domingo, 14 de julho de 2013

A gente da estrada A1


Linda George tenta agora entender como anda o país que decidiu viver. Resumidamente pode-se dizer que  anda governado por outras nações, e dentro anda desgovernado com sede de poder, tirania e eleições.
O povo vai sobrevivendo, não sabe explicar como, mas com sorrisos e recepções que, num país de reis e rainhas, a fazem sentir uma princesa. Recepções vazias de materialismo, cheias em emoção.
- A gente Khmer tem o poder de te abraçar sem sequer tocar, de te dizer benvinda, sem trocarem uma palavra.
Linda descreve este povo, um povo de olhos fortes, olhos que falam num simples olhar, geralmente seguido de um sorriso do tamanho da história deste império.
Uma história orgulhosamente defendida pelos seus, mais antiga que o calendário de Jesus, com uma das maiores torturas de um povo – povo que sofreu e continua a sofrer silenciosamente. Uma história que continua a linha da sua antecessora. A intenção é sempre a mesma, abusar um povo, para um império pessoal vingar. Triste história a deste povo, que pode voltar às mais profundas raízes.
Linda viajou até ao verdadeiro Cambodja. Um Cambodja de províncias, de casas de bambu, de gente a viver aqui e ali, de gente que não tem nada. Não tem nada porque lhes tiraram. Sem lhes pedir, levaram-lhes a terra. Com a terra a casa, o sustento e o trabalho.
Há uma estrada que liga Phnom Pehn a Ho Chi Min, Vietname. Uma estrada bem tratada, a dirigir-se para o país que um dia deitou por terra o Cambodja e que hoje continua a “invadir”. Uma estrada construída à custa de vidas, de famílias, de bens. Uma estrada que levou a gente, da outrora terra, a um caminho onde não há condições, não há comodidade. Uma estrada que os levou a uma ausência de futuro, onde as crianças não vão à escola, onde não há trabalhos para os pais.
Esta gente é chamada de “pessoas afectadas” ou os “deslocados”. Claro, um nome pomposo e cheio de drama. Pedem-se apoios a organizações estrangeiras, eles chegam, mas...
- Eles deram 15 milhões, usámos uma parte, o resto não sei onde foi parar?
E assim, por arte mágica, o dinheiro que chega para ajudar a nação, desaparece e ninguém pede ou dá justificações.
A primeira comunidade vive numa ladeira abaixo da grandiosa estrada. Vivem numa ruela de terra batida, sem grande espaço. Mas o espaço que as rodeia é bem grande.
Pertence aos donos, para quem esta gente trabalha, por 3 dólares ao dia, 8 a 12 horas.
Quando Linda ouviu estas palavras regressou, por momentos, ao modo de vida feudal, onde os senhores tinham a terra e... escravos. Nesta comunidade há crianças, segundo a tradução, que vão à escola. Fica a um quilómetro a pé, de bicicleta ou, para os mais sortudos, de mota com os pais.
A rua é lixeira, é espaço de convívio e um playground para as crianças... sujas, sem roupa e de olhar triste.
De novo na estrada e uma viagem de cerca de quinze minutos num ferry chega-se à outra comunidade “afectada”.
A espera pelo ferry é outro acontecimento. Linda viajou ao assento de uma scooter. E de repente, à sua volta estão dezenas de motas e pessoas, que esperam pelo mesmo - que abram os portões, para numa correria desalmada se acelere para não perder a ida. Uma sensação claustrofóbica, mas que no fim Linda descreve como uma largada de touros por um rua à fora e toda a gente a fugir.
- Uma loucura! - diz.
A outra comunidade tem duas mulheres líderes. Que há sete anos, depois do saqueamento, tentam defender a sua gente. Duas guerreiras, uma delas muito pequenina, com um cara sofrida, mas ainda bonita para a idade – terá cerca de 65 anos, ou mais. Vestida de preto e branco – uma saia comprida, seguindo a moda local, e um blusa com padrões em branco. A sua postura é de matriarca, que cuida, que acarinha.  Alguém contou a Linda que esta mulher já tinha ao Japão e a muitos outros lados. Talvez tivesse ido em busca de repostas que não chegam, compensações que não são pagas.
A instituição financeira que construiu a estrada, prometeu pagar tudo ao fim de cinco anos. Já passaram sete. O Governo lava as mãos como Pilatos.
Nesta comunidade Linda conheceu maioritariamente mulheres e crianças. Foi-lhe dito que os homens estavam na pesca ou na caça, para que à noite houvesse comida. Mulheres sorridentes e afáveis.
- Mas, havia uma senhora, com um ar determinado, de quem não cruza os braços. Os seus olhos encovados e quase pretos pareciam dizer a Linda:
- Eu sei o que se passa. Ninguém vai vir para nós. Resta-nos lutar para sobreviver.
Olhando à sua volta Linda viu condições desunamas, viu casas construídas de repente, tortas e cheias de falhas por entre as folhas de bambu.
- Se chove nem quero imaginar o que passam.
Casas que não protegem esta gente de nada, nem da chuva, nem do sol. Pedaços de madeira e de troncos juntos a parecer um casa. Se o lobo sopra leva a casa e a gente.
Uma casa-de-banho comum, sem escoamento.
- Esta casa-de-banho serve para dois anos – disse um responsável por ajudar estas pessoas.
Água não há. Há que pegar nuns baldes e caminhar até ao rio, e até essa está envenenada. Mas tem que servir para tomar banho e cozinhar.
Deixaram esta gente à beira da estrada e de doenças. Deixaram as suas crianças à beira do nada.
Linda recorda duas meninas, com os seus 10 ou 12 anos.
- Tão bonitas. O que quer dizer que às tantas o futuro delas é serem vendidas para pagar as dívidas dos pais.
Linda George recordou um documentário que viu sobre a venda de mulheres no Cambodja. Não era novidade o seu pensamento, mas ouvir em voz alta e em directo é, sem dúvida, um choque.
- Esta gente não tem dinheiro, então endividam aos agiotas para poder construir uma casa. Se não pagam, a dívida vai crescendo. Um cartão de crédiot sim fim à vista. Quando não há forma de pagar, apostam-se vidas de crianças.
Aquelas meninas, vão provavelmente, acabar nas redes de cerveja e muito karaoke. Em bares na grande cidade, a fazerem render o corpo.
Uma vida que lhes é imposta e nem sabem porquê.
- Lembro-me também do meu colega me fazer reparar no braço direito de um menino. Todo queimado, ainda com tons de carne viva.
- O que é que lhe aconteceu?
- Queimou-se num braço com água a ferver. Aqui não há assistência médica, foi o que poderam fazer por ele.
Marcas físicas de maus tratos, que ninguém lhes explica. Abandonados e desprezados. Traumas psicológicos, que ninguém vai apagar. A espera por uma mão solidária, que já está mais que atrasada e que não se sabe se chega.
Numa das improvisadas casas estava um grupo de meninas à volta de um caderno, a fazerem contas de multiplicar. Melhores que muitos meninos ajudados por modernas calculadoras. Infelizmente,  são contas de subtrair que regra a vida.
Sete anos de uma decadência de vida.
Ao voltar Linda olhou o pôr do sol. Um céu que nunca antes tinha visto, amarelo intenso, envergonhado por entre as nuvens. Havia uma luz laranja ao fundo, de repente o céu coloriu-se de violeta. Uma paisagem incrível, que pouco consegue descrever em palavras.
- Só visto. Nunca vi um céu daquela cor. O céu nesta terra é qualquer coisa de mágico.
Um dia explicaram-lhe que o céu nesta parte do globo gera cores surpreendentes. Um sol brilhante e quente, que de repente é invadido por chuvas torrenciais, cria na atmosfera uma pressão de temperatura e de cristais de água que se mostra em tons de cores, que faz corar um delicado arco-íris.
Um país tropical abençoado por Deus, amaldiçoado pelo Homem.