domingo, 14 de julho de 2013

E assim nasceram os macaenses...

Era uma vez uma península situada “na costa meridional da República Popular da China, a oeste da foz do Rio das Pérolas e a 60 km de Hong Kong. Faz fronteira a norte e a oeste com a Zona Económica Especial de Zhuhai, logo é adjacente à província de Guangdong, “citando a Wikipédia. Isto para dizer... que tudo se passa em Macau.
Esta terra agora iluminada estava longe de ser o que hoje é. Antes dos senhores lusitanos se alapardarem “por estas bandas cá da China”, já cá viviam pessoas. Sabiam? Nós não somos os maiores cá da aldeia, porque entrámos em Macau pela primeira vez à má-fé, até que os chineses, em 1557 nos deixaram cá ficar. Chiu!!!
China – 1
Portugal – 0

Em antes do século XV
 “Através de estudos arqueológicos, há fortes indícios que comprovam que os chineses se estabeleceram na Península de Macau entre quatro a dois mil anos antes de Cristo e em Coloane há cinco mil anos”, breve resenha histórica.
Durante a Dinastia Ming muitos pescadores oriundos de Cantão e de Fujian estabeleceram-se em Macau e foram eles que construíram o famoso Templo de A-Má. Edificaram também várias povoações, sendo uma das mais importantes localizada em Mong-Há. Pensa-se que o templo mais antigo de Macau, o Templo de Kun Iam, se localizava precisamente nesta região do Norte da Península de Macau.
A colonização de Macau teve início em meados do século XVI. A ocupação pelos navegadores portuguese foi feita gradualmente, mas rapidamente trouxeram prosperidade a esta pequena vila de pescadores. Tornaram-no numa grande cidade e importante entreposto comercial entre a China, a Europa e o Japão.
Já estou a imaginar naquela época. Tocam as trompetes e vem o jornalista da Corte:
Notícias do Reino: “Os portugueses alcançaram grande feito ao serviço d´ El Rey D. João III e conquistaram Macau, na China”.
Na boa das verdades seria mais:  “Chegaram a Macau, vestiram a pele de cordeiros e os chineses lá os deixaram assentar navios em terra”.
O monarca naquela altura,  aos 19 anos herdou um bom punhado de terras. Refira-se nas ilhas atlânticas, costas ocidental e oriental de África, Índia, Malásia, Ilhas do Pacífico, China e Brasil. Eu cá herdei uns pares de sapatos que tinham sido da minha irmã.
Bem, voltando à história…
Os portugueses, “guichos” como são (como se diz em belas terras de Trás-os-Montes) chegaram aqui de mansinho a dizer que só queriam descansar. Decorriam os anos de 1553 e 1554. Também nós temos um passado de emigrantes ilegais. A primeira vez que pisamos Macau foi assim. Bonito, e agora queremos os brasileiros e os ucranianos fora de Portugal, só porque alguns não têm visto. É cá uma moral.
China - 1
Portugal - 1
Bem ou mal, em 1557, lá as autoridades chinesas deram finalmente autorização para os portugueses se estabelecerem permanentemente em Macau. Concederam-lhes um considerável grau de autogovernação. E lá começaram os chineses a enganar os portugueses.
Em troca, os portugueses foram obrigados a pagar aluguer anual e certos impostos a estas autoridades, que defendiam que Macau continuava a ser parte integrante do Império Chinês. As autoridades chinesas que nada lhes escape, começaram a “micar” os portugueses e a exercer, até meados do século XIX, uma grande influência na administração deste entreposto comercial. Ai não!
China - 2
Portugal – 1

Uns anos mais tarde…
À bom português, para mostrar que é um país poderoso resolveu e com gente valente, em 1583 criar o Leal Senado. A dar o golpe com a sua arquitectura bonita. O organismo político, considerado como a primeira câmara municipal de Macau, fundado com o objectivo de proteger o comércio controlado por Macau, de estabelecer a ordem e a segurança e de resolver os problemas quotidianos. Demorou mas foi, em 1623 Macau passou a ter um Governador português.
China – 2
Portugal – 2

A arte da guerra
Macau prospera e começa a atrair holandeses, que acharam que aqui os estupefacientes eram mais baratos - made in China. O ponto alto da tripe, que se diga daquelas,  durou dois dias :
“O ataque mais importante teve início em 22 de Junho de 1622, quando cerca de 800 soldados holandeses desembarcaram, numa tentativa de conquistar a cidade. Após dois dias de combate, em 24 de Junho, os invasores foram derrotados, sofrendo elevadas baixas e conseguindo abater apenas algumas dezenas de portugueses”.
Vá lá que não foi à dúzia.
“Para Macau, desprevenida, esta vitória foi considerada um milagre”. Mais um de Fátima? Tudo isto, segundo a história.
Entretanto o Japão entra na festa, de manga na mão e de sushi no bolso a fazer um brilharete. Os samurais espetam-nos uma katana e lá se foi o comércio com os nipónicos. “Este acontecimento afectou seriamente a economia de Macau, que entrou rapidamente em declínio”, reza a história, pelo menos segundo a da internet.
E como não bastava no futebol, vieram os britânicos, de ar taciturno e de quem passa frio. O senhor contra-almirante William O'Brien Drury, comandante-chefe das Forças Navais Britânicas nos mares da Ásia, a pretexto de protecção contra a ameaça francesa, alaparda-se em Macau. A partir daí foi a tragédia grega, vinda directamente do berço da Europa. Houve ali um tempo que ainda se conseguiu aguentar como plataforma económica e um porto estratégico entre os países europeus e a China.
Outra tripe segue-se e aqui nem disfarçam - Primeira Guerra de Ópio em 1841.
Para os mais desatentos, mais um regresso ao passado:
“A Primeira Guerra do Ópio ou Primeira Guerra Anglo-Chinesa foi travada entre a Companhia Britânica das Índias Orientais e a Dinastia Qing da China entre 1839-1842, com o objectivo de forçar a China a permitir o livre comércio, principalmente do Ópio. A Grã-Bretanha pedia a abertura do comércio do Ópio, enquanto o governo imperial da China tentou proibir. Ainda não havia casinos.
Bem no entretanto, comerciantes ingleses foram expulsos da China e ao chegarem a Londres foram fazer queixinhas ao governo britânico. Este era duro e decidiu, de cabeça quente, atacar a China com a sua poderosa armada. O objectivo era amedrontar os chineses e ver se iam à Índia britânica comprar carregamentos de Ópio. Os chines coitados, magritos renderam-se... e ainda assinaram uns papéis – o Tratado de Nanquim, o primeiro dos Tratados Desiguais. Os senhores que bebem chá e que até hoje têm a coroa na cabeça saíram a ganhar, com uma choruda indeminização – “a abertura de cinco Portos e a cessão da ilha de Hong Kong por um período de 100 anos, terminando o monopólio do comércio no âmbito do Sistema de Cantão. As guerras são frequentemente citadas como o fim do isolamento da China e o início da história da China moderna”, seguindo as linhas escritas pelo passar dos anos.
Resumindo, Macau estava mal. Aquela ponta de importância desvaneceu-se como  D. Sebastião. Do nevoeiro salta Hong Kong em grande e a tornar-se no porto orieidental mais importante na China. Não é só na moda a tendência retro.

Homens latinos
Os portugueses passam-se. Em 1844 El Rey decreta que Macau passa a fazer parte da estrutura administrativa ultramarina portuguesa. Porém, este acto não foi reconhecido pela China. Este documento real redefiniu ainda e mais uma vez que o Governador era o principal órgão político-administrativo de Macau e não o Leal Senado, que já tinha perdido a sua importância e influência política em 1834.
China – 3
Portugal – 2
Passados uns anos Macau é traçada como porto franco. O Governador João Ferreira do Amaral fartou-se de pagar aos chineses ordenou o fim do pagamento do aluguer anual e dos impostos chineses, a expulsão dos mandarins de Macau e a abolição da alfândega chinesa. Mandarim - uma personagem da Marvel Comics, leia-se no dicionário.
Os portugueses a levarem a sério serem povo que ferve em pouca água, começaram a fazer “ocupas”, do tipo sem terra do Brasil. Chegaram à favela da parte Norte da Península- referir que era onde se aglomeravam os chineses. Perderam a cabeça, ainda com umas gramas no bolso da Guerra do Ópio, desbravaram as ilhas da Taipa. E não satisfeitos foram até Coloane e mais umas ao lado - as ilhas da Lapa, Dom João e Montanha. Grande estafa!
Mas foram homens e chegaram aos chineses com papelada – a burocracia que nunca faltou. Antes ter a mais que faltar, diz o ditado popular. “Em 1887, Portugal diligenciou junto do debilitado e fraco Governo Chinês a assinatura do Tratado de Amizade e Comércio Sino-Português, o qual reconhecia e legitimava a ocupação perpétua de Macau e das suas dependências pelos portugueses”. Isto escrito desta forma merece um:
China – 3
Portugal – 3
O bunker das patacas. Gracejo que não pode faltar num país falante de português
Já bem-postos em Macau, os portugueses começaram a pensar mais além. Viram que dava para conciliar o assédio às chinesinhas e o dinheiro. Perfeito. País de grandes banqueiros não tardou a criação de uma moeda oficial. “Conseguirá a Banqueira do Povo superar o poder do dinheiro?”.
O Governo de Macau, com a sua própria moeda oficial, autorizou, em 1901, o Banco Nacional Ultramarino (BNU) a emitir notas com a denominação de patacas. As primeiras notas impressas começaram a entrar em circulação em 1906 e 1907. Já século XX.
Povo de fado já triste o suficiente decidiu limpar armas e ficar por casa, que o descanso é merecido no guerreiro. Fez um post na Segunda Guerra Mundial, mas nada de grandes confianças. Sorte de Macau, que fazia parte do grupo de Portugal e jogou na posição neutra. Os chineses que ninguém os engana viram aqui uma terra porreira para fugir aos japoneses. Não querendo ser má-língua, não sei se é da condição de refugiado ou não, mas dizem que eles duplicaram a sua população naquela altura. Pelo menos da fama não se livram. Eles gostam de ser muitos, mas depois esquecem-se que têm que se alimentar e aqui não há campos de arroz. Deu num abuso de número de pessoas e fome. E dor de cabeça para os portugueses, mas havia brasão. Do mal, o menos.

O fantasma do samurai
Mas os samurais são japoneses e japoneses são o extremo da educação – polite, como se diz por cá - e o país respeitou a neutralidade de Portugal e por isso também a de Macau. Mas samurai é samurai e deve ter aproveitado para ler a Arte da Guerra, para observar e antecipar o inimigo. O fantasma pairava no ar.
Relato: “Os temidos japoneses continuam a ter uma enorme influência no Governo de Macau, tendo já lançado várias ameaças. Este ano – leia-se 1941 - as ilhas da Lapa, Dom João e Montanha, foram mandadas evacuar pelos portugueses devido a uma ameaça emitida pelo Exército Japonês. Eles não só andam aí, como já as ocuparam”.
Tanto trabalho para nada, porque depois de terem levado um baile na guerra, tiveram que as devolver à China. Sim, devido à incapacidade dos portugueses em reocupá-las.

Avante camarada, avante!
Como qualquer história sumarenta não podem faltar comunistas.
Última hora: “Decorre o ano de 1949, ano que se torna auspicioso, com a fundação da República Popular da China (RPC), de carácter comunista e anticolonialista. Esta nova república declarou o "Tratado de Amizade e Comércio Sino-Português" como um dos muitos tratados desiguais impostos pelas potências europeias à China. Tradução: declarou-o inválido.
Mas, o novo regime não está ainda disposto a tratar desta questão histórica dos tratados desiguais, por isso o statu quo de Macau está provisoriamente mantido”.

Comunismo leva a motim
 “Neste frio de Dezembro de 1966 a malta decidiu sair à rua e fazer um motim. Penso que os mentores desta confusão era chineses pró-comunistas que não estão contentes e estão a ser influenciados pela Revolução Cultural de Mao Tse-Tung. Talvez fique na história, era bom”.
E ficou: “O famoso Motim 1-2-3. Provocou 11 mortos e cerca de 200 feridos e foi necessário a mobilização de soldados para controlar a situação. O motim gerou terror e uma grande tensão em Macau. Um humilhante pedido de desculpas do Governo à comunidade chinesa local enterrou o assunto”.
O motim deu um abanão a Portugal e este renunciou à sua ocupação perpétua de Macau. Os lusos reconheceram poder e o controlo de facto dos chineses, marcando o princípio do fim do período colonial desta cidade. Estes acontecimentos pedem ponto a duplicar.
 “Foi autogolo!”, grita o jogador.
China – 5
Portugal - 3
Povo de fado triste evita de um lado, apanha do outro. Em Portugal, aquilo também não estava bem. A Revolução dos Cravos e um regime democrático instalado deu tempo aos senhores portugueses de começaram a privatizar as suas colónias. Assistia-se à crise da democracia.
Pessimista, mas sempre de brasão na mão, o país lusitano não desmarcou e criou os PALOP. Abriram as correntes dos escravos, deram-lhes alforria. Sempre acompanhado da sua burocracia e olho para o negócio, assinaram-se mais uns documentos.
“Acordo do Alvor fez nascer os novos países africanos de língua oficial portuguesa (PALOP): Angola, Moçambique, Guiné-Bissau, Cabo Verde e São Tomé e Príncipe.

A paciência de chinês
O português é esperto, mas o chinês é bom jogador. Quis ser polite e não aceitou logo toda a Macau. “Queremos dar tempo para o estabelecimento de negociações, no sentido de uma harmoniosa transferência”, apelou alguém, segundo comunicado do antepassado do GCS – Gabinete de Comunicação Social.
“Amigos políticos, empresários… e amigos da comunicação social. Neste dia 20 de Dezembro de 1999 é com muita alegria que estamos aqui todos juntos em família para celebrar a transferência de soberania de Macau para a República Popular da China. Com o decorrer das belas negociações, Macau redefiniu-se para território chinês. Mas a região tem características que permite a Macau um considerável grau de autonomia e a conservação das suas especificidades, incluindo o seu modo de vida e o seu sistema económico de carácter capitalista, até 2049”, explica o senhor no seu discurso, em português.

O século XXI
O século XXI não tem naves espaciais, nem homens verdes, como se pensava. Mas em Macau podia haver uma em forma de casino. O futuro da agora República Administrativa Especial de Macau (RAEM) estava nas mãos de Edmund Ho e no seu livro de receitas.

RECEITA:
- combater ferozmente e com êxito o crime organizado pelas tríades, com uma chávena de bom chá de Governo Central da República Popular da China
- juntar novos militares e colocar uma guarnição de tropas chinesas. Mexer bem até ficar dura para combater a criminalidade
- metade de uma liberalização do sector do jogo
Apresentação: cortar em várias fatias e distribuir pelos outros.
Uma jogatana não é nada mal vista entre os chineses.
“Assim, que souberam da liberalização do jogo, uma multidão de chineses correram para o autocarro, acotovelando-se uns aos outros, algumas pessoas caíram e estão feridos (…), as coisas acalmaram. O levantamento dos estragos indicam um grande e acelerado crescimento económico jamais visto em Macau”, relatou o jornalista.

Por detrás dos maiores prédios
Por detrás deste crescimento, criaram-se graves e alarmantes problemas sociais, como por exemplo o problema da inflação galopante, da mão-de-obra ilegal ou do excesso da importação de mão-de-obra barata e o alargamento do fosso entre os ricos e os pobres.

Escândalos bem ao jeito de um filme do cinema da China. Secretários fraudulentos, manifestações por um sistema político mais democrático e transparente, exigindo ao Governo a implementação total do sufrágio universal directo nas eleições - para a Assembleia Legislativa  e para o Chefe do Executivo. Lutavam também por uma maior independência das receitas do jogo e a introdução de medidas para a diminuição do fosso entre classe muito alta e classe muito baixa. Se calhar, é mais ao jeito de Robert Zemeckis e o seu regresso ao futuro.