sábado, 31 de agosto de 2013

O dizer adeus

Viajar, conhecer outras culturas e experimentar com elas estimula a nossa personagem. Tudo isto de andar em viagens parece idílico, contudo tem os seus espinhos. Tem um lado que não se vê, mas se sente... O dizer adeus.
Dizer adeus carrega a sua dor. As frequentes despedidas vão criando uma certa imunidade. Se alguém parte é porque o tem que fazer. O melhor é deixar esse alguém partir... com um sorriso.



Quando se vai andando de país em país, o caminho que traçamos é cruzado com o de outras gentes. Algumas não vale a pena sequer tentar, outras que se tornam amigas. E a essas é duro dizer aquele adeus.
Na vida de Linda já algumas pessoas que o peso do adeus a acompanha para todo o lado. Os amigos que vai fazendo vão indo e vindo, ficam, de certo, mas vão fazer as vidas longe.
Linda conheceu um irlandês, o Lee. A viver no Cambodja há cerca de dois anos, quis ajudar a nossa personagem a situar-se na cidade. A amizade foi crescendo.
Mas o tempo estava destinado a ser curto. Lee estaria de partida em dois meses. Decidiu trocar o Sudoeste Asiático pela fria Europa – Suécia.
Um amor fá-lo regressar ao Velho Continente. Linda diz adeus, mais uma vez. Ao único amigo digno de companhia.
- Se nos tivéssemos conhecido antes, tínhamos nos divertido bem mais -  disse Lee a Linda.
- Sei que tem que ser, mas confesso que me sinto triste. Vai-se embora a minha única companhia no Cambodja, o meu “mate” Vou guardar bons momentos.
As despedidas foram emocionantes para Linda. Trocaram-se elogios e agradecimentos e ambos guardaram consigo o desejo de um passo bem dado.
- Uma pessoa, no meio de tantas outras, mas que é boa. Conheci-a, fico feliz.
A admiração foi sendo construída. Talvez uma primeira desconfiança, cultural, de experiências. A convivência  levou-os a conhecerem-se e a admitir que ambas eram confiáveis.
Lee está de partida. Coisas vendidas, mala pronta. Uma última despedida com os amigos. Lee vai seguir um novo rumo, Linda começou o seu. Fica, abalada com mais um adeus.
- Uma amizade rápida, mas engraçada. Guardo a melhor impressão dos irlandeses.
Na noite de despedida Lee encontrou um velho vizinho da primeira guesthouse em que morou. Sorrisos e cumprimentos, um “catch up” do que se estava a passar em ambas as vidas. O amigo de Linda estava de sorriso aberto.
Na sua direcção vinham mais três amigas. Raparigas cambojanas, modernas e estudadas na Europa. Ao bom estilo do Sexo e a Cidade, versão Khmer não faltaram os cupcakes para a sobremesa e as fotografias para o facebook.
Um jantar, muitos risos e gargalhadas. Boa comida e boa disposição.  Assim, se despediu Lee do Cambodja. Com um sorriso nos lábios e uma saudade antecipada.




terça-feira, 27 de agosto de 2013

A ilha

Uma escapadela indevida para uma ilha deserta pareceu-lhe o programa ideal para carregar baterias, após três meses de alguma mudanças no rumo da sua vida.
De repente Linda George estava a preparar a mochila para ir até à província de Kep. Nas agências dizem que a viagem dura três horas, mas a condição das estradas fá-la durar o dobro do tempo.
O mais fácil é apanhar o autocarro no Central Market, estação principal. Um autocarro meio atabalhoado, mas o ar-condicionado funciona. As estradas que fazem o caminho até Kep são tortuosas, o que se vê da janela não é Phnom Pehn. A capital do país é uma bolha, que faz parecer uma terra em desenvolvimento. A poucos quilómetros do perímetro da cidade principal do reino, reinam guetos, mercados lamacento  gente pobre e suja.
- Lembro-me de ver uma senhora a vender acessórios de cabelo mesmo ao lado de um pedaço de lixeira deteriorada e coberta de insectos. Mais à frente a carne...
Nesta terra de encanto, nem tudo são rosas, a pobreza traz consigo pouca higiene, há gente que vive sem água.
Mas, o que se encontra no final faz deixar o que se viu, o que se sentiu e leva-nos a crer que esta terra tem a magia de um país que tenta sobreviver, a passo lento.



No Cambodja não há pressa, não há stress. E quanto mais saímos da bolha, mais lento fica o reino.
Uma terra de campos de arroz, que dão à paisagem tonalidades de verde, que de tão extensas se encontram com o azul do céu. Linda gosta de frisar que o Cambodja tem um céu magnífico.
- A cor, as formas que as nuvens formam. É lindo.
Nos quilómetros a percorrer é isso que se vê. O arroz a ser cultivado, por pessoas e animais. Uma ruralidade com um toque de charme, porque se está no Cambodja. Casas em bambu  madeira ou para os mais afortunados, em pedra, sempre acima do chão. Os animais vivem à solta, convivem com as pessoas. As vacas tentam encontrar comida, mas de certo que não devem ter muita energia, a magreza é extrema.
- Não admira que as refeições aqui não contenham muita carne. Esta gente não está habituada a fartura. O arroz é o alimento que há e que abunda, daí o arroz ser noventa por cento da alimentação da gente do Cambodja.
Vai anoitecendo. As estradas vão ficando cada vez mais escuras e não há iluminação artificial. De paragem em paragem, aquele autocarro vai deixando pessoas em locais cada vez mais remotos. Onde nada acontece. Um cenário tranquilo de um pós guerra. E por isso, esta gente vive feliz. A paz reina neste pequeno país. Um país que se estendia pela Tailândia e Vietname  Um país que foi “comido” por eles, geograficamente e economicamente. 
A chegada à província foi, então, já de noite. Desta vez, nada tinha sido planeado. Linda tinha apontado uns nomes de umas residências e o resto, era tentar lá chegar, esperando que o taxista soubesse.
Mas quando chegaram, Linda e o amigo Lee conheceram um francês, dono de uma guesthouse. A dormida estava resolvida. O primeiro passo estava dado.
A noite estava tranquila, tinha ficado para trás o barulho e a enchente da capital. Os sons nocturnos da natureza podiam-se ouvir. Uma pequena cidade à beira do mar. Ainda mais tranquila, porque esta altura é época baixa, por ser a estação da chuva.
A travessia para a ilha é feita de barco. Vinte a quarenta minutos, que parecem cinco quando se olha à volta e vê a paisagem que nos rodeia. mar e ilhas.





- A Tailândia está carregada de turistas, e os locais também. Está demasiado cotada no mercado. Aqui encontramos mais realidade. Eu gosto mais.
- Foi ideal. Poucos turistas e a ilha onde íamos estava praticamente deserta. Havia uma outra turista a dormir.
Poucos ali passam a noite, pelo menos pela altura – Agosto. A época alta é entre Novembro e Maio. Agora visitam, passam umas horas, mas quase ninguém fica para apreciar um dos mais belos pôr-do-sol, que Linda haverá visto. E poder ver uma noite sem luzes artificiais. Apenas a luz das estrelas e o preto da noite. Perto das nove o gerador da electricidade é desligado. É hora de recolher que o dia começa cedo... porque vale a pena ver amanhecer naquela ilha.
- Consegues imaginar um sítio onde nenhuma luz humana se avista? É ali. A noite é noite. É escura, mas guarda nos pequenos pontos de luz a beleza do céu.



Um pequeno pedaço de terra, com um areal pequeno, o mar mesmo ali à beira. Um jardim quase privado para quem pernoita.
- Uma paisagem idílica, bom marisco, cerveja fresca, um paraíso na terra.
Linda confessa que o mais belo naquela ilha é a pacatez, que te obriga a reduzir a pressa da cidade, a respirar e a relaxar.
- Parece uma ilha criada para a Alice no País das Maravilhas. Os bugalows preenchem o espaço verde de forma coquete, digamos assim.
Linda passou a noite numa casinha de madeira, com janelas azuis, um amok na varanda e uma flor alta e amarela, sempre à sua espera. O mar sente-se, o corpo deixa-se levar pela sonoridade de água calma, que embala.
- As cores do céu transformam-se a cada passagem do dia, e todas elas nos deixam em contemplação.
O sol estava tímido, mas entre ameaças de temporal e alguma chuva, espreitou e levou Linda e o amigo ao mar.
A nossa personagem há muito que não ia à praia. E mesmo não sendo uma fã incondicional, o local em si, a paisagem fazem-na sentir viva e activa.
- Estava mesmo a precisar disto. Sol, mar e boa comida... – comentou Linda com Lee.
- Foi uma boa ideia de última hora.
O tempo, infelizmente, foi curto.
Houve tempo ainda no regresso a terra, para um almoço à beira da praia e um mergulho enquanto se aguardava o autocarro. Ali à beira da estrada, onde os carros passam, as pessoas vendem e descansam, onde os autocarros chegam e vão. Um sol que convidava, um mar que exigia. Um último mergulho antes de voltar à confusão da cidade e à realidade da vida na bolha.



- E não importa Linda, somos brancos. Parecemos deuses a sair do mar – gerou uma gargalhada.
Linda lavou a alma. Lee despediu-se do Cambodja. Um reino difícil de entender, mas apaixonante de se conhecer.



segunda-feira, 19 de agosto de 2013

O Oriente pelo Ocidente

- Está na hora de me rir com o assunto!
Linda decidiu abrir um pouco do seu passado. No pouco que conheço desta nossa personagem, claro é, que ela resolve os obstáculos que a vida lhe põe, a rir-se. Sempre que algo de mal lhe acontece, ela solta uma gargalhada sentida e pára para olhar o estrago. A cabeça começa a fervilhar de divagações, que nem sempre fazem sentido a quem a ouve. O enredo talvez esteja completo, mas apenas dentro dela. Ela desabafa umas palavras e como sabe que não lhe seguem o raciocínio, age.
Quando o faz de forma impulsiva mete os pés pelas mãos. A ressaca é sentir-se má pessoa. Quando planeia as coisas vão correndo, mesmo que a um ritmo lento.
Um resumo de um auto-retrato, que antecedeu a viagem de Linda à China.
- Não tive tempo para parar e pensar. Fui levando as coisas, fui tentando sobreviver em terras de chinês. Lá tudo o tempo é mais rápido, tem outro ritmo. Uma coisa acelerada.
Esta foi a primeira paragem de Linda na Ásia. Situada na província de Cantão, a Região Administrativa Especial de Macau – RAEM – foi a sua casa durante cerca de dois anos.
Chegou de mochila às costas àquela terra, prometida de trabalho e vida em tons de dourado, como apraz o bom chinês.
- Ninguém dá nada a ninguém, senão deres em troca a alguém... E passado três meses estava, de novo, de mochila às costas, sem casa e sem dinheiro. Mas estava na China.
Em três meses Linda confessou ter vivido e ouvido coisas estranhas, meio ofensivas. Do chefe lhe dizer para usar o corpo para ter fontes.
- Sabes quando te fazem um comentário daqueles que te dá para ficar meio burra? Olhei-me de alto abaixo e ainda perguntei, meio boquiaberta, qual corpo.
- Esse que tens? – veio a confirmação do que tinha ouvido.
- Ela nem sabe o que tem – comentou o chefe para o lado.
A nossa personagem soltou a sua gargalhada e deixou cair em saco roto. O senhor estava a recebê-la como uma rainha, a levá-la a sítios caros e portugueses. De lembrar, que Macau foi antes governada sobre haste portuguesa. Ao terceiro mês o trabalho terminou. A razão foi:
- És mona. Mas do que li, há muita gente que escreve livros e coisas assim. Vou-te enviar para de volta para o teu país.
- Não quero.                        
- Vais.
- Não.
E Linda ficou...
- Hum, interessante. Vai a ver não usei o corpo da forma pretendida! – pensou mais tarde.
Nas ruas pequenas de Macau Linda encontrou um rapaz que tinha conhecido nos tempos da faculdade. Ele tinha um quarto vago e Linda um tecto.
E mais uma vez, ninguém dá nada a ninguém.
O homem estrangeiro chega à Ásia e parece ficar a sofrer de “febre amarela”. Ter mulheres asiáticas na cama, o sentir-se macho superior por ser branco e ter dinheiro  o entrar numa competição consigo, a ver quem “papa mais gajas”, deixa as feromonas masculinas ao rubro. Tudo o que é mulher é um objecto a ter na cama.
A casa era então, um entre e sai de filipinas, indonésias e chinesas. Umas sérias, outras amantizadas e meninas para ganhar um extra, porque na maioria são empregadas de limpeza – as filipinas e indonésias. As tácticas de engate desta espécie era de rir.
- Hello! Sou dos Serviços de Migração e posso ajudar-te com o visa.
- Hello! Sou professor universitário e cheguei a Macau há uns dias.
- Cheguei a passar por irmã dele. E elas caiam. Ele tinha um nome artístico, era de várias nacionalidades e profissões.
Estas eram dirigidas às meninas mais carentes, que acreditam numa qualquer balela e acreditam que um homem rico as vai salvar.
- Elas querem carinho e  atenção e é isso que quero dar -  disse um outro amigo.
Às vezes é negociado.
- Dou-te sexo e comida, tu limpas-me a casa.
Naquela casa havia de tudo. Ameaças de chulos à porta, orgias e uma certa violência psicológica. Cansada daquilo, houve uma noite que Linda, literalmente fugiu. Pediu a um amigo que a ajudasse. Em intantes desceu cinco andares com os seus pertences e nunca mais voltou àquela casa.
- Até passar na rua me custava. Ficava ansiosa e com receio de ver aquele louco.
Saltando entre casa de amigos que foi fazendo, a nossa personagem encontrou o seu canto.
- Num ano mudei sete vezes de casa. Estava exausta, nem queria acreditar que finalmente tinha paz.
O trabalho esse foi sendo esporádico, part-time, meio freelancer... até que voltou à redacção de um jornal a tempo inteiro.
Tudo parecia tranquilo. O director apreciava a sua escrita, mas entre bebedeiras e ressacas, pouco lá punha os pés. Um dia pôs e decidiu criar uma coluna de opinião, mas anónima.
A nossa personagem que gosta sempre dizer umas coisas, entusiasmou-se e não foi simpática com a comunidade dos antigos, acham eles, colonos.
- Entretanto vou fazendo bons trabalhos, inclusive capa de revista do suplemento cultural, que nem era escrita pelos jornalistas da redacção. Como profissional que gosta do que faz, fiquei orgulhosa.
- Numa outra vez, passando para o gabinete o director comentou que o meu antigo chefe lhe andava a ligar.
Linda tinha férias marcadas, e já não voltou.
- Gosto do que escreves e não queria fazer isto, mas tem que ser – não voltes.
- A cara dele não estava convencida do que estava a fazer. Artigos de opinião mal recebidos, telefonemas e uma cunha a meter... – guardei para mim.
- Parei para pensar e olhar à minha volta. Então estava eu na China a aturar as loucuras de arrogâncias de quem não é nada no seu país, e aqui, continuam incompetentes, mas têm cargo e dinheiro e acham que têm poder sobre todos?
Soltou-se uma grande gargalhada  Estava na hora de ser uma verdadeira moça de mochila às costas, chegada a um país da China. E esta cultura abriu-se para ela, como nem a ocidental não o fez.

Foi nesse lado chinês de Macau que a nossa personagem se encontrou e que aprendeu a amar aquela região tão especial, que agora lhe ensina uma palavra nova em português - saudade... pela cultura chinesa. 

domingo, 18 de agosto de 2013

Música, álcool e pavões

Uma saída à noite na capital, na sua maioria combina com música pop, da mais comercial que anda por aí. Aqui, desde miúdos a graúdos vive-se uma cultura do, agora tão afamado K-POP, Korean Pop. Que toca Gangman Style em coreano e Khmer, há uma outra que é Gentleman, que tem uma relação qualquer com estilo anterior. Linda não percebeu se é outra música ou o nome do dito artista. E claro, os grandiosos hits americanos.
- Os meus miúdos vivem naquilo. É o que cantam e dançam. Na escola às sextas-feiras de manhã é dia de música e de dançar e é esta a música que passa. Os miúdos ficam loucos, excitados e todos dançam numa coreografia que parece ensaiada. Os movimentos estão lá todos.
- Fico estupefacta, confesso. Como é possível darem isto a ouvir a miúdos de cinco anos. Noutro dia tive um aluno a dizer-me:
- Teacher... you are a sexy girl!
- Sabes o que significa isso?
- Sei – respondeu confiante.
- Explica.
- Oh, não sei...
Apesar da nossa personagem querer ser correcta e dizer que não devia dizer aquilo.
- No máximo, na idade dele, as meninas são bonitas. Disse-me está bem. Logo a seguir vira-se para uma colega que estava sem uniforme:
- Hey, today you are sexy girl!
Linda conta que a pequena ficou deslumbrada com o elogio.
- Podem não saber explicar, mas o sentido está lá – comenta Linda.
Isto está em qualquer geração. Os adolescentes vibram, os jovens e adultos partilham a vibração e a loucura.

Uma noite inesperada

Linda foi convidada para um serão de comida mexicana, cerveja e boa companhia.
O seu amigo Wild Bill regressava aos Estados Unidos dali a dois dias. Uma espécie de “até já”, que Bill lhe confessou levar no coração. Um americano do Texas, um cowboy dos seus 65 anos, uma história de vida, que o levou à guerra no Vietname, ao volante de aviões e a viagens pelo mundo. Agora reformado, deixou a família a cuidar do seu “aligator´s ranch” e anda a curtir a vida, literalmente. Um homem com uma abertura de mente, rara e cada vez mais lúcida. Tem a idade de um jovem experiente na direcção que dá à vida.
Uma noitada com amigos, boa conversa e muita cerveja. Bill estava pronto para ser maroto, como gosta de dizer.
Depois do momento mexicano, uma voltinha pelo Night Market, para digerir e aliviar a alegria da cerveja e comprar umas lembranças.
- Aquelas tretas que se compram para se levar à família para mostrar que estivemos lá – diz a nossa personagem sorrindo-se.
O rumo a seguir foi escolhido pelo Tony, um outro amigo local, que geralmente acompanha Bill.
- Fomos até ao outro lado da ponte, à Ilha do Diamante, como lhe chamam. Há uma espécie de parque de diversões à beira rio, ideal para casais apaixonados e cerveja barata para os mais festeiros.
O grupo de Linda é danado para a brincadeira e ainda se beberam algumas jarras. Já tudo alegre, Tony diz ter que regressar à base. Assim que o militar arranca, Kaheng liga a dizer que acabou uma missão e está livre naquela noite.
Trocam-se os turnos, e agora é a vez de Kaheng guiar os amigos ocidentais que queiram tanto dar um passinho de dança.
A noite bem bebida estava ao rubro. O amigo levou-os a uma discoteca no River Side. Linda já estava à espera de uma música qualquer da moda, mas que talvez a leveza de espírito a tornasse suportável. Qual não foi o seu espanto, a música era boa. Uma mulher Dj a passar um som com boa vibração. A nossa personagem deixou-se levar pelo som e dançou, dançou. No meio houve gays do Vietname, como eles se apresentaram, a dançar à volta de Linda e a desafiá-la para uns shots. No meio daquela animação, havia um outro acontecimento a decorrer. Kaheng, o amigo local e certinho, que já deixava a cerveja falar e estava a dançar. A nossa personagem conta ter sorrido. Ele estava a divertir-se e havia miúdas a rodeá-lo.
- Afastei-me para apreciar o engate local – gracejou. Ele mirava-as de alto a baixo, elas sorriam-se. O ego macho foi aumentando e produzindo os movimentos sexy das coreografias pop. Uns movimentos da anca, ditos sensuais, um braço esticado e o outro atrás com a mão a rodar. Ainda lancei uma gargalha. Mas ele estava todo contente. Soltou a franga o menino certinho! Mais tarde disse-me:
- Ah, ainda sei dançar melhor, aquilo foi uma amostra.
A cultura pop não agrada à nossa personagem, por isso não ficou muito entusiasmada em ver mais do que aquilo. Contudo, houve uma surpresa naquela dança.
- Aqui a dança é baseada no movimento das mãos. Uma vez Kaheng disse-me que os ocidentais se mexiam muito a dançar. Naquela noite, ele esteve lá, naquilo que lhe dão a conhecer da vida ocidental. Mexeu-se muito.
Enquanto isto se passava, Wild Bill tinha encontrado uma esplanada, menos barulhenta, para beber umas cervejas e observar as pessoas – coisa que gosta de fazer.
Os amigos foram ao seu encontro.
No grupo estava também um americano hippie, oriundo da Virgina.
- Mais um queimado do cérebro pela cultura U.S.A. – comentou Linda.
Este jovem estava a deitar a asa a Linda. Kaheng segredou-lhe que ele a achava hot.
- Ele diz que te acha boa (em português), deves ser bonita no Ocidente.
- Jovem, o significado de tal adjectivo no nosso mundo, não significa beleza, mas sim que és boa para levar para a cama.
- A sério? – perguntou o amigo meio confuso.
Entretanto gera-se ali uma disputa de galos. O americano desafia Kaheng a beber finos “a penálti”. As saudades de uma branca confessadas e o álcool a falar mais alto - aí estavam os motivos para um desafio digno de machos... depois de um não.
Que comece o duelo. Linda foi chamada a júri.
- Kaheng bebemos este?
O fino estava a meio.
- Sim, fácil – responde o amigo  tranquilamente.
E desta forma, também ingeriu o líquido, numa levada. Do outro lado, o concorrente reclama e desafia a outro, desta vez cheio.
- Está bem, vamos a isto – continuando com serenidade e confiança.
O resultado foi o mesmo. O mesmo concorrente reivindica. E inventa mil e uma razões para a derrota. Um belo discurso à americana.
- Não há duas sem três. Por isso, paremos o desafio à terceira – desafia Linda o macho. Mais duas, por favor.
Entretanto discutem-se regras. Linda declara-as, o americano já derrotado diz:
- Lá está o europeu a pensar – declarou.
E assim Linda ficou a saber o que os americanos pensam dos europeus. Um povo que pensa.
 A terceira foi o aniquilar do pavão. Não tinha sido suficientemente macho para conquistar a fêmea.
A nossa personagem também aprendeu que estes jogos ainda se usam na hora do cortejo sexual do macho humano.
- Bem, resta-me ir para casa – constatou o derrotado de tão desafiante duelo.
- Kaheng, o segredo é embebedar o homem que te cobiça.
O amigo riu-se.
Linda seguiu viagem até ao último destino da noite, casa. No tuk tuk despediu-se de Wild Bill. Na hora da sua ida, passearam-se como nos primeiros dias em que se conheceram.
Um abraço forte foi deixado para trás. Uma admiração mútua a florescer.
- Admiro-te como admiro a minha filha. Parecem feitas da mesma fibra.
- Eu... quem me dera ter tido um pai tão porreiro como tu...
Wild Bill seguiu caminho até casa. A família espera-o. E ele vai cheio de histórias para contar.






O que andará a acontecer no Reino

Hoje houve chamada de emergência. Kaheng e Linda combinaram almoçar. Ele tinha uma folga por entre as intermináveis horas de vigia, que têm sido uma constante no pós eleições.
Encontram-se no sítio combinado para um almoço de domingo tardio e descansado. Kaheng estava constantemente a atender telefonemas. O último levou-o a levantar de repente e muito sério dizer:
- Tenho que ir... com um ar preocupado.
- Alguma confusão?
- Não, reunião de emergência.
Os tempos aqui estão tensos. Ainda se limita o acesso a Phnom Pehn. Os militares andam em treinos intensivos e duros.
- Temos andado a treinar muito. Hoje fizemos slide que no fim tinha um obstáculo que tínhamos de destruir, uma porta ou uma janela.
- Parece que estou a ouvir uma história de um filme de acção.
Manter as pessoas fora do perímetro da cidade, as tropas em sentido e a trabalhar o desempenho, tem deixado Linda pensativa.
- Não quero fazer qualquer juízo de valor sobre este tema, mas por vezes preocupa-me. Será prevenção ou acção? O que virá por aí?
O desejar poder deixa o ser humano desnorteado. Como se refere o filme “Senhores dos Anéis”, a espécie humana é mais vulnerável a tentações, por isso a mais fraca. Voltando à realidade, seja ela qual for, neste mundo é o que acontece. Homens sequiosos de serem Senhores e com uma ambição desmedida, pode levar ao render da bandeira branca.
Uma consciência de que uma trapalhada militar agora pode aniquilar um país que vive de turismo, pode ser considerada.
- As pessoas não devem ter vontade de visitar um país em conflito – opina Linda. Espero que haja essa consciência de ambos os lados. Há muito a perder. Esta gente vive de turistas.
A nossa personagem espera que seja este o raciocínio. Por outro lado, teme que toda a ambição descambe e a paz se vá de novo.
Phnom Pehn está a crescer. Não é uma cidade propriamente cosmopolita  mas é, apaixonante. Um terceiro mundo desconhecido, com pessoas afáveis e uma vida fácil de levar. A zona mais moderna é à beira rio – River Side – onde tudo turístico acontece. De visitas ao Monumento Nacional, ao Palácio Real, de restaurantes de comida ocidental, bares e discotecas. É uma zona mais cara, mas tudo ali acontece e a localização é deslumbrante. Óptima para uns passeios nocturnos.
Há um casino, há museus, há casas de ricos e guetos para pobres em qualquer esquina a contrastar e a mostrar do que é feito este país. Favelas sem morro. Há mercados bens conservados, à outros lamacentos e o cheiro não é agradável a um olfacto sensível. Há cortes de água e luz, há inundações e cheias em pouco tempo de chuva. Há gente que pouco sabe de boas maneiras, meninos que pedem na rua, a quem os irmãos fazem chorar para que a pena e a esmola consequente, seja grande. À noite à procura de turistas há meninas com coisas para vender e que fazem jogos a ver se o turista cai na lábia. O inglês é incrivelmente bom.
- Miúdos de rua, cujo inglês é melhor que alguns dos meus alunos. Até miúdos de cinco anos. Um inglês que enrola bem os viajantes. Ontem vi duas miúdas, uma de cinco, outra de doze, que tanto negociaram que venderam cerca de dez pulseiras.

A maioria das pessoas que aqui habitam são oriundas de províncias, de vidas rurais, que procuram na capital melhor vida, sempre para ajudar a família.
- Um local que ganhe mil dólares, já é rico, porque consegue ajudar toda a família, da aldeia à cidade.
Uma cidade cheia, onde as pessoas deixam espaços tranquilos e rodeados de natureza, pelo fumo de excessivos escapes e uma confusão de pessoas. O que é compreensível, a vida nas províncias é dura... mas sem dúvida mais saudável.
Para já cheia de pessoas. Quanto tempo falta para se saberem os resultados oficiais, não se sabe ainda. O que estão a negociar muito menos. As reacções, essas, podem ser inesperadas ou não.
No dia-a-dia Linda diz não sentir nada.
- Não me apercebo de nada. Também não entendo a língua... como estrangeiro o nosso acesso à informação é sempre mais restrito. Tudo o que te conto é de conversas que tenho, de considerações que troco com outras pessoas.

O amigo foi à pressa. A nossa personagem, essa ficou curiosa...

- O que se andará a passar no Reino?

quinta-feira, 15 de agosto de 2013

Uma mulher vista diferente

Outra cultura, outra forma de pensar. Uma outra maneira de levar a vida. Os olhos, os ouvidos e a cabeça de um ocidental tem duas hipóteses aqui. Em bom português, ou vão ou racham. Se forem, as hipóteses de apreciar o mundo são maiores, se racharem, a vida torna-se penosa.
Linda é mulher ocidental, a isso chamam mulher moderna. Seja lá o conceito que lhe queiram dar aqui o papel da mulher é diferente. Se num país do Ocidente é considerado do “tempo da avozinha” e já em algumas partes do globo, quase a roçar o ofensivo, aqui é jeito de ser.
Expliquemos. Linda faz perguntas desembocadas e quis saber como se relacionam os casais por aqui. Quem melhor para ser interrogado que o seu amigo nativo.
- Kahneg tens noiva, não tens?
- Sim, tenho.
- O que fazem juntos?
- Raramente estamos juntos. Às vezes vou visitá-la, levo-a a passear e por volta das 6 vou pô-la a casa. Sabes, as mulheres Khmers não saem, àquela hora estão em casa para fazer as lidas. Já sei que as mulheres ocidentais não são assim – rematou.
Linda sorriu.
- Mas e como é que têm intimidade?
- Não temos, as mulheres não têm sexo antes do casamento.
- As mulheres... hum... e os homens?
- Ah, os homens podem ter mais que uma namorada ou ir às ladies. Os meus amigos têm várias namoradas.
- Sabes, isso na minha cultura é mais desrespeitoso que ter sexo antes do casamento. Para além de ficar caro sustentar tanta mulher – esta Linda guardou para si.
Pois é, as meninas guardam-se, os homens desfrutam  O macho senta-se à volta de uma mesa, a beber cerveja, como qualquer humano. As fêmeas ficam em casa, já em aquecimento para o casamento. Levam-se a passear, dão-se os abraços nas voltas de mota e levam-se a casa. Sem mais toques, sem mais demandas. O macho excitado ou retrai ou dirige-se a uma qualquer KTV – karaoke com happy beggining, middle and ending – e liberta todo o macho que há em si.
O sexo também não é uma coisa que se aprecie por estas bandas.
- As mulheres não ligam. O homem faz, mas também não lhe dá grande importância.
- Não é uma vida aborrecida?
- Sim – bem entoado.
A nossa personagem vem de uma realidade onde o sexo inicia relações, onde o sexo é para todos e vale tudo, até umas valentes palmadas. Aqui o sexo é para uso de procriação e não para ser apreciado.
Voltando ainda ao papel da mulher. Um outro seu amigo, Lee, contou-lhe uma conversa com um condutor de um tuk-tuk.
- Sabe, tenho uma mulher e tinha duas namoradas, agora só uma.
- Então o que se passou?
- A terceira arranjou um outro namorado.
- Então é justo.
- Não – saiu em jeito de grito. Eu posso porque sou homem, ela é mulher, não pode. Não são mulheres de bem.
O mundo é machista e por estas terras, ainda se o vive de forma plena e intocável. A mulher é de bem, se sabe cozinhar, tratar do marido. Na nova geração já pode trabalhar, até porque a vida está cara e há mais cobiça pelo dinheiro. O homem é de bem se puser dinheiro em casa, lhe inseminar o óvulo e for às ladies, ocasionalmente. Um verdadeiro macho latino do sudoeste asiático. Só não foi apetrechado de bigode e pêlos no peito.
Isto são relações dentro da mesma nacionalidade. Quando a coisa mete estrangeiros que querem uma moça para cuidar deles, o cenário é o mesmo, muda o facto de ser uma relação em que os casais não têm um conversa em comum ou até mesmo, porque as mulheres não falam inglês. Interessa tratar deles, servir de tradutora e de gerente da casa.
- Deve haver umas com sorte, que o branco até é boa pessoa ou pode acontecer ele ser um inferno. Como assisti uma a fazer as contas da casa e a incluir a ida às ladies.
- Tinhas cem, gastaste sete no táxi e dez na lady, mas está a faltar troco. Onde está o resto? – questionava a mulher.
- Uma vez fomos jantar e Charlie embebedou-se, como gosta, pô-la de tradutora para uma menina que queria levar para viver lá em casa. O argumento era para a ajudar nas lidas da casa. Ela diz-lhe que quer ir para casa e ele pede-lhe dez dólares. Levantou-se, atirou-lhe com o dinheiro e disse-lhe com toda a raiva do mundo:
- You want money to fuck the girl. I go. Fuck you.
Linda confessou que não sabia o que fazer com toda aquela cena.
- O que fiz foi aproveitar a deixa e ir para casa. Só queria ir para casa.
A nossa personagem diz que a maneira como vêm a mulher ainda lhe custa a aceitar.
- Nem é pelo modo das relações, é por achar que a mulher é ainda um ser inferior e que a qualquer momento se pode transformar num objecto útil. Com dizia o amigo Wild Bill, ironicamente, falta a mulher, falta a empregada da casa.



domingo, 11 de agosto de 2013

Uma trapalhada eleitoral

A nossa personagem rejeita política e políticos, no entanto tem dentro de si algo que a faz vibrar quando se aborda o tema. No Cambodja com a inflamação dos acontecimentos, Linda tem-se sentido, quase em missão. Quer saber tudo, fala com locais e estrangeiros, pelo menos com aqueles com quem pode falar. Tenta entender como funciona a política neste lado do mundo.
No passado dia 28 de Julho o povo Khmer votou. Votou para continuar a ter paz. Mas, começou nas urnas o regresso de instabilidade, quando houve pessoas a não constar nas listas, outros tinham o seu nome mais que uma vez; ou pessoas a votar duas vezes e as autoridades a darem cartões de voto temporários. Tudo vale para o belo do“cacique”.  Prometeram-se protestos.
A agitação teve início. Protestos e algumas pedras atiradas por gente local aos vietnamitas que podem votar. A oposição estava atenta. O líder do Cambodja tem a fama de ser um fantoche manobrado pelo Vietname.
Havia tensão no ar, as pessoas estava agitadas e assustadas.  
- A polícia tinha lançado uns tiros para o ar para parar as reivindicação. Em terra de guerra é o suficiente para o pânico – comentou Linda.
Phom Pehn aliviou-se de gente e de trânsito. Ficou uma cidade tranquila, mas por dentro estava em convulsão. As pessoas estavam a ficar nas suas províncias, onde tinham ido votar. Linda ouviu que o objectivo é manter o maior número de pessoas fora da cidade.
Jackon o amigo de Linda estava em frenesim.
- Sabes, o meu vizinho disse-me para ir comprar mantimentos e fechar-me em casa. A minha namorada quer que vá ter com ela à província. Nem quer voltar sozinha, vai tentar regressar com escolta.
- Oh, outras pessoas disseram-me para me preparar para ir para Siem Reap. - E outras dizem está tudo bem.
Depois de todas as mensagens, a nossa personagem perguntou-lhe:
- E o que estás a fazer.
- Estou no mercado a fazer compras, que vou-me fechar em casa. Faço o que diz o meu vizinho.
E este era o cenário local.

A tensão continua. 

O Cambodja tem um líder há 28 anos e, segundo o que foi escrito em notícias, décadas de autoridade dão à pessoa em causa, poder sobre as eleições e sobre as instituições chave. A oposição reclama fraude massiva no processo eleitoral e ameaçou um boicote à porta da Assembleia Nacional, caso não seja levado a cabo uma investigação independente. A investigação começou. Estados Unidos, claro, que já tinha declarado o não apoio a este governo e a eleições fraudulentas. Aos USA junta-se a  União Europeia. Já estão ao serviço, numa dita independência.
O povo está num impasse. O Comité Eleitoral Nacional não revelou ainda os resultados oficiais. O partido no governo reclama a vitória . Pouco depois das urnas terem fechado, este anunciou ter ganho com 68 lugares a serem ocupados pelo Cambodian People’s Party (C.P.P.) e 55 pela oposição - Cambodia National Rescue Party (C.N.R.P.)
O Primeiro Ministro opõe-se a qualquer inquérito não supervisionado pela própria comissão eleitoral e ameaçou redistribuir os lugares do CPP pelos que  CNRP deixar vagos.
Quem paga é o povo, que de repente, vive tenso e na incerteza. A oposição já vai na terceira fase de protestos e diz não parar até que haja uma conclusão.
O potencial de manifestações em massa tem tendência a crescer. O governo viu-se obrigado a redobrar a segurança na capital. A Amnistia Internacional  apela às autoridades e aos  líderes políticos para prevenir a violência.
"As autoridades do Cambodja e de outros dirigentes políticos no país devem garantir que a tensão pós-eleitoral não expluda em violência. Muitos cambojanos quiseram mudança - os líderes políticos devem fazer tudo para garantir que esta seja alcançada pela via pacífica e com pleno respeito pelos direitos humanos" disse Isabelle Arradon, a Amnistia Internacional o Vice-director do Pacífico Asiático.
Diz-se que o povo pediu mudança, e de acordo com os resultados que saíram  nem tudo foi derrota. A oposição tem agora um dizer nas decisões, os lideres já não estão sozinhos.
No entanto, os partidos não param de se disputar, se Sam Rainsy – líder do CNRP diz que vai haver nova onda de protestos  Hun Sen, do CPP, retalia e diz que o seu partido pode realizar contra-manifestações.
Mais uma vez, o povo continua à deriva e intimidado. Do que se diz as pessoas têm cortes na Internet por cabo a certas horas, a base militar cortou o acesso. O líder actual promete aumentos nos salários dos funcionários públicos. E mais para o final do ano.

Mesmo quem quer oposição admite que não sabe se o Rainsy é a melhor opção ou teme pela retaliação. A água ainda agora começou a ferver. Espera-se que não seja atingido o ponto de ebulição. 
 - Também já ouvi quem diga que nada muda, seja qual for o nome do partido no governo... e quem está no poder já perpetuou a linha que se segue...

sexta-feira, 2 de agosto de 2013

Cristãos por um budista

Quanto mais mergulha na cultura Khmer, mais ondas de metros vai encontrando, que a fazem perceber, que vive num país tão diferente do seu.
Religião. É este o tema que debatemos juntas e mais uma vez, Linda tem o dom de me deixar em grandes considerações sobre a vida e tudo o que a rodeia.
Num país ocidental o fosso cultural não passa muito pela religião, se calhar. Numa Macau chinesa (é no feminino, devido ao seu nome oficial: Região Administrativa Especial de Macau) há celebrações da China, e de Portugal. Sentem-se os festejos católicos, com procissões, santos, e religiosamente se celebram as grandes datas, como Páscoa e Natal. Da China, vêm algumas tradições budistas. A parte religiosa é uma mistura de budismo, confucionismo e taoísmo, sendo estas últimas também consideradas filosofias. Fazendo assim, com que a religião na China não seja um consenso. Assim vive o chinês cheio de filosofias, e que caros leitores, às vezes apercebemo-nos que o mundo dito ocidentalizado devia adoptar.
Se o mundo asiático e o mundo ocidental se misturassem, o mundo talvez estivesse melhor, nomeadamente em valores. Não os valores da China em si, mas das suas filosofias.
Adiante.
Linda está a viver num país budista, com o qual se depara  sempre que sai à rua, no trabalho ou numa simples ida ao mercado.
- Todos os dias de manhã tenho crianças de mão em oração a dizer-me “Bom dia”. Pedem assim para ir beber água ou ir à casa-de-banho. São adoráveis.
Há respeito, há um idolatração do ser branco.
- Somos artistas pop, quase. Aqui não há aquela coisa do cinema, explicando a referência.
E há um conhecimento da religião que comanda o outro lado do mundo.
- Na vossa religião vai tudo para o inferno. Na nossa podemos fazer tudo – disse Kaheng a Linda.
É uma religião mais leve, sem dúvida. Nos olhos de um ocidental é tudo deslumbrante, por isso muitos que aqui visitam se convertem.
- Houve uma noite que comecei a ouvir os cânticos dos monges. Perguntei ao Kaheng e ele disse-me que tinha morrido alguém. Durou depois dias, de manhã à noite.  Termina com a queima do corpo. Ao terceiro dia ouvi uns sinos e uns cantares, fui à varanda e havia um cortejo onde todos estavam vestidos de branco.
Uma curiosidade: quando os monges estão nos seus cantares, apenas alguns os entendem,  visto que eles possuem uma língua própria.
- Talvez haja pessoas mais velhas que os entendam, mas os mais novos não – comentou o amigo.
Linda ficou a pensar naquilo do catolicismo e dos castigos. E Kaheng tinha a sua razão. A nossa personagem que gosta muito de fazer perguntas, às vezes com conteúdo, outras sem tento na língua – a estas chegaremos em próximos relatos – quis saber o que pensam os budistas dos católicos. Ora, Kaheng tem a ideia dos cristãos.
A história tem um enredo que recua aos tempos de universidade. Sem muito dinheiro para estudar na cidade, Kaheng viveu numa pagoda – local onde estão os monges – e para conseguir seguir os seus estudos, juntou-se a um grupo que os ensinava... eram missionários, do que pelo que Linda entendeu era espécie do Reino de Deus. Dessas muitas religiões que foram um sucesso na bolsa de valores.
- Prometeram muito, fizeram pouco – iniciou o seu testemunho em grande.
- E depois tínhamos que rezar. E juntavam-se todos para entrar numa espécie de transe e choro colectivo, às vezes, estavam uma hora a chorar. Eu não percebia aquilo e havia milagres – contou-lhe o amigo.
- A sala era pequena e quente, um dia estavamos todos lá enfiados dentro, outra vez, a chorar. Não havia espaço para mais niguém. Um calor que não se aguentava, transpirei tanto que as gotas de suor me caiam pela cara. O meu amigo cristão olhou para mim e tocou-me no ombro. Pensava que estava a chorar. Só me apeteceu rir. Loucos.
Havia também uma rapariga que agora é namorada do amigo de Linda, o Jackon. Personagem que foi missonário, andou por alguns países do mundo a ser voluntário, graças ao chorar.
Jackson é um americano todo desconcertado. Um esteriótipo bem ao estilo USA. A ele iremos mais à frente. Conheceu então a cristã do Cambodja, amiga de Kaheng. E a Linda fez-se luz sobre Jackon. O porquê de como ele é...
Agora a nossa personagem sempre que está com ele, imagina-o a chorar dentro de uma sala, completamente encaminhado.
Dias mais tarde, Kaheng e Linda estavam a almoçar numa tasca de rua, mesmo ali à beira estrada. Três mulheres aproximaram-se, uma pediu um donativo aos dois amigos, as outras duas estavam já de viola pronta e vozes afinadas para dar um show à escuteiro.
- São filipinas, não são Kaheng?
- Sim. Olha, são cristãos. Era isto.
Os dois riram-se.
Kaheng acabou por sair do choro. Um final feliz.
- Era o meu amigo, mas pedi-lhe desculpa e disse-lhe que era budista e que não ia mudar pelo que tinha assistido.
Em terra de budistas tudo é diferente. Do vestir ao pensar nada é igual. E se estamos no país deles, porque não aprender mais de como vivem as pessoas diferentes de nós? Em vez de tentar mudar, o mais sábio seria entender.
Ser budista aqui é ser gente, faz desta gente quem são e como seguem a vida. Tal como outras, o budismo tem várias ramificações. O budismo aqui, não é aquele que se pratica no Japão, por exemplo. No entanto, Kaheng não sabia que poderia haver outro busdismo que não o seu.

- Um ponto de vista de uma ocidental – rematou a nossa personagem.