sexta-feira, 26 de julho de 2013

Se escrevesse à minha Mãe


As saudades da comida que lhe alimentam a alma foi atenuada com um convite para ir a um restaurante chinês. Linda esfomeada disse um entoado SIM.
Na hora combinada lá estava ela e um novo amigo, a rumar até à China de Phnom Penh. A nossa Linda quando se deparou com caracteres, um espaço decorado com coisas da China sentiu-se acolhida e viva.
Estava em território conhecido. Aquela é a cultura que ela sabe, que ela reconhece.
- Estava tão maravilhada com a familiaridade, que fiquei a olhar para as fotografias da comida nas paredes durante uns bons dez minutos. Um tão simples pormenor, que fez toda a diferença. Estava em casa.
Não se sabe de onde, nem para onde vai, mas sabe-se agora que parte de Linda é chinesa. Ela parece-se e veste-se à ocidental. É esclarecida e moderna, ao bom estilo europeu. Fala várias línguas, todas misturadas, mas lá se faz entender. Age como chinesa, e é quando se fala da China, que ouve falar de casa. Tem já hábitos do sudoeste asiático, come arroz, anda descalça e até já se bronzeia. O que para Linda é um milagre, visto que a sua brancura é de assustar o Gasparzinho. Para situar, o bronze é nos braços, por causa das suas voltas de bicicleta, de braço ao léu, num sol de um país tropical.
- Ena, sabias que consigo ficar morena? Os meus braços estão escuros, quando comparo com o resto corpo pareço um bolo mármore – ligou-me ela a contar.
- Mas não quero, porque eu sou gira é com esta minha beleza mórbida, à filme de Tim Burton... rematou à grande.
Mas a sensação de casa, de familiaridade e de acções, vem do Grande Continente. Uma ocidental, que virou asiática de alma e coração.
O que a faz sentir em casa, são uns bons dumplins banhados em molho de soja, um porco com ananás, um minchi, chao min ou chao fan.
Linda pegou no menu e tudo fez sentido. As fotografias, os nomes, a disposição das mesas e os utensílios usados. O pequeno prato, a tigela para o arroz, o pequenino copo de chá, a colher chinesa e os pauzinhos.
A nossa personagem gosta tanto de usar pauzinhos, que até na hora de cozinhar, já só lhe basta este utensílio.
- Uma profissional, dizem os meus amigos entendidos – disse rindo.
O seu novo amigo contou-lhe que tem uma companheira sueca, mas coreana.
- Hum? - pensei.
Ele explicou: ela nasceu na Coreia, mas foi adoptada, ainda com meses, por um casal de suecos. A jovem cresceu na Suécia e não conhece outro mundo. Conhece porque viajou, mas o seu país é aquele lá na Escandinávia, e não o da Ásia.
Nascemos num país... porque os nossos pais são de lá e aquela passa a ser a nossa terra. Somos dali... mas podemos ser de acolá. Assim é o ser humano, espécie que se envolvida de um ambiente, inevitavelmente e inconscientemente se começa a metamorfosear, numa espécie de osmose. O resultado é uma mescla de sentimentos e de acções.
Linda George sentiu-se em casa num restaurante chinês. Linda George sente saudades da comida da mãe. Linda George sente curiosidade pelo que existe.
O sentimento é ambíguo, vai connosco a saudade do que deixamos para trás, segue connosco a excitação do que vamos encontrar – escreveu, mais ou menos isto, Che Guevara a sua mãe, quando fez uma viagem pela América Latina.

- Seria assim uma carta que escreveria à minha Mãe. 

quinta-feira, 25 de julho de 2013

Sabores viciantes


Antes de ter saído do seu país, Linda George nunca tinha pensado que comer fosse algo tão particular a cada cultura. Quando experimentava comida de outros lados, a nossa personagem definia em: gosto ou não gosto. Quando abandonou o seu habitat natural, o encontro com outros paladares foram acontecimentos especiais. Ainda há comida que diz não, outra que diz um sim salivado, à Pavlov, e outras que vai tentando.
O seu palato alterou-se, há coisas que gostava e já não consegue comer, outras que dizia nunca comer e agora adora. Na China a comida era boa, no Cambodja o panorama foi diferente. Tanto que, duas semanas depois, tinha emagrecido de fome.
O arroz é tudo aqui. Come-se arroz de manhã, à noite, sete dias por semana. O acompanhamento nunca é farto, mas o arroz é a encher. Um arroz seco, branco ou frito – uma espécie do mais conhecido por arroz chao chao. Se gostam de um arrozinho malandro, esqueçam-se dele.
- Uma comida aborrecida.
Os pratos são pequenas porções de carne, cortadas em tiras muito finas, o molho é sempre o mesmo.
- Tenho que dizer que a forma como cozinham o peixe é óptima. Esse vale a pena.
Linda George depois da sua primeira ida a um mercado local, jurou virar vegetariana... no Cambodja. A carne está disposta ao sol, caso os mercados sejam a céu aberto, exposta a moscas e carros a passar ali ao lado. Para não falar da salubridade de algumas ruas e ruelas. Nos espaços fechados, as moscas estão lá e o calor do sol aquece o edifício  o que sem frigoríficos, vai dar ao mesmo. O peixe às vezes está vivo, os camarões em gelo se mortos... lá calha nalguns sítios ter formigas ou moscas.
De resto, a fruta é abundante, com um sabor que leva Linda à sua infância. Colher o fruto directamente da árvore.
- O sabor original – comenta.
É fartura de quantidade, qualidade e variedade. Fruta fresca cortada, ou em batidos de crescer água na boca, é só escolher.
- O resto é enfadonho. Toujours la même chose.
Entre um primeiro contacto árduo, Linda começou a conhecer os locais mais ocidentais, mais caros, mas uma vez ou outra é bom matar saudades de casa. E Linda confessou que já só come arroz.
- Habituei-me. E é o melhor aqui. As noodles também não são muito saborosas.
Mas, há um local, que marca Phnom Pehn. Uma série de pizzarias, com vista para o rio – a zona mais turística – que têm a particularidade de ter um ingrediente que lhes dá o nome de Happy Pizza.
Desde já esclarecer, caros leitores, que a marijuana aqui é legal, se for usada para culinária. O resto é, como quase em todo o lado, super ilegal.
E sim, a pizza vem com erva. Pode-se pedir Happy ou Extra Happy, depende da boa disposição que deseja. Por si, a pizza não é das melhores, mas é saborosa e aquela especiaria dá-lhe aquele toque. Nem que seja deliciosa  apenas porque o efeito já dá de si.
Os locais não conhecem a pizza e não conhecem a especiaria.
- Lembro-me do meu pai me dizer que era bom para cozinhar, mas nunca tinha visto ou sequer sabia o que era – disse Kaheng a Linda.
Kaheng é um amigo local. Comparando com o mundo ocidental, Kaheng  um rapaz ingénuo, certinho, cheio de regras.
- Novo de idade, mas um grande velho de espírito. É um homem às antigas. Eles ainda seguem muito as regras dos seus antepassados, não há modernidade na cultura – esclareceu.
E quem melhor para desafiar, que um
rapaz certinho? – pensou Linda.
Kaheng, qualquer dia vamos comer Happy Pizza.
- Está bem, quero experimentar.
Antigo de pensar, mas curioso por coisas novas, o nosso Kaheng.
- Combinado. De que pizza gostas?
- Aquela com uma coisa branca por cima.
- Queijo?
- Sim, deve ser.
Todas as pizzas têm queijo. Mas, este prato italiano não tem fãs aqui. Linda comentou que, o que lhe parece, é que este povo só gosta da comida deles.
- Não há uma abertura a outras comidas, ou mesmo a outras culturas.
Queijo é outro ingrediente que lhes é estranho.
- Um dia Kaheng disse-me que eles tinham queijo do Cambodja. E mostrou-me... Queijo aqui não tem, definitivamente a definição de terras desta iguaria. É o molho que usam para as comidas todas.
- Oh Kaheng, isto não é queijo.
- É, é.
Cada um nasce num país, evolui com ele, aprende nele. O nosso paladar é característico de onde se vem. Ele está formatado para desejar aquela boa comida que se faz no nosso país. E mesmo que se goste da comida de onde se está, há sempre espaço para umas saudades da comidinha da mãe. Comer, beber são actos culturais, que, sem dúvida, à mesa nos definem.


quarta-feira, 24 de julho de 2013

Tailândia a norte

Depois do Japão, Linda George ganhou um companheiro de viagem – Tom. Juntos viajam e descobrem o mundo. Decidem uma viagem, os dias, procuram alojamento e o resto é seguir e deixar-se levar pelos imprevistos de quem viaja de mochila às costas.
- Nunca programamos muito, é mais excitante. Só queremos ter a certeza que temos onde dormir. Já aconteceu uma vez e não foi agradável.
As idas são sempre low cost. Há que  reservar a viagem e a guesthouse mais barata, mas com devidas condições.
- O resto vai acontecendo.
Linda estava a viver na Tailândia há pouco tempo. O país ainda era estranho. Tom marcou viagem para a visitar, mas Bangkok estava fora da rota, ele já conhecia e é uma capital. Ela vivia lá.
- Uma cidade muito cheia - comentou a nossa personagem. Charmosa, mas demasiado confusa e grande.
Então, Linda destinou a viagem até Chiang Mai, no Norte. Que destinos de praia para estes dois é coisa que raramente acontece. Assim sendo, a escolha foi terra de montanhas, de tribos a viver nelas e onde residem as tão famosas belezas do pescoço comprido. Long Neck tribes ou Hill tribes, como são chamadas em inglês. Aquelas tribos, na quais as mulheres vão acrescentando colares ao pescoço, aos joelho e à zona dos cotovelos. Trocam a cada cerca de dez anos, ... e só nessa altura vêem o próprio pescoço. A mulher que tiver o pescoço mais longo é a mais bonita lá da aldeia.
De observar que aquilo é coisa pesada e faz barulho ao andar. Aquele som de tilintar de ferro. Na verdade não é o pescoço que alonga, mas sim, o tronco que vai sendo puxado para baixo, por causa do peso exercido pelos anéis.
Linda tinha nos seus planos de viagem visitar tribos perdidas e nativas.
- Porque me aproximam da história, é como estar numa aldeia do neolítico – explicou-se.

Andemos para atrás até à chegada.
Os dois companheiros encontram-se no aeroporto. Uma festa de quem já não se via a algum tempo e de quem está excitado por mais uma aventura. Desta feita em terras da Tailândia.
Eram já cerca de onze e meia da noite. Arranjar um tuk-tuk até à cidade não foi fácil. Mesmo ali à porta do aeroporto. Os condutores a querem ser “chico esperto” e a cobrar bem para além da conta. Depois de muitas tentativas falhadas e as horas a passar lá se meteram num em direcção a uma guesthouse, que apenas tinham o nome, porque esta não aceitava reservas. O que estes dois artistas se esqueceram é que nestes países tudo fecha cedo... demais. E os hotéis estavam todos fechados. Sem mapa, perdidos e cansados, lá avistaram um hotel, um bocado acima do orçamento desejado, mas era uma cama para dormir. E a manhã despertava cedo, para ir desbravar as maravilhas  de Chiang Mai.
- Antes, claro, depois de um banho merecido, ainda tivemos tempo para umas cervejinhas e umas cigarradas – diz com ar de malandra.
Mas a hora de despertar foi pontual. Às sete e meia da manhã estavam prontos a rumar à dita guesthouse, de seu nome Julie´s Guesthouse. Um encanto de pensão. Gente jovem, uma entrada ampla, com sofás tailandeses – no chão com umas almofadas típicas – uma mesa de bilhar... e a recepção, com gente simpática e alternativa.
Marcaram um passeio, que incluía uma caminhada, uma visita às ansiadas tribos e uma noite numa das vilas da montanha.
- Pareceu-me um bom plano e esperámos pela partida.
Houve tempo para um pequeno almoço local: noodles – a massa deles –, uma sandes e um café.
O guia chega entretanto. Hora de partir. Um tuk-tuk mais moderno, mas com ar de que leva animais lá dentro. Um espaço pequeno que foi partilhado por cerca de 10 pessoas. E a viagem não era curta.
Naquele compartimento albergaram-se nacionalidades diferentes, o comum era serem europeus. Mas europeus daqueles que são todos loiros e de olhos claros. Dinamarca, Suécia, Alemanha. Todos a fugir para os Vikings. E Linda e Tom. Os outsiders, que não eram de lado nenhum.
- O mais engraçado foi quando estávamos todos pediram-nos para preencher uma espécie de folha de presença, com as devidas nacionalidades. Todos olhavam aquele que escrevia, para ver de onde era. Línguas estranhas, os suecos pareciam da máfia russa, mas não falavam russo. Os dinamarqueses pareciam nórdicos, mas Linda não fazia ideia que língua era aquela que ouvia. Mais tarde o grupo tem tempo e à vontade para conversar e desvenda-se o mistério de quem é quem.
A primeira paragem foi num jardim de borboletas, com umas flores bonitas, os respectivos insectos e só isso. A segunda foi o terror de Linda. Uma quinta de cobras, com direito a show de homens e a dita espécie animal e um arremesso de uma ao colo da nossa personagem, que soltou um grito na arena cheia de turistas, que foi coisa para uma risada geral.
- Lembro-me que havia um grupo, que seriam turcos ou do Dubai. Árabes com dinheiro, só para facilitar. Um grupo energético e alegre. Eles cantavam, dançavam... faziam a festa, atiravam os foguetes e iam apanhar as canas, portanto. Mas foi animação garantida. Fizeram-me esquecer do susto.
De esclarecer, que Linda tem uma fobia incontrolável de répteis e todos aqueles que tenham uma pele semelhante.
A próxima paragem foi no desejo de Linda. As mulheres do pescoço comprido.
- Estava ali a vê-las, a falar para elas, a observá-las. Confesso que até me emocionei.
A história destas tribos também tem drama. Este povo vive em território tailandês, mas não são de lá. São refugiados de Myanmar a quem o governo da Tailândia dá terra e eles estão ali para turista ver. Com as suas barraquinhas de artigos feitos à mão e a tecelar.
Mas o melhor é não analisar muito o assunto, para não lhe arrancar o romantismo. Linda frisou:
- Apesar de tudo, uma experiência daquelas... Estamos ali, sabes?! No meio deles, no meio daquilo que vimos em documentários ou lemos em livros. É uma sensação incrível! Povos que vivem muito mais longe do nosso mundo, do que se contarmos em quilómetros.




De seguida o grupo seguiu até ao local onde se iria almoçar e descansar antes da longa caminhada. Quatro horas a subir montanhas, a passar por rios e ribeiras, floresta densa e pequenas vilas plantadas no meio do nada. À frente e atrás dois guias, iam abrindo caminho com as suas catanas afiadas. Linda que gosta pouco de se movimentar, depressa se cansou. O homem atrás de si, agarra no pequeno tronco e ali lhe faz uma bengala, que a acompanhou até ao fim.
O grupo ficou maior. Havia agora uns turcos e uma holandesa. Um caminho longo, penoso, mas que valeu cada passo. No topo da montanha, uma casa de bambu, uma pequena povoação a viver acima do chão, do que a terra dá. Algum desenvolvimento chegou, como as motas e uma pequena amostra de um supermercado. A casa estava no topo da montanha, a vista perdia-se, o rio que se avistava confundia-se com as nuvens.
- De manhã ainda com nevoeiro, a paisagem estava linda, tudo se misturava, as cores, a paisagem. Lindo... é o que me sai.
O grupo ia dormir ali, uma divisão era a cozinha, do mais rústico e típico do que se possa imaginar. Uma lareira para aquecer, que no topo faz frio, e lume para cozinhar. A refeição estava óptima, o ambiente fascinante.
Numa parte do mundo onde electricidade não existe, não havia telemóveis, máquinas fotográficas ou mesmo luz. Iluminados pelo fogo e pela lua. O céu estava estrelado, limpo, quase que puro.
- Parecia que aquele céu nunca tinha sentido o efeito do desenvolvimento. Limpo.
Os meninos e as meninas à volta da fogueira iam aprendendo sobre cada um. Partilharam histórias, razões por estar ali e onde iam a seguir. Depois de uma aventura por trilhos e matos, a noite chegou de mansinho, tranquila a dar paz aos seus visitantes.
As camas estavam feitas, cada uma com os seus mosquiteiros. Um cenário idílico e romântico, que encantaram Linda e Tom.
- Espectacular Linda. Este teu plano está-se a sair bem.
A manhã acordou o grupo com o cantar dos galo e uma cama de chão a dar um jeito às costas. O pequeno almoço estava servido. Pão torrado, ovos, café e chá... reis e rainhas no meio do nada.
A primeira etapa estava cumprida. Faltava ainda dar uma voltinha de elefante e fazer um rafting em bambu e umas cenas no rio.
- Lá se metemos de novo ao caminho, para baixo foram só duas horas, acho. Mas havia quedas de água, lindas. Ainda parámos para um mergulhinho. E foi mesmo só um, que a água gela os ossos.
E chegaram à vila dos elefantes. Montar não é fácil, a caminhada também não é assim tão agradável, que aquilo abana e o animal é alto.
- Houve caminhos que eu achei que aquilo não era seguro e se a cadeira se solta a queda é grande e rochosa. Houve um elefante, com duas mulheres em cima, que se pôs a correr à maluca. Só se ouviam os gritos delas e o elefante lá ia... foi giro, mas digo que não foi das melhores coisas.
Já descer o rio foi uma galhofa. Linda e Tom juntaram-se a mais quatro tripulantes. O senhor que comandava ao barco explicou o que fazer e todos entenderam. Na hora de fazer o que era preciso, foi uma atrapalhação.
- O senhor bem gritava pelos homens, mas... acho que descemos o rio aos círculos.
Se fosse um teste estes seis elementos chumbariam, mas a diversão foi muita.
- Até o senhor comandante lançava gargalhadas. No final, todos se divertiram. Para terminar em tranquilidade descemos um rio mais sereno, numa jangada de bambu. Uns Tom Sawyers à tailandesa, com vista para a montanha que é um elefante. De explicar que para eles o elefante é um animal sagrado, tendo entre os seus deuses o elefante das três cabeças.
A viagem de volta à cidade foi pacífica, todos estavam exaustos. Para Linda e Tom aquela era a última noite. Restava uma saída até aos bares locais e seus mercados nocturnos, de manhã uma volta pelo centro. Para a tarde estava marcada a viagem de regresso.











segunda-feira, 22 de julho de 2013

Uma ida à ilha do sol nascente... A bunch of geeks


Esta é a melhor definição para Linda, porque qualquer que seja a profissão, idade, sexo e visões de vida, todo o japonês é um geek.
Seja a cozinhar, a passar música, a organizar festas, a cortar cabelos a cães ou a ser biólogo, todos eles o fazem de forma dedicada, organizada e com um rigor digno de samurai no manuseio da sua katana. E todos eles são estranhos. Linda conhece muitos japoneses e diz que todos têm a sua pancada nipónica.
- O que costumo dizer-lhes, é que de vez em quando eles entram em modo manga, deixam-se levar para o mundo do Dragon Ball e da Tartaruga Genial e uma vénia que o japonês está aí. Geeks and freaks – disse sorrindo.
- A verdade é que a cultura japonesa é uma das mais interessantes na Ásia para mim. Eles vivem afastados de nós, não são como nós, não são como ninguém. A vida para eles, seja ela como for, é tudo uma questão de equilíbrio, é ele que faz as coisas funcionarem – esclareceu.
- Aprendi muito com eles, a deixar levar as coisas e a só actuar quando há um balanço entre A e B, e resulta... acrescentou.
O Japão está envolvido em mistério, em magia, numa beleza de quatro estações que o completam e o guiam no decorrer do calendário.  Plantado numa área geográfica activa com um Monte de seu nome Fuji, onde existe uma floresta que pede às pessoas para não se suicidarem. Uma ilha conhecida pela sua máfia e pelo seu mundo imaginário.
O Japão é realmente um lugar estranho.


Uma ida à ilha do sol nascente... Uma cultura única


A escrita, alguns costumes originam na China. Mas o Japão sofreu invasões da Coreia, Mongólia – cujas semelhanças faciais são maiores – e da Europa, nomeadamente de Portugal e Inglaterra. Do país lusitano ficaram as armas de fogo, que dizem ter levado à extinção dos samurais, uma receita de pão de ló, lá conhecida por Castela  e uns rebuçados que dizem ser portugueses. De Inglaterra, ficou provavelmente a astúcia dos negócios.
Tudo isto são apenas influências, porque no fundo o Japão, é japonês e isso vê-se desde de ruas, a casas, a moda, a adereços ao modo de viver e de pensar. A todo está dado um toque japonês, daqueles que há ideia e que são verdade. Uma cultura que vive numa realidade diferente, num tempo diferente do restante mundo.

Um povo que parece não se saber as verdadeiras origens, que criou um mundo para além do dito normal, onde as regras são muitas, a rigidez é grande, mas o espaço para passar o limite é todo. Um escape de uma realidade cheia de regras e boas maneiras? Um freaky side da vida para fugir à rotina. O que vai na cabeça dos japoneses não tem nada a ver com o que vai na cabeça de outros povos. É com certeza à moda japonesa.

Uma ida à ilha do sol nascente. Um lugar estranho


Uma terra de samurais e suas espadas mortais, suicídios pela honra, meninas de cara branca, que treinam, estudam até serem perfeitas. Terra de lutas e de catástrofes naturais, onde há a maior taxa de terramotos do mundo. Um país que se levanta sempre que as placas tectónicas abanam, de forma elegante e astuta.
As ruas são direitas, limpas e organizadas. As pessoas são silenciosas, no metro tira-se o som ao telemóvel para não incomodar quem partilha o transporte. Têm sanitas de tampo quente - um mimo no inverno – que dão música e limpam quem as usa.
- Fiquei maravilhada com as sanitas. Era inverno, soube tão bem! – contou.
O metro é uma loucura, com as suas linhas curvas e o seu mar de gente. A noite anima. Há uma imensidão de bares a visitar, para todos os estilos e feitios.
Linda aventurou-se em alguns locais.
Primeira paragem foi em Osaka, a uma casa de sake. Produzido no local e para vender apenas dentro do país. As prateleiras estão cheias de marcas de sake – quente ou frio, como se preferir provar.
Sake é coisa boa e Linda e o seu amigo apressaram-se a escolher o maior número de sakes possível. Aquecer, que era Inverno.
Já com muito arroz no sangue a segunda visita foi a umas das ruas mais proibidas, onde fotografias não são permitidas.
- Tirei a máquina para tirar um fotografia e o meu amigo gritou de imediato, que eu não podia fotografar. Estávamos em território da Yakuza - máfia japonesa.
A rua era peculiar e, sem dúvida made in Japan. De forma alinhada, à boa arquitectura nipónica, haviam várias portas, em formato de um quadrado grande. À porta estava uma senhora mais velha  a dizer “Come, come” e uma menina, vestida num qualquer cartoon sexy, a sorrir. Sentada de forma alinhada e dar um ar de fofinha, como nos bonecos animados.
Para quem não sabe, os japoneses têm também banda de desenhada e desenhos animados pornográficos do mais hardcore que se possa imaginar. Mas, não era só disposição das ruas que lhe dava a beleza - iluminada quase apenas pelas luzes daqueles quadrados. Cada rua estava organizada por idades e feitios.
- Há pessoas que gostam de mulheres mais velhas, ou mais gordas, então as ruas estão desenhadas para que estejam em secções – explicou o amigo local.
Até a prostituição neste país é feita de forma delicada e engraçada. Parece saída de um dos seus muitos filmes para adultos em bonecos.
Depois de uma rua proibida  aconteceu um bar chamado “Ai” – que quer dizer amor em japonês. Lá dentro há muito amor para dar, mas amor gay... e karaoke. O empregado era um senhor dos seus sessenta anos, super gay, enquanto fazia as bebidas, animava os clientes. Com o seu uniforme de bartender de um filme dos anos 50 americano, ele cantava, representava e aproveitava e ia tocando nos clientes. Um maroto. Mas, uma verdadeira diva.
O álcool já ia alto, era hora de recolher, que no dia seguinte rumava-se a Quioto.
Quioto é terra de geishas, de histórias de amor, de  harakiris.  Uma cidade onde se fala um japonês diferente. Onde há história e tradição tão enraizada, que numa qualquer altura nos podemos sentir num Japão da era dos samurais.
Como por exemplo, numa ida a um bar.
As meninas da cara branca já não se passeiam pela rua como no seu imaginário. São restritas, vivem num círculo, onde só alguns podem entrar e apreciar a sua arte.
A Linda, a coisa correu melhor do que se esperava. Ao seu lado no bar, estava um menina maiko, uma aprendiz de geisha – vestida e maquilhada a rigor, com gestos perfeitos, uma timidez sensual e um sorrir, com a mão de lado dos lábios a tapar, a dar o ar da sua graça. Uma imagem que tinha de leituras e que estava agora a ver na vida real.
- Elas existem mesmo. E são mesmo assim!!!
Foi-lhe dito que era a mais bonita da cidade e tinha apenas 15 anos. Com hora de princesa, a “mãe” liga e ela apressa-se a seguir caminho para o recolher à casa. Este episódio desenhou Quioto para Linda.
Tempo de seguir para Tóquio. Primeiro os arredores, tranquilo, como qualquer periferia da cidade. Um restaurante com almofadas para nos sentarmos  naquelas mesas pequeninas que se via no Doraemon. E as casas são como a casa do Nobita. Portas grandes de correr e quartos com tatamis.
Para relaxar, os amigos levaram Linda à sauna. Uma sauna japonesa, é preciso frisar. Ela entra nos balneários e está toda a gente nua. A amiga, que tinha acabado de conhecer, começou-se a despir. Linda seguiu-a. Tanto à vontade com a nudez, fez corar a nossa personagem, que às tantas andava de toalha atrás para não se sentir tão nua. E apenas ela...
Tomar banho é também ele um acto diferente. Há um banco, uma bacia, um chuveiro e um espelho. Banho é sentado e com toda a calma do mundo.
Tóquio, a cidade é a loucura. Uma cidade grande, uma capital. Onde o estranho acontece, onde pessoas saem em personagens animadas e há bares onde o mundo da fantasia se dá quando se pede algo especial. Uma bar de cosplay. As empregadas estão vestidas de desenhos animados e um pedido de omelete de arroz tem direito a um desenho com ketchup no ovo  e a tirar uma fotografia com as meninas - num qualquer adereço do mundo animado. As luzes apagam-se e há que dizer um dito e fazer um coração com as mãos.
- É ser a Alice no país dos nipónicos. De repente encolhemos e estamos num outro mundo.
Depois de tanta fofura, ruma-se a um bar de metal para descontrair. Num prédio bastante discreto e estreito - uma porta, um elevador, um andar com poucos metros de espaço  uma porta - que quando aberta há escuro e uma luz vermelha, uma música alta e que soa bem aos ouvidos mais rudes e uma decoração de Halloween com classe. Uma prateleira cheia de CD´s onde Linda encontra Ugly Kid Joe.
- Foi logo um disco pedidos. A risota foi geral.
Havia um casal, os donos do bar, que num inglês meio rústico e umas traduções pelo meio, Linda entendeu que ele tinha tido uma banda.
- Interessante. E como se chamava? – pergunta Linda educadamente.
Ele mostra-lhe o CD que produziram. Na capa estavam mulheres... aparentemente. E a mais bonita era... o dono do bar.  Ou seja, a banda dele vestia-se mulher. Ao que Linda apurou teria sido algo bastante trendy no Japão. Homens vestidos de mulher a cantar e a tocar.
E está na hora de ir a um restaurante de um amigo, que sabe combinar na perfeição um bom prato e um belo sake. A comida é saborosa, e é bem mais que sushi ou peixe cru.
Esclarecer que para os japoneses sushi é fast food, inclusivé é de bom tom comer sushi com a mão e não com pauzinhos.
Os japoneses quando lhes dá para beber sake, é pela noite adentro, Linda confessa que a dada altura deitou-se e ficou-se.
- Ia ouvindo-os e só pensava como é que eles ainda estavam de pé.
Houve ainda um bar de rocka billys, com roupa, bebidas e decoração a preceito. 

Uma ida à ilha onde o sol nasce...


Antes da sua grande cruzada pela Ásia Linda George leu um livro intitulado “O Japão é um lugar estranho”. E começava com um: “O Japão é realmente um lugar estranho”. O livro era contado por um jornalista e escritor americano, que já tinha ido à ilha do sol nascente muitas vezes em trabalho. Um dia reparou que o filho lia livros com origem naquele país. As tão famosas manga – a banda desenhada japonesa, que faz furor em livro, filme ou vida real.
O pai decidiu então levar o filho, numa simples viagem de lazer. Descobrir com ele a vida à moda japonesa. O miúdo tinha um amigo cibernético de lá, por sua vez, o jornalista tinha os seus contactos e podia levar o filho a alguns autores.
A surpresa deste pai foi quando viu que naquele país, a banda desenhada era mais que leitura, era toda uma cultura. “Achava que aquilo era um círculo fechado de uma livraria americana” – escreveu. O amigo da Internet era também um rapazinho com os seus dez anos, vestido a rigor de uma animação nipónica.
Linda fez a sua primeira viagem internacional na Ásia, precisamente a esta ilha. E era o referido livro que levava na cabeça... palavras que comprovou em primeira mão.
Esta foi a primeira definição do que é o Japão, que lhe fez sentido.
No regresso encontrou numa das livrarias do aeroporto de Narita – parece nome de personagem do Dragon Ball – um livro sobre a história do Japão. Ao ler viu outra frase que lhe definiu toda a viagem: “O Japão é a mistura do Oriente e do Ocidente, transformada em cultura japonesa”.
O Japão é tudo isto. Tem, sem dúvida, uma identidade própria e particular. Tudo é japonês no Japão. Há sem dúvida influência chinesa, tanto mais que um dos alfabetos usado é o chinês. Há sem dúvida uma cultura ocidental, um país moderno, desenvolvido. Num documentário Linda ouviu que os japoneses são da espécie humana os mais desenvolvidos.
Depois do Japão e a viver no meio deles Linda ouviu um amigo dizer:
- Japan is a bunch of geeks.
Aquilo gerou uma gargalhada forte, até porque saiu da boca de um japonês, himself.
Mais uma vez Linda tinha a descrição perfeita.
Analisaremos cada uma delas.

Quem é quem?


Há uns tempos li que caminhamos para uma época de relacionamentos fáceis e um amor promíscuo. A monogamia parece estar na prateleira que diz old school. Este texto falava ainda do amor verdadeiro como uma coisa rara, um sentimento quase que heróico no dias que correm.
Isto levou-me a mais um pensamento profundo, quase que filosófico sobre o amor e seus intervenientes.
O amor... um tema difícil e específico a cada um que o sente. Aprendi que pelo mundo que, há diferentes formas de amar e diferentes razões para escolher um parceiro para a vida. Todas elas válidas, se as encaixarmos nos seus devidos contextos.
Fui à fonte do amor e observei a fauna humana de casais. E aqui deixo as minhas considerações.
Há humanas com a uma tendência de se anular, para dar espaço ao ego do macho. Este pavoneia-se e ela admira-o. Às tantas ele é ele, e ela é “nós”. Esta mulher geralmente é doce, dedicada e está sempre na linha da frente dos grandes feitos do seu adorado macho. Acompanha-o para todo o lado, faz questão de ser simpática, de estar sempre vestida como manda a regra, bonita para se elevar a ele e é activa no facebook.
O humano segue o seu caminho, persegue os seus objectivos e quem sabe, até algumas presas. Ela vai-se apagando e tornando-se apenas “na mulher dele”.
Aqui há uns casais peculiares que trazem da adolescência o amor para a vida adulta.
Eles descobrem-se um ao outro, o que é bonito e tem um lado romântico. Pelo que observei há uma certa altura, que difere de casal para casal, na qual as tentações do mundo adulto entram em choque com o amor de longa data.
Por outro lado, há aquelas que preferem ser possessivas e controladoras. Tudo a que ele gosta é um não e só se faz o que ela quer. O macho desta relação, tende a ser meio frouxo e, o mais provável, é não ser muito bonito. Ela faz gato sapato dele, ele anda sempre aflito com medo dela estar aborrecida, que neste tipo de fêmea, é o mais frequente. Se ele for um bocadinho esperto, a tendência é começar a mentir. Ela tende a ficar ciumenta de mulheres e homens.
Depois há aquelas que não os controlam, andam ali meio às aranhas, enquanto eles saiem com os amigos. O jantar e um bocadinho de televisão fazem parte num sábado à noite. Quando dá o sono à Cinderela, toca de mandar mensagens aos amigos a dizer:
- Onde é a ida hoje?
Aqui as fêmeas queixam-se da falta de tempo, eles inventam mil e uma desculpas, mas sempre com um...
- Oh amor também queria estar contigo, mas não dá mesmo.
A minoria que resta são aqueles casais que se entendem, que têm espaço e que podem ser individuais. Chamemos-lhes os freaks do amor. Tudo é na boa... onde para se estar junto há duas pessoas que querem estar, partilhar e ser elas próprias.


Não se sabe bem...

Linda George recorda agora o seu passado, numa tentativa de se perceber. O não saber de onde vem, nem para onde vai, dá por um lado com, uma sensação de liberdade que não se quer largar. Por outro lado, há um vazio que a invade, uma frieza que é precisa, mas desnecessária.
Quando se fala em raízes e família passada e futura, Linda fica com um olhar distante, no entanto, tem um sorriso nos lábios. Intrigante. Estranho. Quem é ela?
Ela enuncia histórias independentes, quando as conta parecem vir do nada. Mas, a convicção com que fala, faz-me acreditar que esta mulher tem um seguimento, contudo, não tem guião escrito. Tudo lhe está na alma.
Lembra várias figuras do seu passado. Umas austeras, outras cómicas, outras que envolvem a sua vida.
- Havia uma vila, com campos de arroz.
E assim se desvanece a conversa nas suas palavras.
Da família pouco se lembra, amigos nunca teve muitos. Sempre foi “bichinho do mato”. As pessoas, então, se forem muitas, assustam-na... a pulsação acelera e a cabeça roda.
Uma infância difícil  uma adolescência atribulada, uma nova etapa para se procurar. Uma vida que me intriga. Sem entrar em pormenores  algumas respostas são dadas. E entre histórias sem nexo tento entender quem ela é.
- Em criança tinha dois amigos invisíveis  Naquela altura eram os meus únicos amigos. Ainda me lembro dos nomes Séfora e Moisés. Adorava estes nomes. Soavam-me bem. Eles eram namorados e a Séfora era motard. Um dia conheceu o Gaspar, o amigo invisível de um colega meu, pegou na mota e fugiu com ele. O Moisés ficou destroçado. Aquilo era amor – soltou uma merecida gargalhada.
Dois, não apenas um amigo inexistente. E tão presentes e com histórias reais de gente grande. E aquela Séfora era uma grande maluca, enfatize-se. Uma mota, um namorado e uma história de amantes fugidos. Que idade teria? Que idade teriam os amigos?

Para Linda George a dimensão tempo não existe. Tempo são números e ela não gosta nada de números. 

Amigas mulheres e seus amores


Linda tentou ter amigas do sexo feminino. Cresceu rodeada de amigos meninos, e era com eles que passava bons tempos. Quando se é uma mulher, há uma altura na vida, que é bom ter uma companhia feminina, para falar de coisas de “mulheres”.
Ela não fugiu à regra e tentou. Desde logo esclareceu que tinha sido um verdadeiro fracasso.
- Não consegui seguir o raciocínio delas. Fiz parte de um grupo de mulheres demasiado mulheres, se calhar, mas aquilo era demais.
Três mulheres, separadas, cheias de vontade de ter homens à sua volta. Num grupo do sexo feminino que se preze há sempre uns estereótipos. Estes eram os de Linda:
- a boazona, que regra geral é meio ingénua ou mesmo nada dada à inteligência,
- a “bitch”, mais astuta e com pose de mulher fatal, a não faltar o cabedal.
- a coitada, menos bonita, mais ressabiada.
Num grupo de mulheres não pode também faltar as idas às compras, nomeadamente de roupa interior sexy a pensar na noite daquele dia. Não pode faltar também a maquilhagem e roupa a pedir “fuck me”.
A “boazona”, era divorciada, tinha trinta e poucos. Divorciada, e obcecada pelo corpo, já bastante moldado por cirurgias e idas excessivas ao ginásio, refugiava-se no sexo para o mostrar.
Enquanto a coisa não passava de umas compras e umas saídas à noite, Linda até se divertia, nem que fosse a ver os movimentos daquele trio de ataque. Mas, quando a coisa começava a envolver o sexo oposto a coisa tornava-se um verdadeiro argumento de novela mexicana. E lá vinham os dramas, os enredos, as vinganças e a espionagem. Episódios de horas.
- Eu não entendia. Elas contavam-me tantas histórias e davam-me tantos nomes, que às tantas perdia-me. Ainda tentei decifrar a cabeça delas, mas sem conclusão à vista.
Um dia a “boazona” conheceu um homem ainda casado, que lhe deu conversa para uma vida, e umas palmadas literais em tempos de discussão.
A ânsia de ser amada e dizer alto que tinha um namorado cegaram-na. Rebaixou-se, deixou-se ser agredida e humilhada com frases como:
- Já acabaste? Vamos fazer as pazes, faz-me um broche.
- E eu fiz -  disse-me ela orgulhosamente.
Isto tudo bem, precisar dela só para o satisfazer é bom, mas o drama era... se eles não atendem ou não respondem à mensagem no tempo achado aceitável… o que acontece…
Cenário: está com outra.
- Não pode o pobre rapaz simplesmente não ter visto a chamada, ou ter-se esquecido do telemóvel?
- Não, está com outra.
Tudo era o pior cenário, que lhe dava umas horas de pensamentos maquiavélicos de uma mulher ferida de amor.
Era eterna a história de ele não lhe dizer nada o dia todo.
- É desta, vai-me ouvir…
... logo em seguida, e ai minhas senhoras e ela que me perdoe, tive que me rir.
- A não ser que ele tenha uma boa desculpa.
Ela já se refere como desculpa. Se é desculpa é porque ele tem alguma razão para omitir a verdade. Se for boa serve, lá se safa o macho de fininho.
Tentei conversar com ela e ela disse-me que o tinha controlado. Mantive-me calada. Ora, não me levem a mal mas, ela estava embeiçada demais e ainda se virava contra mim. E o que menos queria aturar é uma mulher ressabiada.
- No dia em que o conheci não aguentei e disse-lhe tudo o que achava.
- Ele entram-te em cena como a vítima e tu contracenas de Maria Madalena. Sim, porque choras, sentes-te culpada e ainda o perdoas sempre...
O tom elevou-se. Ela negava todas as minhas palavras. Acrescentei:
- Lamento dizer isto, mas nós mulheres, às vezes, somos patéticas. Queremos controlar, mas ficamos ceguinhas quando um badameco nos dá um mínimo de atenção. Nem que se seja porque quer em dobro… enfim lá se vai a dignidade que se lutou durante anos pelo papel da mulher.
A coisa passou, simplesmente porque ele ainda não tinha dito nada naquele dia... outra vez. E tudo volta ao mesmo. Não há dúvida que o desespero é cego, surdo e mudo.
- No dia seguinte o drama repetiu-se. Em vez de me ouvir, queria-me aliciar a fazer o mesmo. Eu disse-lhe:

- Convence-te moça airosa da minha terra, que com tanta ânsia de tudo, ganha-se nada. 

Política politicamente incorrecta


Sonhara um dia estar presente em momentos importantes da história, ou simplesmente de actos que podem mudar cada um dos mundos. Quando de manhã saiu para ir trabalhar, não imaginava o que ia assistir.
Num dos regressos do trabalho, Linda desloca-se a velocidade lenta pelo trânsito, na sua bicicleta pink. Naquele dia, conta, ter pensado consigo mesma, como o trânsito estava um caos.
- Pensei, bem é sexta-feira, talvez seja isso.
Furou por entre motas e carros, achando que estava a ganhar terreno. Não podia estar mais que enganada. O cruzamento que a leva a casa, liga ruas principais e estava completamente intransponível. A barreira estava criada por um mar de motas e uma imensidão de pessoas de pé nelas.
- Eleições! – exclamou em desabafo. Era impossível passar, a única coisa a fazer era esperar. Quando de repente ouvi:
- Democracy. You know? – disse-lhe o senhor da mota ao lado.
- Sim, sei, meu senhor, gostava que vocês também soubessem e vivessem nela – pensou.
- Sim -  respondeu.
- He is coming back. Opposition. All waiting for him.
Mais palavras foram impossíveis de trocar. Mas Linda George sabia que estava prestes a presenciar o regresso do homem a um povo Khmer que precisa de ser salvo.
Sam Rainsy esteve exilado por escolha... Um regresso ao Cambodja implicaria cadeia. Em tempos de eleições, foi-lhe dado um perdão e permitido o seu regresso.
Vinte minutos mais tarde, com o sol já a derreter qualquer pensamento, eis que surge o homem de que todos esperavam. Vinha numa pequena carrinha branca, atolada de gente a gritar “bram pee - sete” – número a votar. Ele parecia sereno e por baixo dos óculos redondos e pequenos havia um olhar de alguém que regressa ao ninho e vê um povo a recebê-lo.
- Imagino que depois de anos, voltar assim seja algo que se sente – comentou.
Imprensa internacional, uma multidão de cidadãos Khmers, uma onda de saudação e Linda.
- Contudo, dizem que está proibido de se envolver na vida política e porque será?
Linda George diz ter visto pessoas que o querem, como que a pedir uma mudança de 28 anos de poder, daquele que é conhecido pelo mais antigo e rude líder asiático. Este está tão seguro que vai ganhar, que nem à rua sai em campanha - de tão confortável que se sente. Um dia disse que se não ganhasse fazia uma guerra. A América diz que se ele não levar as eleições pelo caminho do voto livre, corta os apoios ao país.
Algumas pessoas afirmam que a comunicação social mente. Formatadas? Outras dizem que podem haver problemas se o Primeiro Ministro não ganhar. Outras dizem  ainda que nada muda, mesmo que mude a cara e o partido.
O actual líder é conhecido por ter feito parte do Khmer Rouge, que levou o Cambodja ao inferno. Embora não haja conhecidos envolvimentos do seu partido em crimes contra os direitos humanos, todos se queixam de corrupção. E está à vista, para quem quiser ver. É só sair à rua.
Linda presenciou um povo a pedir ajuda. O povo da província, vota no que lá está, porque acham que o governo desenvolveu muito – as estradas. E como já foi contado, algumas pessoas ficaram sem nada à custa de um desenvolvimento rodoviário. Um exílio na pobreza e na ignorância é meio caminho andado para se governar um país e não sair do poleiro.
Na cidade as caravanas que apoiam o mais partido da oposição está nas ruas em força. Muita música e animação é que se quer. Para dar um ar de campanha há umas bandeira, uns bonés e uns autocolantes - o logótipo é um sol a nascer por detrás das nuvens.  O resto é uma tardada de música alegre, com os tons locais e um Gangnam Style versão Cambodja 2013 – que sem querer comparar, porque o original  já é por si uma coisa inaudível, esta, talvez por terem sido horas a ouvir, é ainda mais irritante.
- O que é certo é que foi uma festa até à noite, as pessoas até dançavam em cima das motas e a conduzir.
A euforia da oposição deixa mostrar o desespero de um povo pobre, que vive pobre e que sabe que alguém enriquece à custa da sua pobreza e do seu futuro.
Alguém comentou com Linda:
- Os pobres querem mudança.
E os ricos? Poder?
O actual Primeiro Ministro prolongou o tempo que quer estar no governo, até ter 90 anos. Ele é, sem dúvida, um homem poderoso no panorama político. Um poder que Linda se pergunta de onde veio, tendo em conta o seu passado.
- Talvez não seja difícil a resposta num mundo esquematizado por poder, dinheiro e alguém que dê a cara – opina.
No dia 28 deste mês o povo vai a votos. O resultado é certamente o esperado... mas há sempre espaço de mudança.

*O nome do Primeiro Ministro não é aqui referido, por não ser permitido falar de política. O engraçado foi um dia um apoiante ter dito a Linda, que este é um país livre... mas não se pode falar de ou contra quem o lidera...
- E mais fica à vossa consideração...


sábado, 20 de julho de 2013

Pensamentos profundos que alguém tem...




Há uns tempos fiz um trabalho de História para um um amigo. O tema era o neolítico. Pus-me a pensar nesta coisa da evolução do homem - que às vezes tenho uns acessos de intelectualidade... há coisas na História do nosso mundo, às quais nunca conseguiremos ter acesso ou até mesmo resposta. O universo é um mistério. E assim é que tem piada. Mas, observando bem as pessoas de hoje, podemos aceder ao passado daqueles que um dia nos fizeram evoluir. De lembrar, que por este mundo a fora ainda há gente que vive na era da Idade da Pedra.
Imaginei que somos todos homens e mulheres do neolítico, mas com roupas mais sofisticadas e mais trabalho de máquinas. Se reparamos todo o que hoje temos, a constante evolução da tecnologia não passam de simples instrumentos. Mais sofisticados - com coisas do diabo, se eles cá viessem ver como isto está hoje!
Estamos a viver de aparências, na verdade não passamos de aglomerados de aldeias que trocam dinheiro e bens em troca de trabalho, fazem importações, já não de bois e carroças, já usamos o camião ou o avião.
O mais incrível é pensar como as tudo evoluiu. Como é que se passou de instrumentos tão rudimentares, como lanças e flechas, uma folha de papel naquele tempo era uma pedra, hoje em dia até temos folhas e canetas de cor, com texturas e até cheiros. E para que é que precisamos disto tudo?
Depois, obviamente, alguém se lembrou que devia governar através da força e “pumba”, criou um exército e começou o mal do mundo. Pelo menos parece-me esta uma explicação mais lógica de que eu a tal de que o pecado do mundo começou por causa de uma mordedela numa maçã.
O que me faz confusão é que como é que evoluímos também a partir deles. Ora, eles tiveram filhos, cujos para continuar a procriar tiveram que acasalar incestuosamente. E isso sim é pecado aos olhos do Grande Deus. E aos olhos dos cientistas é meio caminho andado para ter um filho deficiente. E a explicação, para quem não sabe, vi numa novela - (que estas podem ser fonte de conhecimento), - confesso, se o macho fosse portador de um gene recessivo de determinada doença e a fêmea também, no filho este seria dominante. É certo que pode, em alguns casos, os filhos serem normais, mas como a probabilidade é baixa, tenho que supor que a maioria dos meus antepassados mais remotos eram deficientes.
Ou não? Fica nos mistérios do nosso mundo – como nos informam aqueles canais por cabo dedicados ao tema.


sexta-feira, 19 de julho de 2013

Aquela que matou o gato


Linda é fã de Kusturica e um dos seus filmes preferidos é, claro, “Gato Branco, Gato Preto”. Mas, nunca lhe tinha passado pela cabeça, que um dia um pequeno e magro gato preto se atravessasse na sua vida, sem que ela se desse conta.
O gato era pequenino, ainda bebé e magro, ao jeito de um gato de ciganos – sem querer criar preconceitos – um gato ao jeito dos filmes de Emir, por assim dizer. E era preto.
Linda George estava há três ou quatro dias no Cambodja, a viver em casa de um família meio local, meio estrangeira. Clarifiquemos. O dito marido era inglês, de Manchester, cerca de 50 anos e de seu nome Charlie. Estava a viver em Phnom Pehn há cerca de dois anos e estava “casado” com uma rapariga local, dos seus 30 e poucos anos. Como bom estrangeiro que se preze e, sejamos sinceros, para que consiga sobreviver aqui, tem que arranjar uma moça local, fazer-lhe um filho e sustentá-la.
Por sua vez, ela tem que tratar das finanças da casa – aqui os maridos entregam todo o seu salário à mulher para que ela o gira – e das suas lidas. Ele chamava-lhe a Ministra das Finanças.
- Ela é Ministra das Finanças. Aliás, aqui as mulheres todas são.Elas é que mandam.
Talvez não, mas a isto iremos mais tarde.
Os papéis referentes ao casal, acima referidas, são decididas pela vila, de onde a mulher é oriunda. A escolha da rapariga  é feita pelo monge da  e depois a vila junta-se para estabelecer o contrato. Pelo menos, assim ele conta terem-se conhecido. Para Linda a história mais coerente, é aquela que é mais frequente. Num qualquer, uma qualquer menina.
Independentemente dos contornos, o dinheiro, da roupa e da comida para o marido, sem dúvida que tratava. Já as lidas da casa, deviam aborrecê-la, que é sempre melhor tirar um sestinha depois de um bom prato de arroz. A sujidade não incomoda. E não são sestinhas à espanhola que ela tirava, aquilo era uma paragem de se estender por algumas horas.
Adiante. Havia também um filho. Com cerca de dois anos, o sexto dele, o segundo dela. Do casal o único, e único na casa. De vez em quando haviam umas crianças, familiares da mulher. E claro, a casa recebia também a visita da matriarca, que vinha da província pôr ordem às coisas.
E o destinado gato preto e sua progenitora.
O menino chamava-se Hat, devia ter cerca de 5 anos. Tinha um tom de pele muito escura e uns olhos grandes e redondos, bem escuros e com um brilho doce. Linda apaixonou-se pela aquela criança, que aos poucos lhe foi ganhando confiança e lá iam saindo uns sorrisos tímidos de menino. Vivia na província, dormia em estacas de bambu e andava por ali.
A menina era mais velha, tinha treze. Um olhar doce, era bonita e tinha um sorriso iluminado. Estava na casa para ajudar nas lidas, ou fazê-las todas. De manhã logo se apressava a levar um cafezinho acabado de fazer. Queria falar com Linda, mas não conseguia fazer-se entender, então sorria...
A matriarca, uma mulher magra, de cabelo curto e grisalho. A cara envelhecida pelos 60 anos de vida dura. Contudo, tinha ar de líder, e segundo Linda comentou, era uma personalidade forte na vila.
Mãe solteira de três filhos. Um marido chinês de que nada se sabe, décadas de luta sozinha. Não conseguiu levar os filhos à escola, mas uma trabalha, a outra está casada com um branco e o filho toma conta dela, vive na vila e tem a sua família, como bom homem. Seguindo os traços culturais desta parte do mundo, tudo seguiu pelo melhor caminho.
- Parecia-me uma mulher de armas. Era educada e confiante. Sem problemas em lidar com estrangeiros.
E finalmente, os tão fadados gatos.
Uma manhã Linda acorda, dirigindo-se à casa-de-banho, quando se deparou com o pequeno gato preto deitado, quase camuflado pelo tapete, também ele escuro.
- Segui o meu caminho, achei que estava a dormir. Num sítio estranho, sem dúvida e meio inerte, mas era um gato e deixei-o em paz. Para mim estava a fazer coisas de gato.
Horas mais tarde o homem da casa repara no gato e pega-o, cabia-lhe na mão e estava mole, literalmente mole, parecia que não tinha ossos.
- Está doente, vai morrer – disse Charlie.
E sim, o destino daquele gato já estava traçado. Antes do seu triste fado, foi alimentado com leite. A mãe ao seu lado, a velar o seu pequeno e jovem enfermo.
A noite passou e a manhã seguinte teve um início fatídico  e deveras estranho. O pequeno gato preto estava morto, tinha-lhe sido decepada a cabeça e uma perna.
Linda quando ouviu tal dizer não teve reacção.
- Pensava que não tinha ouvido bem, até que me mostrarem um saco de plástico com os restos mortais do gato. Fucking freak, é como descrevo.
Um choque, um acontecimento estranho, mas por esta terra fora há toda uma crença em espíritos e possessões. Assim sendo, há que rumar à vila e falar com o monge.
- Ele sabe tudo, vai dizer quem matou o gato e o que se passou – disse Charlie.
Até aqui tudo bem. Mais umas horas depois Charlie diz a Linda, que suspeitam que ela matou o gato. Charlie, era um homem que delirava com guerra e militarização – e, sem dúvida obsessivo e controlador.
- Temos que pensar em três coisas: motivo, oportunidade, e porquê. Motivo, gatos pretos são má sorte em algumas culturas. Oportunidade porque éramos os únicos na casa e porquê, porque as pessoas são más.
Tudo aquilo, numa consciência tranquila parece um pouco demais. Mas, sem dúvida, que foi um episódio aberrante. Da vila não veio a resposta de quem matou, só que a casa tinha sido construída por cimas de cadáveres e havia uma menina que rondava a casa. Uma menina que podia ter possuído a menina de carne e osso. Esta foi, de imediato, recambiada para a vila.
- Temos que ver se ela tem algum problema e lá pode ser tratada pelos mongues.
Mas, a mulher da casa dizia ter certezas que tinha sido Linda a autora do acto fatal. Linda veio a saber mais tarde. Não gostou de saber e sentiu-se ofendida. Charlie com as suas conversas, pediu-lhe desculpa pela mulher.
- Pediu desculpa e tal. Mas o melhor veio, quando ele me disse que o facto de eu ter uma bruxa tatuada, era um indicio de que eu fazia magia negra. Só não me ri na cara dele, porque como me chama o Jackson, sou a Miss Good Manners, mas vontade não me faltou.
- Uma terra onde a magia negra e mexer com o outro mundo é prática comum, eu é que tinha morto o gato, por causa de uma tatuagem feita em tempos de juventude inconsciente  Nunca antes visto -  e solta uma gargalhada.
O mistério do pequeno gato preto nunca foi totalmente desvendado. Um mês mais tarde, a menina volta à casa, Linda sai, a saber que na cabeça da mulher, ela vai ser sempre aquela que matou o gato.