sexta-feira, 24 de maio de 2013

Cor, beleza e tudo relativo

Quando se muda de cultura, muda-se também a forma como olhamos para a nossa e acima de tudo como olhamos para nós. E comecei a notar isso quando ouvia comentários como:

“É mesmo à português!” ou “Aquela pessoa é portuguesa”.Comecei a ter certeza quando me ouvia a explicar a minha cultura e o meu país.
“Em Portugal é assim...” ou “Lá estou eu em modo tuga!”Estranho, mas interessante.
Comecei a dar mais atenção a esta questão e... tudo é tão relativo.Comecemos pela questão da cor da pele.
Ora, no meu país ser bonita é estar bronzeada. Há uma corrida louca ao sol e às praias. Horas e horas ao sol, porque se é Verão há que estar com uma bela cor e a mulher fica mais sexy, e mais daquelas balelas de beleza e coisa e tal.
Aqui o conceito mulher não é diferente. Em terras tropicais, como Filipinas ou Tailândia, muda o querer ser morena, porque já o são. Muda a táctica, muda a cor. Em terras exóticas e de praias, onde até a pessoa mais resistente a “fazer praia”, se quer pôr ao sol, as mulheres andam vestidas e escomdem-se do sol... porque querem ser brancas.Nas ruas de Macau, quando sol aquece e se mostra todo poderoso o belo do chapéu de chuva sai à rua, porque há medo que a pele escureça.
A mim irrita-me tanto chapéu de chuva!

No entanto, esta vontade de ser branca, faz-me pela primeira vez sentir-me uma criatura bonita. E porquê? Porque sou branca. E mais branca que eu não é fácil. Tem vezes que acordo e quando me olho ao espelho parece que morri. Só vejo a alma.


No meu país apontavam-me o dedo e nunca estava suficientemente bronzeada.
- Claro, eu não fico bronzeada.
Aqui parece que me encaixo. É preciso atravessar o globo para finalmente viver em paz com o meu tom de pele, ou melhor, a ausência dele.
Nunca pensei muito nisto, mas claro, de tanto ouvir a mesma lenga-lenga, uma pessoa acaba inevitavelmente por achar que está mal. Afinal, é tudo relativo.Na Tailândia vivi numa espécie de bairro de lata num cenário colorido e bem típico ao jeito das margens do rio da grande Bangkok. Cheio de gente boa e de sorriso nos lábios. Pessoas que fazem da Tailândia o nosso imaginário, pessoas que fazem da Tailândia a terra dos sorrisos. 

Quando cheguei lembro-me de ver uma senhora já com um rosto marcado pela idade. Lembro-me dela, porque estava descontraída à porta da loja da amiga, a beber uma cervejinha e a rir. E em inglês diz-me:

- Tão linda! Tão branca!

E disse tão alto que mais senhoras se aproximaram. Começaram a tocar-me, a dar beijos e a oferecer cerveja. Quando olhei para a minha amiga, dona da casa onde estava, ela ria-se e disse-me:

- Tu és branca e elas estão deslumbradas contigo. És exótica.

- Eu? Exótica? 

Nunca tinha pensado nesta perspectiva. Sempre achei que as mulheres, em especial as da Tailândia, eram lindas. Cabelos negros, olhos amendoados e uma corzinha tão sexy.- Os exóticos são eles, não eu. Ou sou?
Sou, porque sou eu que estou em terra que não é a minha, sou eu que tenho feições diferentes, sou eu que tenho uma cor diferente.
Depois fui reparando, que à noite, as senhoras se juntavam à porta da loja, partilhavam comida, uns copinhos de cerveja e um pó branco que passavam pelo corpo. Não o pó branco da droga, atenção, mas um produto que supostamente faz clarear a pele. E isto é tão vincado na cultura que querer comprar um simples creme hidratante ou gel duche não é uma tarefa fácil. Tudo é branqueador de pele. E se resultar não é definitivamente bom para quem já é tão branco.


Ser bonito aqui é ser branco. Em Macau ser bonito é ter tudo grande.- Tu és tão linda. Tens tudo grande! – ouço.

Desde pequena que sofri com a minha altura, era sempre a maior da turma, era sempre a maior do grupo. Sempre me achei um organismo grande. E não só em altura, da cabeça às pernas, porque os pés são estranhamente pequenos.
O nariz é comprido, os seios volumosos, as ancas largas e pernas até ao rabo.
Em terra de pequena estatura tudo isto aumenta, até os pés. Passei a calçar mais e passei a ter dificuldade em encontrar roupa. Uma verdadeira Gulliver. E nunca me vou esquecer da tarde em que me tornei tão ciente de tal facto.
Andava num périplo pelas lojas da baixa da cidade, o Leal Senado. Precisava urgentemente de roupa, não tinha trazido muita e alguma estava já apertada, confesso. Entretanto vejo uma loja com umas saias simples, mas engraçadas – o que não é fácil. A moda aqui tem muito que se lhe diga.


Uma menina veio ter comigo. Não foi preciso falar a mesma língua para entender que ela me estava a dizer que eu era muito larga. E disse com as sombracelhas torcidas “Mo, mo”, que em cantonense significa “Não, não”. Mas, uma negação daquelas digna de  uma  retirada à francesa – sair sem dizer nada. E nunca mais voltei àquela loja.


O que não tem remédio, remediado está. A solução foi pedir à minha mãe que enviasse as minhas  roupas. Couberam em duas pequenas caixas dos CTT. Não tinha muitas, não. Faltei a muitas idas às compras.
A chegada da encomenda fez de mim uma pessoa feliz. Abria-as. Um momento único. Ver as minhas velhas roupas ali, roupa que me servia. Senti-se voltar para perto de quem era.
Mas, não encolhi. Continuo a ser grande... e aparentemente bem bonita.Quando tive a minha primeira experiência a trabalhar com chineses, nomeadamente da China Continental, as meninas quando me viram ficaram maravilhadas com... o meu nariz. -- O meu nariz?- Porquê? – perguntei.

- Porque é grande, é lindo. Posso tocar? – pediu uma menina chamada Angel.

E eu deixei. E ao deixar ficámos amigas.
Angel é uma chinesa da China, da parte Norte. Angel foi o nome inglês que adoptou. Angel é o nome que lhe assenta como uma luva. Bonita e doce como um anjo... e curiosa. Fazia-me muitas perguntas, ensinava-me mandarim e falava da sua terra. Sei que lá, a comida é muito picante e fica a quatro horas de avião daqui. Mais, perdeu-se na tradução.
Tempos mais tarde, uma outra menina, chamada Ellie. Chinesa de Macau e muito desenrascada fala-me de dietas, do quanto quer se magra. E eu digo-lhe:- Magra já es. És chinesa, pah...
- Sim, mas não quero ter barriga e gostava de ser mais alta.

- Oh, vês, eu gostava de ser mais baixa.

Ela olha para mim, abre os olhos e responde-me:

- És doida. Tu és linda, tens tudo grande. Gostava de ser como tu. Olha as tuas mamas...

Há comentários que não têm resposta. Sorri. E de repente...

- Sabes, já ouvir dizer que se fizermos massagens às mamas elas ficam maiores. Mas, já viste, não gosto da ideia de me massajar.
Soltei uma gargalhada...

- Sempre podes estar ao espelho a massajar-te e a dizer “ah sou tão boa!”.Ela soltou uma gargalhada...

- Goza. Tu tens tudo grande!

Eu sou grande aqui e lá. Sou branca aqui e lá. Sou bonita aqui, porque sou grande. Sou linda, porque sou branca. Lá não sei. Acho que gosto mais de cá, porque posso ser eu, porque não preciso de seguir modas, nem tons de pele. Gosto mais de cá, porque posso ser diferente. Gosto mais de cá, porque cá tudo é relativo. 






O mundo que existe

Há muito tempo que escrever deixou de fazer parte de uma rotina. Há muito tempo que escrever deixou de ser um prazer. Mas quem se ama não se esquece e mais tarde ou mais cedo cruza-se de novo num caminho chamado vida.

Em conversa com uma amiga ela disse-me:

- Deves ter tanto para contar.

E eu respondi.

- Oh, não tenho nada para contar. E quem quer ouvir o que tenho para dizer?- Não é preciso que alguém nos queira ouvir, concluiu  ela. Escreve por escrever, faz de conta que estás a falar com alguém.


Fiquei a matutar no assunto, fui tomar um banho e de repente frases e mais frases começaram a compor-se na minha cabeça. Mas o banho foi longo e quando me sentei ao computador todas as ideias tinham ido com a água.
Queria lembrar-me, mas não conseguia. Então segui o conselho e imaginei que estava a falar com alguém. Talvez com ela. Talvez ela me queira ouvir, talvez ela me entenda. A minha amiga dos cabelos negros encaracolados, com um sorriso lindo.
É com ela que vou falar, é a ela que vou contar as minhas aventuras na Ásia. Nada de excitações que não sou nenhuma Ana Maria Magalhães, nem Isabel Alçada e muito menos vivo aventuras mirabolantes, ou descubro crimes.
Saí do meu país, porque tinha que o fazer, porque ansiava pelo mundo. Não sou nenhum navegador em pleno século XV, mas talvez guarde comigo uma, um dia tão grande, alma lusitana.


Aterrei pelo céu em território Asiático. Cheguei por água a uma terra chamada Região Administrativa Especial de Macau. E Macau é realmente tudo isto. É uma região, é administrada, é especial e é definitivamente...Macau.



Saí de Portugal no dia 7 de Março de 2011 e cheguei um dia depois. Uma viagem longa e cansativa, mas cheia de excitação e vontade de chegar. Não sei a que horas, porque aqui o tempo “tique taca” a uma velocidade diferente. Cheguei. Depois de enfrentar águas remexidas pelo tempo e um nevoeiro digno de uma chegada à D. Sebastião. É pelo Rio das Pérolas que se chega aqui, porque o avião pára em Hong Kong.Sentia-me tonta. Tinha o coração a mil, queria sentir se tudo aquilo era real. Sentia-me exausta. Mas, ainda havia muito a fazer antes de poder estar sozinha e reflectir sobre esta grande viagem.
Dentro do barco estava bem vivo que tinha chegada à China. Vozes altas a emitirem uns sons estranhos. Eu como não entendia, achava que eles próprios não se entendiam.

À minha espera estava um rapaz, que seria um dos meus futuros colegas.Com cavalheirismo e um sorriso no lábios ajudou-me com a bagagem, chamou um taxi e levou-me àquela que seria a minha primeira, de muitas casas em Macau. Depois de me instalar levou-me até à redacção onde iria trabalhar com jornalista em língua portuguesa num território especial da China.Ainda me lembro da viagem até casa. Da janela do táxi avistei edíficios imponentes, ruas que me eram estranhas e gente, muita gente. Aqui o que não falta é gente. Em 28 quilómetros quadrados vive gente de todos os tamanhos e feitios, de diferentes nacionalidades. Vive gente diferente de mim, vive gente para quem eu sou diferente. E isso apaixonou-me.
- Vim ver o mundo. – pensei finalmente.



Quando se sai da zona de conforto, por mais aventureiros e abertos que possamos pensar ser, nunca nada é a 100 por cento e esta euforia não é diferente. Os ventos às vezes são tufões, o sol vem de soslaio e a chuva é quente. E inevitavelmente cresce-se. “Mo pan fa”. Porque se entra numa nova fase da vida e, definitivamente do crescimento.

No entanto, este mundo que esteve-me fechado durante um ano. Um ano em que vivi dentro de Portugal. Num ano, as coisas mudaram e a vida levou-me para fora de Portugal.

Deixei Portugal, o país à beira mar plantado, e deixei o Portugal de Macau. Depois de muitas atribulações, talvez naturais de quem se muda, decidi viver a minha aventura na China. Afinal, vim viver para uma terra do Grande Continente. Deixei de escrever na minha língua, deixei de falar a minha língua.




Fiz a minha grande viagem e nunca mais voltei.Nunca mais voltei a pensar em português, passei a pensar no mundo. Voltei de férias, mas estranhei-me. Mais de dois anos depois, olho ao espelho e vejo uma pessoa diferente. Não me sinto de lado nenhum. Não me sinto daqui, não me sinto do meu país. Talvez como sempre me chamaram, sou estranha, talvez como me chamam hoje, sou uma “falsa ocidental”. Não sei o que sou, sei que sou uma pessoa, sei que sou uma cidadã do mundo.

Na minha aventura pelo Oriente tenho conhecido pessoas de todo o lado. Fiz amigos de várias línguas e costumes e com eles viajo pelo mundo, pelos seus costumes e pelas suas crenças. Com elas viajo também pelo meu país, aprendi a olhar para o ser português de forma diferente. Falo Portugal na terceira pessoa, falo da cultura, da comida e das minis fresquinhas com tremoços. Falo de rancho e de touradas regadas com um bom vinho. Falo de um céu azul inigualável e paisagens únicas. Mostro o meu país como ele deve ser mostrado. Tento mostrar de forma romântica, porque aqui Portugal é mostrado com o coração.

Macau é uma região tão especial que tem gente de todo o mundo. Mas esta gente não se mistura. Cada uma das nacionalidades aqui existente vive fechada em comunidades. Falam uns com os outros, mas não há misturas.
- Não achas que misturar-se é bom?

- Eu cá acho que é. Aprendes tanto sobre outras culturas.

As outras culturas não são melhores, nem piores que a nossa, são simplesmente diferentes.

Conheci um rapaz do Paquistão. Tornámos-nos amigos. Amigos de passar noites ao sofá a falar sobre tudo e mais alguma coisa, basicamente.
Um dia chamou-me a casa dele.
- Quero-te contar uma coisa, uma decisão que tomei.

Eu lá fui, curiosa com o que ele me teria para dizer de tão importante.

- Decidi casar. – afirmou muito sério.

Não vi a minha cara, mas senti os meus olhos muito abertos e fiquei com aquela boca aberta de surpresa. E isto porquê? Porque ele nem sequer namorada tinha e estava em Macau há pouco mais de três meses.

- Assim, de repente. Explica lá isso melhor.

- Os meus pais já me andam a pressionar há algum tempo para casar e eu decidi que está na hora de fazer o que eles querem. Sinto-me preparado para dar este passo.

- Então... mas não tens namorada.

- Eu sou muçulmano, nós temos casamentos arranjados. – explicou.

Ora, isto para um ocidental e em especial uma mulher é uma coisa muito estranha. Falar da vida e em tom de brincadeira chamar-lhe “taliban” está bem, mas agora casamentos feitos... O que é isso?
E nem precisei de perguntar nada.
- Eu explico-te, tem calma.
Eu ouvi. Ele falou-me de todas as questões envolvidas - do sucesso dos casamentos assim, de como funcionava, de como fazia sentido na sua cultura e religião que assim fosse. No fim, apenas uma pergunta me fazia sentido fazer:
- Estás feliz com a tua decisão?
E ele deu-me um sim com tanta certeza, que a minha pequena mente ocidental ficou desarmada. E dessa noite em diante segui todos os passos com ele. Até ao dia em que, via Skype, assisti à parte religiosa, que oficializou o casamento. Não era suposto, porque uma mulher não pode estar presente do lado do noivo. Eu estive e com a devida aceitação da família - simplesmente porque era amiga dele. E ele era tornou-se um homem casado, mesmo à distância. E ele sorria feliz. E ele não é de sorrir.
- Não preciso de sorrir, só porque estou feliz. Não gosto. – comentou ele.

Vim realmente ver o mundo, viver ao lado dele e respeitar com ele. Ao lado dele tudo faz mais sentido na minha cabeça.