.
- Habituei-me. E é o melhor aqui. As noodles também não são muito saborosas.
Mas, há um local, que marca Phnom Pehn. Uma série de pizzarias, com vista para o rio – a zona mais turística – que têm a particularidade de ter um ingrediente que lhes dá o nome de Happy Pizza.
Desde já esclarecer, caros leitores, que a marijuana aqui é legal, se for usada para culinária. O resto é, como quase em todo o lado, super ilegal.
E sim, a pizza vem com erva. Pode-se pedir Happy ou Extra Happy, depende da boa disposição que deseja. Por si, a pizza não é das melhores, mas é saborosa e aquela especiaria dá-lhe aquele toque. Nem que seja deliciosa  apenas porque o efeito já dá de si.
Os locais não conhecem a pizza e não conhecem a especiaria.
- Lembro-me do meu pai me dizer que era bom para cozinhar, mas nunca tinha visto ou sequer sabia o que era – disse Kaheng a Linda.
Kaheng é um amigo local. Comparando com o mundo ocidental, Kaheng  um rapaz ingénuo, certinho, cheio de regras.
- Novo de idade, mas um grande velho de espírito. É um homem às antigas. Eles ainda seguem muito as regras dos seus antepassados, não há modernidade na cultura – esclareceu.
E quem melhor para desafiar, que um
rapaz certinho? – pensou Linda.
Kaheng, qualquer dia vamos comer Happy Pizza.
- Está bem, quero experimentar.
Antigo de pensar, mas curioso por coisas novas, o nosso Kaheng.
- Combinado. De que pizza gostas?
- Aquela com uma coisa branca por cima.
- Queijo?
- Sim, deve ser.
Todas as pizzas têm queijo. Mas, este prato italiano não tem fãs aqui. Linda comentou que, o que lhe parece, é que este povo só gosta da comida deles.
- Não há uma abertura a outras comidas, ou mesmo a outras culturas.
Queijo é outro ingrediente que lhes é estranho.
- Um dia Kaheng disse-me que eles tinham queijo do Cambodja. E mostrou-me... Queijo aqui não tem, definitivamente a definição de terras desta iguaria. É o molho que usam para as comidas todas.
- Oh Kaheng, isto não é queijo.
- É, é.
Cada um nasce num país, evolui com ele, aprende nele. O nosso paladar é característico de onde se vem. Ele está formatado para desejar aquela boa comida que se faz no nosso país. E mesmo que se goste da comida de onde se está, há sempre espaço para umas saudades da comidinha da mãe. Comer, beber são actos culturais, que, sem dúvida, à mesa nos definem.


quarta-feira, 24 de julho de 2013

Tailândia a norte

Depois do Japão, Linda George ganhou um companheiro de viagem – Tom. Juntos viajam e descobrem o mundo. Decidem uma viagem, os dias, procuram alojamento e o resto é seguir e deixar-se levar pelos imprevistos de quem viaja de mochila às costas.
- Nunca programamos muito, é mais excitante. Só queremos ter a certeza que temos onde dormir. Já aconteceu uma vez e não foi agradável.
As idas são sempre low cost. Há que  reservar a viagem e a guesthouse mais barata, mas com devidas condições.
- O resto vai acontecendo.
Linda estava a viver na Tailândia há pouco tempo. O país ainda era estranho. Tom marcou viagem para a visitar, mas Bangkok estava fora da rota, ele já conhecia e é uma capital. Ela vivia lá.
- Uma cidade muito cheia - comentou a nossa personagem. Charmosa, mas demasiado confusa e grande.
Então, Linda destinou a viagem até Chiang Mai, no Norte. Que destinos de praia para estes dois é coisa que raramente acontece. Assim sendo, a escolha foi terra de montanhas, de tribos a viver nelas e onde residem as tão famosas belezas do pescoço comprido. Long Neck tribes ou Hill tribes, como são chamadas em inglês. Aquelas tribos, na quais as mulheres vão acrescentando colares ao pescoço, aos joelho e à zona dos cotovelos. Trocam a cada cerca de dez anos, ... e só nessa altura vêem o próprio pescoço. A mulher que tiver o pescoço mais longo é a mais bonita lá da aldeia.
De observar que aquilo é coisa pesada e faz barulho ao andar. Aquele som de tilintar de ferro. Na verdade não é o pescoço que alonga, mas sim, o tronco que vai sendo puxado para baixo, por causa do peso exercido pelos anéis.
Linda tinha nos seus planos de viagem visitar tribos perdidas e nativas.
- Porque me aproximam da história, é como estar numa aldeia do neolítico – explicou-se.

Andemos para atrás até à chegada.
Os dois companheiros encontram-se no aeroporto. Uma festa de quem já não se via a algum tempo e de quem está excitado por mais uma aventura. Desta feita em terras da Tailândia.
Eram já cerca de onze e meia da noite. Arranjar um tuk-tuk até à cidade não foi fácil. Mesmo ali à porta do aeroporto. Os condutores a querem ser “chico esperto” e a cobrar bem para além da conta. Depois de muitas tentativas falhadas e as horas a passar lá se meteram num em direcção a uma guesthouse, que apenas tinham o nome, porque esta não aceitava reservas. O que estes dois artistas se esqueceram é que nestes países tudo fecha cedo... demais. E os hotéis estavam todos fechados. Sem mapa, perdidos e cansados, lá avistaram um hotel, um bocado acima do orçamento desejado, mas era uma cama para dormir. E a manhã despertava cedo, para ir desbravar as maravilhas  de Chiang Mai.
- Antes, claro, depois de um banho merecido, ainda tivemos tempo para umas cervejinhas e umas cigarradas – diz com ar de malandra.
Mas a hora de despertar foi pontual. Às sete e meia da manhã estavam prontos a rumar à dita guesthouse, de seu nome Julie´s Guesthouse. Um encanto de pensão. Gente jovem, uma entrada ampla, com sofás tailandeses – no chão com umas almofadas típicas – uma mesa de bilhar... e a recepção, com gente simpática e alternativa.
Marcaram um passeio, que incluía uma caminhada, uma visita às ansiadas tribos e uma noite numa das vilas da montanha.
- Pareceu-me um bom plano e esperámos pela partida.
Houve tempo para um pequeno almoço local: noodles – a massa deles –, uma sandes e um café.
O guia chega entretanto. Hora de partir. Um tuk-tuk mais moderno, mas com ar de que leva animais lá dentro. Um espaço pequeno que foi partilhado por cerca de 10 pessoas. E a viagem não era curta.
Naquele compartimento albergaram-se nacionalidades diferentes, o comum era serem europeus. Mas europeus daqueles que são todos loiros e de olhos claros. Dinamarca, Suécia, Alemanha. Todos a fugir para os Vikings. E Linda e Tom. Os outsiders, que não eram de lado nenhum.
- O mais engraçado foi quando estávamos todos pediram-nos para preencher uma espécie de folha de presença, com as devidas nacionalidades. Todos olhavam aquele que escrevia, para ver de onde era. Línguas estranhas, os suecos pareciam da máfia russa, mas não falavam russo. Os dinamarqueses pareciam nórdicos, mas Linda não fazia ideia que língua era aquela que ouvia. Mais tarde o grupo tem tempo e à vontade para conversar e desvenda-se o mistério de quem é quem.
A primeira paragem foi num jardim de borboletas, com umas flores bonitas, os respectivos insectos e só isso. A segunda foi o terror de Linda. Uma quinta de cobras, com direito a show de homens e a dita espécie animal e um arremesso de uma ao colo da nossa personagem, que soltou um grito na arena cheia de turistas, que foi coisa para uma risada geral.
- Lembro-me que havia um grupo, que seriam turcos ou do Dubai. Árabes com dinheiro, só para facilitar. Um grupo energético e alegre. Eles cantavam, dançavam... faziam a festa, atiravam os foguetes e iam apanhar as canas, portanto. Mas foi animação garantida. Fizeram-me esquecer do susto.
De esclarecer, que Linda tem uma fobia incontrolável de répteis e todos aqueles que tenham uma pele semelhante.
A próxima paragem foi no desejo de Linda. As mulheres do pescoço comprido.
- Estava ali a vê-las, a falar para elas, a observá-las. Confesso que até me emocionei.
A história destas tribos também tem drama. Este povo vive em território tailandês, mas não são de lá. São refugiados de Myanmar a quem o governo da Tailândia dá terra e eles estão ali para turista ver. Com as suas barraquinhas de artigos feitos à mão e a tecelar.
Mas o melhor é não analisar muito o assunto, para não lhe arrancar o romantismo. Linda frisou:
- Apesar de tudo, uma experiência daquelas... Estamos ali, sabes?! No meio deles, no meio daquilo que vimos em documentários ou lemos em livros. É uma sensação incrível! Povos que vivem muito mais longe do nosso mundo, do que se contarmos em quilómetros.




De seguida o grupo seguiu até ao local onde se iria almoçar e descansar antes da longa caminhada. Quatro horas a subir montanhas, a passar por rios e ribeiras, floresta densa e pequenas vilas plantadas no meio do nada. À frente e atrás dois guias, iam abrindo caminho com as suas catanas afiadas. Linda que gosta pouco de se movimentar, depressa se cansou. O homem atrás de si, agarra no pequeno tronco e ali lhe faz uma bengala, que a acompanhou até ao fim.
O grupo ficou maior. Havia agora uns turcos e uma holandesa. Um caminho longo, penoso, mas que valeu cada passo. No topo da montanha, uma casa de bambu, uma pequena povoação a viver acima do chão, do que a terra dá. Algum desenvolvimento chegou, como as motas e uma pequena amostra de um supermercado. A casa estava no topo da montanha, a vista perdia-se, o rio que se avistava confundia-se com as nuvens.
- De manhã ainda com nevoeiro, a paisagem estava linda, tudo se misturava, as cores, a paisagem. Lindo... é o que me sai.
O grupo ia dormir ali, uma divisão era a cozinha, do mais rústico e típico do que se possa imaginar. Uma lareira para aquecer, que no topo faz frio, e lume para cozinhar. A refeição estava óptima, o ambiente fascinante.
Numa parte do mundo onde electricidade não existe, não havia telemóveis, máquinas fotográficas ou mesmo luz. Iluminados pelo fogo e pela lua. O céu estava estrelado, limpo, quase que puro.
- Parecia que aquele céu nunca tinha sentido o efeito do desenvolvimento. Limpo.
Os meninos e as meninas à volta da fogueira iam aprendendo sobre cada um. Partilharam histórias, razões por estar ali e onde iam a seguir. Depois de uma aventura por trilhos e matos, a noite chegou de mansinho, tranquila a dar paz aos seus visitantes.
As camas estavam feitas, cada uma com os seus mosquiteiros. Um cenário idílico e romântico, que encantaram Linda e Tom.
- Espectacular Linda. Este teu plano está-se a sair bem.
A manhã acordou o grupo com o cantar dos galo e uma cama de chão a dar um jeito às costas. O pequeno almoço estava servido. Pão torrado, ovos, café e chá... reis e rainhas no meio do nada.
A primeira etapa estava cumprida. Faltava ainda dar uma voltinha de elefante e fazer um rafting em bambu e umas cenas no rio.
- Lá se metemos de novo ao caminho, para baixo foram só duas horas, acho. Mas havia quedas de água, lindas. Ainda parámos para um mergulhinho. E foi mesmo só um, que a água gela os ossos.
E chegaram à vila dos elefantes. Montar não é fácil, a caminhada também não é assim tão agradável, que aquilo abana e o animal é alto.
- Houve caminhos que eu achei que aquilo não era seguro e se a cadeira se solta a queda é grande e rochosa. Houve um elefante, com duas mulheres em cima, que se pôs a correr à maluca. Só se ouviam os gritos delas e o elefante lá ia... foi giro, mas digo que não foi das melhores coisas.
Já descer o rio foi uma galhofa. Linda e Tom juntaram-se a mais quatro tripulantes. O senhor que comandava ao barco explicou o que fazer e todos entenderam. Na hora de fazer o que era preciso, foi uma atrapalhação.
- O senhor bem gritava pelos homens, mas... acho que descemos o rio aos círculos.
Se fosse um teste estes seis elementos chumbariam, mas a diversão foi muita.
- Até o senhor comandante lançava gargalhadas. No final, todos se divertiram. Para terminar em tranquilidade descemos um rio mais sereno, numa jangada de bambu. Uns Tom Sawyers à tailandesa, com vista para a montanha que é um elefante. De explicar que para eles o elefante é um animal sagrado, tendo entre os seus deuses o elefante das três cabeças.
A viagem de volta à cidade foi pacífica, todos estavam exaustos. Para Linda e Tom aquela era a última noite. Restava uma saída até aos bares locais e seus mercados nocturnos, de manhã uma volta pelo centro. Para a tarde estava marcada a viagem de regresso.











segunda-feira, 22 de julho de 2013

Uma ida à ilha do sol nascente... A bunch of geeks


Esta é a melhor definição para Linda, porque qualquer que seja a profissão, idade, sexo e visões de vida, todo o japonês é um geek.
Seja a cozinhar, a passar música, a organizar festas, a cortar cabelos a cães ou a ser biólogo, todos eles o fazem de forma dedicada, organizada e com um rigor digno de samurai no manuseio da sua katana. E todos eles são estranhos. Linda conhece muitos japoneses e diz que todos têm a sua pancada nipónica.
- O que costumo dizer-lhes, é que de vez em quando eles entram em modo manga, deixam-se levar para o mundo do Dragon Ball e da Tartaruga Genial e uma vénia que o japonês está aí. Geeks and freaks – disse sorrindo.
- A verdade é que a cultura japonesa é uma das mais interessantes na Ásia para mim. Eles vivem afastados de nós, não são como nós, não são como ninguém. A vida para eles, seja ela como for, é tudo uma questão de equilíbrio, é ele que faz as coisas funcionarem – esclareceu.
- Aprendi muito com eles, a deixar levar as coisas e a só actuar quando há um balanço entre A e B, e resulta... acrescentou.
O Japão está envolvido em mistério, em magia, numa beleza de quatro estações que o completam e o guiam no decorrer do calendário.  Plantado numa área geográfica activa com um Monte de seu nome Fuji, onde existe uma floresta que pede às pessoas para não se suicidarem. Uma ilha conhecida pela sua máfia e pelo seu mundo imaginário.
O Japão é realmente um lugar estranho.


Uma ida à ilha do sol nascente... Uma cultura única


A escrita, alguns costumes originam na China. Mas o Japão sofreu invasões da Coreia, Mongólia – cujas semelhanças faciais são maiores – e da Europa, nomeadamente de Portugal e Inglaterra. Do país lusitano ficaram as armas de fogo, que dizem ter levado à extinção dos samurais, uma receita de pão de ló, lá conhecida por Castela  e uns rebuçados que dizem ser portugueses. De Inglaterra, ficou provavelmente a astúcia dos negócios.
Tudo isto são apenas influências, porque no fundo o Japão, é japonês e isso vê-se desde de ruas, a casas, a moda, a adereços ao modo de viver e de pensar. A todo está dado um toque japonês, daqueles que há ideia e que são verdade. Uma cultura que vive numa realidade diferente, num tempo diferente do restante mundo.

Um povo que parece não se saber as verdadeiras origens, que criou um mundo para além do dito normal, onde as regras são muitas, a rigidez é grande, mas o espaço para passar o limite é todo. Um escape de uma realidade cheia de regras e boas maneiras? Um freaky side da vida para fugir à rotina. O que vai na cabeça dos japoneses não tem nada a ver com o que vai na cabeça de outros povos. É com certeza à moda japonesa.