sexta-feira, 5 de julho de 2013

A descoberta de Linda George


Cansada e a precisar de uma mudança comprou um bilhete de avião... só de ida.
Tomou a decisão de trocar a cara exuberância de Macau, por um país considerado dos mais pobres do mundo. Embarcou numa viagem ao coração do sudoeste asiático, para descobrir  o que esconde o misterioso Kampouchea.
Primeiro fez uma paragem em Bangkok – cidade onde antes tinha tentado viver. A experiência não foi das que mais quero recordar, confessa. Preparou-se para a visitar. Olhou-a de outra forma. Cruzou-se com ela com o charme merecido.
Passeou, reviveu sítios familiares e viu os sorrisos. Precisava de ver sorrisos, de sorrir para acreditar que a decisão tinha sido a mais acertada. E foram estes sorrisos que a reconciliaram com a Tailândia. Um primeiro passo estava dado, e com sucesso. Fazer as pazes com a capital tailandesa. Mas a viagem não tinha ainda, fim marcado.
Havia outro destino à sua espera – Phnom Penh, Camboja. A primeira viagem ao reino encantado, conhecido pelo misticismo e beleza de templos seculares. A primeira vez num solo cansado pela guerra, numa história marcada por um genocídio “vermelho”- um dos piores que a história do mundo já presenciou.  



O aeroporto é das coisas mais castiças que já viu - conta. Não é labiríntico, nem claustrofóbico, pelo contrário. A distância entre sair do avião, pegar na mala e a saída é curta. E a saída é logo ali... numa rua enfeitada com o verde das arvóres, que abraçam as redes que as seguram. Não há um corredor comprido até chegar junto da multidão à espera de quem “mesmo agora desembracou”.  Primeiro, porque não há multidões, segundo, porque parece que sai num jardim. Não é um jardim do Éden, mas é, sem dúvida, castiço.
Ainda meio desorientada, encontrou quem estava à sua espera. Numa rápida viagem num tuk-tuk chegaram à casa, que iria ser a sua.
Linda George gosta de tuk tuks. Para ela uma viagem neste referido transporte é, sobretudo, engraçada. Há um certo desconcertar de movimentos, que a fazem sorrir. Da falta de janela as ruas que se percorrem mostram-se melhor.
No entanto, as primeiras ruas que percorreu no Camboja não a fizeram sorrir. Fizeram-na engolir em seco e pensar:
- Estou realmente num país do chamado terceiro mundo.  O que é que eu fiz à minha vida.
Sempre que se chega a um sítio novo, e depois de algumas mudanças, já se sabe que é esse sempre o primeiro pensamento. Depois vem aquele que diz que vai correr tudo bem e que no outro sítio também foi difícil.
- Há que dar tempo ao tempo.
Esta filosofia positivista cai por água abaixo, quando se olha à volta, falta aquela comida que tanto se gosta – e num local estranho nem sequer se sabe o que comer – e que faltam as pequenas futilidades do dia-a-dia, aquelas que nem tomamos atenção e que agora passam a ser um tão desejado bem.

E lá se vão as boas vibrações e, de novo:
- Onde é que eu me vim meter... estava tão bem...
Fica na cabeça, mas não há remédio, é dar a volta à situação e encarar com a paciência confirmada dos asiáticos. De realçar, que nalguns países é melhor definida, como preguiça... e que é um estilo de vida.
- Se por acaso a casa de banho do andar não tem água, vai à do outro andar. Enrola um lenço à tua volta, pega no sabonete e no champô, mete uns chinelos e estás pronto para um saudoso banho dos parques de campismo e dos festivais. De ressalvar que a casa de banho não se adapta à arquitectura europeia. Tem um chuveiro aberto, ao lado da sanita, um lavatório e uma bacia. Os banhos têm também outra posição, agachada ou, como no Japão, sentados num pequeno banco. A água não abunda, a electricidade trabalha com cortes de algumas horas. O milagre é quando chove. O melhor é ir tomar um banho, que o chuveiro vai sair figoroso. Água quente é um luxo, provavelmente mais utizado pelos ocidentais. Depois de uma ida à casa de banho esqueçam o papel higiénico – recorda Linda.
- Ainda usas? – perguntaram-lhe um dia.
- Sempre usei. Não sei muito bem como é que se faz aqui, admito que também não é um assunto que me suscite curiosidade. E imagino que a mangueira ao lado da sanita, seja para o efeito – respondeu para si mesma.

- Pode parecer que estou para aqui em criticas, mas não é verdade. Considero que isto é o que posso estar mais perto da cultura e só assim se conhece o modo de um povo. Há províncias por esta terra a fora, cuja principal actividade é a agricultura - tal como todo o país - onde as casas são feitas de bambu e estão acima do chão.
E isto é fascinante, nas palavras de Linda. Um povo que não precisa de mesa para comer. Se há chão, porque não usar? Um povo que não conhece, o que ocidental chama desenvolvimento, um povo nativo, de vilas, tribos e fantasmas. Uma cultura abençoada por monges e por dádivas aos seus deuses budistas.


Os homens que escolhem uma vida em tons de cor-de-laranja e violeta, entre orações, passeiam-se nas ruas, vão a casa das pessoas para abençoar e receber um prato de comida. Os guardiões de Angkor Wat, capazes de viver em carne e curar em espírito.
Uma terra de reis e rainhas, de um lado francês e de uma lenta sobrevivência à guerra. De princesas bailarinas e de militares. Um reino que parece querer desenvolver. Um povo simples, que partilha e que agradece a quem vem ajudar o povo Khmer.




- A jornada ainda agora começou e eu não dato as minhas viagens. É esperar pelo que aí vem – deixa em aberto.