terça-feira, 9 de julho de 2013

Militares indefesos


- Há uns tempo ouvi a pergunta o que é um paradoxo. É qualquer coisa que contraria outra, a bem dizer. Como ouvi o exemplo  advogado honesto, político verdadeiro ou, uma nova, militares que não desejam ser nada do que são.
Linda George tem problemas com a autoridade. Não que seja uma criminosa ou que simplesmente não goste. Há algo neles que não suporta. Não se sabe bem o porquê, talvez a razão esteja contida em memórias de infância, ou algum trauma parental, que tanto seduz psicólogos.
Em terras de sua Majestade Norodom a militarização é evidente. Há polícias, há militares de diferentes escalões e forças. Há quem se vista de camuflado, de verde, de um castanho claro, meio estranho, e claro, de negro. As tropas especiais, a chamada brasileira tropa de elite.
Elite, mas à moda do Cambodja  Devagar, lento ou parado. Debaixo da árvore é sempre melhor estar, o trânsito é um caos bastante normal e crianças a mendigar é negócio. Nem para ajudar com direcções – ler mapas é mentira, sentido de orientação é utopia.
Linda George teve a oportunidade de trabalhar umas semanas com a Real  Força Aérea. Uma experiência que não queria, e que no final a levou ao coração de um povo que ainda luta.
O recinto é enorme, rodeado de verde e a ouvir os aviões que aterram ao lado, no aeroporto. De manhã bem cedo, a agitação das motas é grande. A estrada é longa e plana e os militares que por lá se passeiem parecem bem descontraídos nas suas voltinhas matinais.
Ao ar livre há um estabelecimento onde se pode comer qualquer coisa garantida de um novo dia envenenado. O café é terrível, mas não há mais nada. As senhoras são simpáticas e há um rapazinho gay, com as suas calças justas e camisolas às riscas. Linda caracteriza-o como o Holy que toda a gente procura, mas em versão pele escurecida pelo sol e bastante mais anafadinho.
- Às vezes olhava para ele e pensava, que não havera de ser fácil estar ali rodeado de homens musculados e ser-se gay. Mas era bastante confiante em si mesmo... um castiço.
Depois de um café e um cigarro Linda lá ia, apresentar-se como professora a marmanjos que queriam ser pilotos. Militares relaxados, que devagar se deslocam para a sala de aula e que languidamente se preparam.
Eles gostavam de jogar volley. De manhã havia sempre duas equipas já em altos jogos.
- Um trabalho muito militarizado, indeed.
Linda nunca tinha antes vivido entre militares, em especial num país de terceiro mundo, onde tudo pode acontecer se sim ou se não.
- A ideia com que fiquei é que vida de militar é bem relaxada por estas bandas. Não sei como é nos outros locais.
Linda não gosta de autoridade. Não gosta de controlo. Não gostou, mas os seus marmanjos eram tão doces, que ela teve pena de os deixar. E confessa que até hoje pede para que não haja uma guerra.
- Aqueles meninos não podem ir para a guerra. O coração deles é grande demais.
E assim, Linda descreve o seu sentimento. Um coração grande. Ela conta que viu ternura, compaixão e alguma ingenuidade nos olhos de quem um dia terá que defender o país.
Mas que pessoas são estas que sacrificam a vida por um Governo? A quem lhes dizem que têm que ser militares, a quem o salário não paga nem uma renda de casa.

desfasamento

Linda conheceu um outro militar, desta feita, das tropas especiais. Um menino de olhos negros intensos, de um olhar que fala mais que qualquer palavra ou acção. E que aparentava contrariar o seu estilo de vida.
O contacto diário aproximou-os. E a curiosidade de Linda aumentava. Tão doce, tão calmo e conformado. Treinado para atacar com tudo o que tiver. Incapaz de o fazer.
- Quem seria este rapaz? O que é a vida para ele?
Este rapaz sonhou um dia ser médico. A falta de recursos levou-o às mesas de um curso de inglês. Do curso saltou para a tropa.
- Porquê?
- Porque os pais quiseram.
- E como te conformas assim?
- Porque respeito os meus pais.
Um emprego de risco, um salário de miséria, anos passados e um não querer mais e não poder.
Uma mente brilhante num menino dos campos de arroz, que veio para a cidade grande à procura de melhor futuro e queria ser doutor.
Um rapaz curioso, que dentro da sua rigidez cultural, tem uma curiosidade que o faz saltar para o lado ocidental.
Tornámos-nos amigos. Eu, ele e o Jackson. Rimos muito quando estamos juntos – diz já com um sorriso no lábios.
E assim, Linda teve o seu baixar de guarda a todo o homem que se farda.

- Há mais para entender para além do que se vê.