quarta-feira, 20 de novembro de 2013

A refeição e os seus rituais

Tudo começou com uma discussão entre colegas. A hora de almoço de Linda é passada com colegas de trabalho a falar de coisas banais. Entre banalidades trocam-se impressões sobre cada uma das culturas que integram o grupo. Três nacionalidades americanas, cada uma com o seu sotaque e costumes, mostrando a diversidade e a dimensão dos Estados Unidos da América. De Minnesota e o seu falar arrastado e lento, a Nova Orleãs, de falar rápido, a Kentucky com o seu sotaque de “Old MacDonalds had a farm” ou um “get ou of my land” texano.
Todos estão cansados de saber que ninguém suporta os USA e a sua bandeirada no mundo. Alguns fogem de um país que já não é livre, outros fogem do país para serem livres. Com eles vem arrastada toda uma cultura pop americana, assumida pelo povo deste lado do mundo, como a cultura do branco. Um mundo sem problemas, com dinheiro a esbanjar e em que o que se deseja tem-se.
- Quem me dera ser essa gente branca... – desabafa Linda.
Voltando à diversidade do grupo. A Europa com quatro representantes. Países que se vão assemelhando com a convivência – França e Portugal, uma britânica e uma irlandesa. De Portugal vem o sangue latino, que ferve rápido e diz asneiras. De França vem a finesse, num tom relaxado do norte. A Irlanda mostra-se descontraída e sem preocupação.
A britânica, crescida maioritariamente na Austrália e no Cambodja mostra uma mistura de comportamentos – dos bons hábitos ao costume de viver aqui.

Entre troca de impressões surgiu a questão de como se colocavam os talheres após a refeição em cada um dos países. Há diferenças entre o pôr os talheres para dizer que se quer repetir ou que se terminou.
Se entre brancos a direcção dos talheres mostra que num mesmo continente se age de forma diferente, num outro continente, do outro lado do mundo, no mundo dos “amerelinhos e castanhinhos” come-se de forma diferente.
- Uma criança veio ter comigo e disse: “Sabe, na China não usam colher, já viu? Usam uns paus”. E riu-se muito.
No Cambodja come-se em pratos de sopa e use-se uma colher e às vezes um garfo para ajudar. Na China e no Japão come-se com pauzinhos e em taças, a colher tem outra forma.
Linda lembra-se de ouvir um japonês comentar, que quando começou a comer com faca e garfo não foi fácil e que se mostrava meio desajeitado até ao dia.
Na China e no Japão o acto de comer com os pauzinhos é significado de honra.
- Muitas pessoas não comem correctamente, a posição dos dedos está errada e mostra deselegância. Mostra ainda que a educação em casa não é das melhores – parafraseia Linda o japonês.
No Ocidente há também que saber comer de faca e garfo e por vezes com vários numa só refeição.
No momento da refeição parece haver todo um ritual, do pegar nos talhares ao dispô-los no prato a deixar uma mensagem. Há que haver elegância no mauseamento e que adequar às dietas.
A comida no parto também é composta de estética e conta a história de um povo.
Da China e do Japão vêm as proteínas cortadas em pequenos pedaços e o arroz ou noodles em taças - tudo para facilitar o acesso dos pauzinhos. A fartura dos pratos chineses mostram o gosto pelo se sentar à mesa e partilhar a comida.
No Cambodja grandes montes de arroz, pequenos pedaços de carne e ovo, fácil de manejar com a colher a levar grandes colheradas, o garfo ajuda a segurar o pequeno naco, o resto fazem os dentes. Conta a história de um povo que da miséria lhes resta o arroz, para comer até se ficar farto, que o resto escasseia.
- A avaliar pela magreza das vacas, é natural que não se comam grandes bifes – comenta a nossa personagem.
Do Ocidente chega a faca e o garfo precisamente para os grandes bifes e as batatas. O Ocidente é terra farta, de história e povos civilizados, que comem em restaurantes caros.
À primeira vista pode parecer um pormenor menor, mas na hora de comer em país que não é o seu, aprender a comer de forma local faz toda a diferença no processo de habituação.

- Habituação e conhecimento cultural. Uma vez, num jantar com um japonês  ajudei-o a cortar um bocado de peixe. Num de repente, leva o corpo para trás e dá-me um olhar de ofensa profunda. Os pauzinhos eram numa outra era o último contacto os restos mortais dos seus entes - daí não poderem ser tocados por  um outro qualquer par. 

segunda-feira, 7 de outubro de 2013

Staring at China

Linda desapareceu. Sumiu-se na sua solidão. Quando a reencontrei, tinha um brilho nos olhos, estava bem disposta.
- Acabei de voltar de férias. Como estás?
- Bem... Onde foste?
- Tens tempo para um café?
Uma pergunta que tinha implícito um contar de novas histórias. E eu estava curiosa, que tinha andado Linda George a fazer? O que é que lhe andava a passar pela cabeça?
- Que tens para contar?
- Ah ah ah!!! Está bem eu conto...
- Há momentos da minha existência que me pedem isolamento. Uns dias passados em casa, a dispensa com mantimentos para não ter que ver ninguém, nem o homem do supermercado. Nestes momentos pondero a vida. Penso, canso-me de pensar, aborreço-me a mim mesma... penso de novo e chego à conclusão que pensar não leva a lado nenhum, e ajo.
Linda confessou algum cansaço do Cambodja. Da vida solitária, ironicamente, como ela própria adverbiou, de uma rotina que a aborrece e de uma vida nocturna que não consome.
- Não penses que falo de saídas à noite, discotecas e copos. Gosto de festa, sim, mas gosto sobretudo das cidades à noite. O mundo acalma, as luzes dão cor e enfatizam a beleza do que nos rodeia e as pessoas descontraem.
Uma mulher branca sozinha tem que ter recato.
- Isto não é uma vila na Europa – advertiu.
A nossa personagem começou por contar a sua saturação por Phnom Penh. A insegurança, a forma de trabalhar, a falta de direitos humanos e a corrupção. Tudo isto gera confusão. Tudo isto num país que mantém Linda cada vez mais curiosa. O mau, a nossa personagem vê como interessante, e sem dúvida, uma experiência alucinante. Contudo, precisava de se distanciar.
- Precisa de sair, aproveitei aqui se celebrar o Pchum Ben, uma celebração aos antepassados e aos seus espíritos. Dura alguns dias, as pessoas levam comida às pagodas. Comida que vai alimentar bem os monges. É tempo de fartura e de respeito pela religião. 
- Adiante. Regressei à China.
Linda George começa a história da viagem.
- Não sei porque gosto tanto da China.
Voltou, esteve em casa, comeu todos os pratos a que tinha direito. Ficou a faltar a salada de batata japonesa, fez questão de frisar. Imagino que seja mesmo boa. Tomou banhos de água quente.
- O primeiro que tomei, sentia a água a queimar-me a pele, mas a sensação de água quente a correr pelo corpo era quase orgásmica, que não conseguia parar.
Esteve nos seus lugares, esteve em lugares novos. Passou a fronteira de Macau e entrou na China dos chineses e só dos chineses  Onde se fala mais mandarim que cantonense. Onde Linda se sente mais perdida, mas onde sorri sempre.
Desta vez, rumou a um festival rock na praia. Ali perto, em Zhuhai. Depois de longa espera – a fronteira está sempre cheia de gente, e por esta altura na China celebra-se a Semana Dourada, o dia do país, o aniversário da China como uma República Popular.
Os amigos do lado de Macau sem conseguir taxi ou autocarro até à zona da fronteira. Chineses e mais chineses cheios de sacos, como eles gostam. Cheirava a China. O fumo dos cigarros cheira diferente, é doce, enjoa, mas cheira, sem dúvida, a China.
Depois de uma longa espera, hora de enfrentar o trânsito e tentar encontrar um táxi até à praia.
- Legal ou ilegal? – pergunta Tom.
- Foi legal - disse Linda, rindo.
Uma multidão à volta e dentro do espaço. Os bilhetes estavam gostados... na bilheteira.
- Quando voltámos costas estavam já dois chineses a vender bilhetes. Legal ou ilegal? O que interessa é que entrámos.
Uma exposição de comidas, bebidas, brinquedos. Estrangeiros, chineses, famílias. Tudo a assistir a um concerto de rock numa praia algures na China.
- Adoro.
Como não pode deixar de acontecer Linda e Tom deram o seu show. Levantaram a poeira da areia dura e dançaram ao ponto de pôr chineses a saltar com eles.
- O mais incrível é que eles estão a divertir-se, mas não se mexem. Os que estavam perto do palco mantinham-se em pé e abanavam os braços. Os que viam os concertos pelo ecrã, estava ordeiramente sentados a “curtir”.
- Eles adoram sair e divertir-se, mas dançar não é com eles.
No meio de concertos de bandas chinesas, houve uma inglesa, com um estilo old school do punk rock, com cristas e tudo. Uns vídeos psicadélicos e letras a dizer para não se deixarem ser controlados. Um vocalista pouco habilidoso, que fala inglês e espera resposta do público, que teimava em não vir.
- O moço para quebrar o silêncio ia dizendo obrigado em mandarim e entoava Chiiiinaaaa...
A noite foi acabar com alguns elementos de duas das bandas participantes, num bar de música ao vivo, o primeiro na cidade. De referir que a China começa agora a interessar-se por cultura e por uma vida mais ocidentalizada. Aparentava ser um pequeno armazém restaurado com bom gosto. Os elementos das bandas juntaram-se e deram-nos uma jam session.
A noite já ia avançada e nada melhor do que ir a uma casa de massagens, ser massajado da cabeça aos pés e deixar-se embalar.
- Podemos tomar banho e dormir nas casas de massagens. Um final de noite perfeito.






sexta-feira, 6 de setembro de 2013

Memórias de um cantinho chinês

Agosto foi embora. Um mês que é sinónimo de férias e alvo de desejo no mundo ocidental, por isso. No mundo chinês é um mês, no qual se diz que não é boa altura para viajar ou fazer negócios. No querido mês de Agosto, nas tradições chinesas celebra-se o Festival dos Espíritos Esfomeados. A cultura chinesa vive próxima com os seus antepassados, que se vê na forma como celebram os seus mortos.
A 13 de Agosto os vivos pedem descanso para os espíritos. Neste período as almas vêm a este mundo de férias e têm comida de borla. Queima-se tudo o possa ser feito em papel, desde papelinhos coloridos, a dinheiro falso. Tudo o que se pense ser útil ao seu antepassado. E incenso, muito incenso. As ruas enchem de caixas metálicas que não param de arder e de pratos de comida fartos, com bebidas a condizer.
Na crença chinesa pensa-se que o que se faz aos antepassados, eventualmente, poderá repercutir-se em vida. Por isso, há que tratá-los bem, dando-lhes na morte o que eles precisam “no outro mundo”.
A comunidade chinesa está enraizada na cultura de muitos dos povos da Ásia e o Cambodja é, sem dúvidas um deles. Há uma mistura grande, desde cruzamentos genéticos de gerações, a comida com aspecto chinês e sabor khmer.
Assim sendo, no Cambodja celebrou-se o Festival dos Espíritos Famintos. Linda voltou à China e sentiu saudades.
- No caminho para o trabalho comecei a ver aqueles recipientes metálicos a fumegar, o cheiro de papel arder, os pedaços de cinza a dissolverem-se no ar e o acender de incenso - fizeram-me regressar à China. Senti casa...
O continente chinês é feito de tudo aquilo está à vista, mas na cabeça de Linda tem uma parte que apenas se pode sentir.
- Gosto de chineses. Quando estava em Macau, às vezes, só me apetecia bater-lhes, agora sinto falta deles – disse-me sorrindo.
Em Macau há um cantinho chinês, que conquistou a nossa personagem. Apesar de toda a rudeza do povo, a dedicação quando se tornam amigos, encobre tudo o que possa ser negativo. No filme de Linda George há personagens chinesas que não sabem kung fu, que conseguem dizer os “erres”, que sabem falar inglês e que têm sonhos iguais a toda a gente.
O povo chinês é mecanizado, não está programado para pensar. Está preparado para actuar, mas não para agir e muito menos reagir. Neste povo, tal como todos os outros, há chineses de mente aberta, que querem saber mais do mundo- os da China Continental são os mais curiosos. Na China há máfia, há pobreza, há muita riqueza e ostentação, há uma cultura rígida a seguir.
Linda conheceu chineses que transformam tudo isto, numa filosofia fácil de viver. A sua preparação para trabalhar, a vontade e o à-vontade em fazer negócios e o respeito pela sua cultura leva-os a cumprir todos os objectivos traçados, mas a curiosidade fá-los abrir a novos mundos. E todos ficam felizes.
A nossa personagem viajou até a uma vila da China, na província de Cantão. Uns dias de descanso num spa no meio de verde, levaram-na à vila da família de uma das amigas que a acompanhava. A recessão não podia ter sido melhor.
- Fui recebida pelas mulheres da família. O homem estava sentado numa cadeira feita de um tronco, a comandar uma rodada de chá. A mesa de madeira também, muito típica na China, feita para fazer o chá.
As mulheres encheram Linda de comida. Um dos pratos, não se lembra o nome, era um prato muito típico para pós parto. Famoso entre as mulheres, a cozedura é longa e o aspecto estranho. O sabor Linda descreve como indescritível.
- Lembro-me de ter uns ovos muito negros e um sabor que não sei se era avinagrado ou doce. Não sei dizer em palavras.
Apesar do mau sabor, o resto da comida era boa, acompanhada por um chá de boa casta. Depois de barriga cheia, Linda teve direito a uma visita à casa. O que é um direito, porque um chinês, regra geral, sequer convida para entrar.
- Senti-me perdida na China. Rodeada de locais, que conversavam, viam televisão... e eu ali no meio, a comer e a beber sem perceber nada do que estava a passar à minha volta.
Mais de uma ano depois a família ainda se lembra de Linda. A amiga disse-lhe que tinham perguntado por ela. A nossa personagem inflamou e suspirou.
- O meu cantinho chinês.



*A 5 de Outubro, comemora-se o Culto aos Antepassados ou Chung Yeung. Um dos mais importantes eventos no calendário chinês, é a altura em que as famílias se reúnem, subindo aos montes, depois de uma visita e de terem rezado junto às sepulturas dos seus antepassados.

Na Festa dos Espíritos Esfomeados e no Culto aos Antepassados ou mesmo o Festival Quingming - a 5 de Abril - a comunidade dedica-se aos mortos. 

sábado, 31 de agosto de 2013

O dizer adeus

Viajar, conhecer outras culturas e experimentar com elas estimula a nossa personagem. Tudo isto de andar em viagens parece idílico, contudo tem os seus espinhos. Tem um lado que não se vê, mas se sente... O dizer adeus.
Dizer adeus carrega a sua dor. As frequentes despedidas vão criando uma certa imunidade. Se alguém parte é porque o tem que fazer. O melhor é deixar esse alguém partir... com um sorriso.



Quando se vai andando de país em país, o caminho que traçamos é cruzado com o de outras gentes. Algumas não vale a pena sequer tentar, outras que se tornam amigas. E a essas é duro dizer aquele adeus.
Na vida de Linda já algumas pessoas que o peso do adeus a acompanha para todo o lado. Os amigos que vai fazendo vão indo e vindo, ficam, de certo, mas vão fazer as vidas longe.
Linda conheceu um irlandês, o Lee. A viver no Cambodja há cerca de dois anos, quis ajudar a nossa personagem a situar-se na cidade. A amizade foi crescendo.
Mas o tempo estava destinado a ser curto. Lee estaria de partida em dois meses. Decidiu trocar o Sudoeste Asiático pela fria Europa – Suécia.
Um amor fá-lo regressar ao Velho Continente. Linda diz adeus, mais uma vez. Ao único amigo digno de companhia.
- Se nos tivéssemos conhecido antes, tínhamos nos divertido bem mais -  disse Lee a Linda.
- Sei que tem que ser, mas confesso que me sinto triste. Vai-se embora a minha única companhia no Cambodja, o meu “mate” Vou guardar bons momentos.
As despedidas foram emocionantes para Linda. Trocaram-se elogios e agradecimentos e ambos guardaram consigo o desejo de um passo bem dado.
- Uma pessoa, no meio de tantas outras, mas que é boa. Conheci-a, fico feliz.
A admiração foi sendo construída. Talvez uma primeira desconfiança, cultural, de experiências. A convivência  levou-os a conhecerem-se e a admitir que ambas eram confiáveis.
Lee está de partida. Coisas vendidas, mala pronta. Uma última despedida com os amigos. Lee vai seguir um novo rumo, Linda começou o seu. Fica, abalada com mais um adeus.
- Uma amizade rápida, mas engraçada. Guardo a melhor impressão dos irlandeses.
Na noite de despedida Lee encontrou um velho vizinho da primeira guesthouse em que morou. Sorrisos e cumprimentos, um “catch up” do que se estava a passar em ambas as vidas. O amigo de Linda estava de sorriso aberto.
Na sua direcção vinham mais três amigas. Raparigas cambojanas, modernas e estudadas na Europa. Ao bom estilo do Sexo e a Cidade, versão Khmer não faltaram os cupcakes para a sobremesa e as fotografias para o facebook.
Um jantar, muitos risos e gargalhadas. Boa comida e boa disposição.  Assim, se despediu Lee do Cambodja. Com um sorriso nos lábios e uma saudade antecipada.




terça-feira, 27 de agosto de 2013

A ilha

Uma escapadela indevida para uma ilha deserta pareceu-lhe o programa ideal para carregar baterias, após três meses de alguma mudanças no rumo da sua vida.
De repente Linda George estava a preparar a mochila para ir até à província de Kep. Nas agências dizem que a viagem dura três horas, mas a condição das estradas fá-la durar o dobro do tempo.
O mais fácil é apanhar o autocarro no Central Market, estação principal. Um autocarro meio atabalhoado, mas o ar-condicionado funciona. As estradas que fazem o caminho até Kep são tortuosas, o que se vê da janela não é Phnom Pehn. A capital do país é uma bolha, que faz parecer uma terra em desenvolvimento. A poucos quilómetros do perímetro da cidade principal do reino, reinam guetos, mercados lamacento  gente pobre e suja.
- Lembro-me de ver uma senhora a vender acessórios de cabelo mesmo ao lado de um pedaço de lixeira deteriorada e coberta de insectos. Mais à frente a carne...
Nesta terra de encanto, nem tudo são rosas, a pobreza traz consigo pouca higiene, há gente que vive sem água.
Mas, o que se encontra no final faz deixar o que se viu, o que se sentiu e leva-nos a crer que esta terra tem a magia de um país que tenta sobreviver, a passo lento.



No Cambodja não há pressa, não há stress. E quanto mais saímos da bolha, mais lento fica o reino.
Uma terra de campos de arroz, que dão à paisagem tonalidades de verde, que de tão extensas se encontram com o azul do céu. Linda gosta de frisar que o Cambodja tem um céu magnífico.
- A cor, as formas que as nuvens formam. É lindo.
Nos quilómetros a percorrer é isso que se vê. O arroz a ser cultivado, por pessoas e animais. Uma ruralidade com um toque de charme, porque se está no Cambodja. Casas em bambu  madeira ou para os mais afortunados, em pedra, sempre acima do chão. Os animais vivem à solta, convivem com as pessoas. As vacas tentam encontrar comida, mas de certo que não devem ter muita energia, a magreza é extrema.
- Não admira que as refeições aqui não contenham muita carne. Esta gente não está habituada a fartura. O arroz é o alimento que há e que abunda, daí o arroz ser noventa por cento da alimentação da gente do Cambodja.
Vai anoitecendo. As estradas vão ficando cada vez mais escuras e não há iluminação artificial. De paragem em paragem, aquele autocarro vai deixando pessoas em locais cada vez mais remotos. Onde nada acontece. Um cenário tranquilo de um pós guerra. E por isso, esta gente vive feliz. A paz reina neste pequeno país. Um país que se estendia pela Tailândia e Vietname  Um país que foi “comido” por eles, geograficamente e economicamente. 
A chegada à província foi, então, já de noite. Desta vez, nada tinha sido planeado. Linda tinha apontado uns nomes de umas residências e o resto, era tentar lá chegar, esperando que o taxista soubesse.
Mas quando chegaram, Linda e o amigo Lee conheceram um francês, dono de uma guesthouse. A dormida estava resolvida. O primeiro passo estava dado.
A noite estava tranquila, tinha ficado para trás o barulho e a enchente da capital. Os sons nocturnos da natureza podiam-se ouvir. Uma pequena cidade à beira do mar. Ainda mais tranquila, porque esta altura é época baixa, por ser a estação da chuva.
A travessia para a ilha é feita de barco. Vinte a quarenta minutos, que parecem cinco quando se olha à volta e vê a paisagem que nos rodeia. mar e ilhas.





- A Tailândia está carregada de turistas, e os locais também. Está demasiado cotada no mercado. Aqui encontramos mais realidade. Eu gosto mais.
- Foi ideal. Poucos turistas e a ilha onde íamos estava praticamente deserta. Havia uma outra turista a dormir.
Poucos ali passam a noite, pelo menos pela altura – Agosto. A época alta é entre Novembro e Maio. Agora visitam, passam umas horas, mas quase ninguém fica para apreciar um dos mais belos pôr-do-sol, que Linda haverá visto. E poder ver uma noite sem luzes artificiais. Apenas a luz das estrelas e o preto da noite. Perto das nove o gerador da electricidade é desligado. É hora de recolher que o dia começa cedo... porque vale a pena ver amanhecer naquela ilha.
- Consegues imaginar um sítio onde nenhuma luz humana se avista? É ali. A noite é noite. É escura, mas guarda nos pequenos pontos de luz a beleza do céu.



Um pequeno pedaço de terra, com um areal pequeno, o mar mesmo ali à beira. Um jardim quase privado para quem pernoita.
- Uma paisagem idílica, bom marisco, cerveja fresca, um paraíso na terra.
Linda confessa que o mais belo naquela ilha é a pacatez, que te obriga a reduzir a pressa da cidade, a respirar e a relaxar.
- Parece uma ilha criada para a Alice no País das Maravilhas. Os bugalows preenchem o espaço verde de forma coquete, digamos assim.
Linda passou a noite numa casinha de madeira, com janelas azuis, um amok na varanda e uma flor alta e amarela, sempre à sua espera. O mar sente-se, o corpo deixa-se levar pela sonoridade de água calma, que embala.
- As cores do céu transformam-se a cada passagem do dia, e todas elas nos deixam em contemplação.
O sol estava tímido, mas entre ameaças de temporal e alguma chuva, espreitou e levou Linda e o amigo ao mar.
A nossa personagem há muito que não ia à praia. E mesmo não sendo uma fã incondicional, o local em si, a paisagem fazem-na sentir viva e activa.
- Estava mesmo a precisar disto. Sol, mar e boa comida... – comentou Linda com Lee.
- Foi uma boa ideia de última hora.
O tempo, infelizmente, foi curto.
Houve tempo ainda no regresso a terra, para um almoço à beira da praia e um mergulho enquanto se aguardava o autocarro. Ali à beira da estrada, onde os carros passam, as pessoas vendem e descansam, onde os autocarros chegam e vão. Um sol que convidava, um mar que exigia. Um último mergulho antes de voltar à confusão da cidade e à realidade da vida na bolha.



- E não importa Linda, somos brancos. Parecemos deuses a sair do mar – gerou uma gargalhada.
Linda lavou a alma. Lee despediu-se do Cambodja. Um reino difícil de entender, mas apaixonante de se conhecer.



segunda-feira, 19 de agosto de 2013

O Oriente pelo Ocidente

- Está na hora de me rir com o assunto!
Linda decidiu abrir um pouco do seu passado. No pouco que conheço desta nossa personagem, claro é, que ela resolve os obstáculos que a vida lhe põe, a rir-se. Sempre que algo de mal lhe acontece, ela solta uma gargalhada sentida e pára para olhar o estrago. A cabeça começa a fervilhar de divagações, que nem sempre fazem sentido a quem a ouve. O enredo talvez esteja completo, mas apenas dentro dela. Ela desabafa umas palavras e como sabe que não lhe seguem o raciocínio, age.
Quando o faz de forma impulsiva mete os pés pelas mãos. A ressaca é sentir-se má pessoa. Quando planeia as coisas vão correndo, mesmo que a um ritmo lento.
Um resumo de um auto-retrato, que antecedeu a viagem de Linda à China.
- Não tive tempo para parar e pensar. Fui levando as coisas, fui tentando sobreviver em terras de chinês. Lá tudo o tempo é mais rápido, tem outro ritmo. Uma coisa acelerada.
Esta foi a primeira paragem de Linda na Ásia. Situada na província de Cantão, a Região Administrativa Especial de Macau – RAEM – foi a sua casa durante cerca de dois anos.
Chegou de mochila às costas àquela terra, prometida de trabalho e vida em tons de dourado, como apraz o bom chinês.
- Ninguém dá nada a ninguém, senão deres em troca a alguém... E passado três meses estava, de novo, de mochila às costas, sem casa e sem dinheiro. Mas estava na China.
Em três meses Linda confessou ter vivido e ouvido coisas estranhas, meio ofensivas. Do chefe lhe dizer para usar o corpo para ter fontes.
- Sabes quando te fazem um comentário daqueles que te dá para ficar meio burra? Olhei-me de alto abaixo e ainda perguntei, meio boquiaberta, qual corpo.
- Esse que tens? – veio a confirmação do que tinha ouvido.
- Ela nem sabe o que tem – comentou o chefe para o lado.
A nossa personagem soltou a sua gargalhada e deixou cair em saco roto. O senhor estava a recebê-la como uma rainha, a levá-la a sítios caros e portugueses. De lembrar, que Macau foi antes governada sobre haste portuguesa. Ao terceiro mês o trabalho terminou. A razão foi:
- És mona. Mas do que li, há muita gente que escreve livros e coisas assim. Vou-te enviar para de volta para o teu país.
- Não quero.                        
- Vais.
- Não.
E Linda ficou...
- Hum, interessante. Vai a ver não usei o corpo da forma pretendida! – pensou mais tarde.
Nas ruas pequenas de Macau Linda encontrou um rapaz que tinha conhecido nos tempos da faculdade. Ele tinha um quarto vago e Linda um tecto.
E mais uma vez, ninguém dá nada a ninguém.
O homem estrangeiro chega à Ásia e parece ficar a sofrer de “febre amarela”. Ter mulheres asiáticas na cama, o sentir-se macho superior por ser branco e ter dinheiro  o entrar numa competição consigo, a ver quem “papa mais gajas”, deixa as feromonas masculinas ao rubro. Tudo o que é mulher é um objecto a ter na cama.
A casa era então, um entre e sai de filipinas, indonésias e chinesas. Umas sérias, outras amantizadas e meninas para ganhar um extra, porque na maioria são empregadas de limpeza – as filipinas e indonésias. As tácticas de engate desta espécie era de rir.
- Hello! Sou dos Serviços de Migração e posso ajudar-te com o visa.
- Hello! Sou professor universitário e cheguei a Macau há uns dias.
- Cheguei a passar por irmã dele. E elas caiam. Ele tinha um nome artístico, era de várias nacionalidades e profissões.
Estas eram dirigidas às meninas mais carentes, que acreditam numa qualquer balela e acreditam que um homem rico as vai salvar.
- Elas querem carinho e  atenção e é isso que quero dar -  disse um outro amigo.
Às vezes é negociado.
- Dou-te sexo e comida, tu limpas-me a casa.
Naquela casa havia de tudo. Ameaças de chulos à porta, orgias e uma certa violência psicológica. Cansada daquilo, houve uma noite que Linda, literalmente fugiu. Pediu a um amigo que a ajudasse. Em intantes desceu cinco andares com os seus pertences e nunca mais voltou àquela casa.
- Até passar na rua me custava. Ficava ansiosa e com receio de ver aquele louco.
Saltando entre casa de amigos que foi fazendo, a nossa personagem encontrou o seu canto.
- Num ano mudei sete vezes de casa. Estava exausta, nem queria acreditar que finalmente tinha paz.
O trabalho esse foi sendo esporádico, part-time, meio freelancer... até que voltou à redacção de um jornal a tempo inteiro.
Tudo parecia tranquilo. O director apreciava a sua escrita, mas entre bebedeiras e ressacas, pouco lá punha os pés. Um dia pôs e decidiu criar uma coluna de opinião, mas anónima.
A nossa personagem que gosta sempre dizer umas coisas, entusiasmou-se e não foi simpática com a comunidade dos antigos, acham eles, colonos.
- Entretanto vou fazendo bons trabalhos, inclusive capa de revista do suplemento cultural, que nem era escrita pelos jornalistas da redacção. Como profissional que gosta do que faz, fiquei orgulhosa.
- Numa outra vez, passando para o gabinete o director comentou que o meu antigo chefe lhe andava a ligar.
Linda tinha férias marcadas, e já não voltou.
- Gosto do que escreves e não queria fazer isto, mas tem que ser – não voltes.
- A cara dele não estava convencida do que estava a fazer. Artigos de opinião mal recebidos, telefonemas e uma cunha a meter... – guardei para mim.
- Parei para pensar e olhar à minha volta. Então estava eu na China a aturar as loucuras de arrogâncias de quem não é nada no seu país, e aqui, continuam incompetentes, mas têm cargo e dinheiro e acham que têm poder sobre todos?
Soltou-se uma grande gargalhada  Estava na hora de ser uma verdadeira moça de mochila às costas, chegada a um país da China. E esta cultura abriu-se para ela, como nem a ocidental não o fez.

Foi nesse lado chinês de Macau que a nossa personagem se encontrou e que aprendeu a amar aquela região tão especial, que agora lhe ensina uma palavra nova em português - saudade... pela cultura chinesa. 

domingo, 18 de agosto de 2013

Música, álcool e pavões

Uma saída à noite na capital, na sua maioria combina com música pop, da mais comercial que anda por aí. Aqui, desde miúdos a graúdos vive-se uma cultura do, agora tão afamado K-POP, Korean Pop. Que toca Gangman Style em coreano e Khmer, há uma outra que é Gentleman, que tem uma relação qualquer com estilo anterior. Linda não percebeu se é outra música ou o nome do dito artista. E claro, os grandiosos hits americanos.
- Os meus miúdos vivem naquilo. É o que cantam e dançam. Na escola às sextas-feiras de manhã é dia de música e de dançar e é esta a música que passa. Os miúdos ficam loucos, excitados e todos dançam numa coreografia que parece ensaiada. Os movimentos estão lá todos.
- Fico estupefacta, confesso. Como é possível darem isto a ouvir a miúdos de cinco anos. Noutro dia tive um aluno a dizer-me:
- Teacher... you are a sexy girl!
- Sabes o que significa isso?
- Sei – respondeu confiante.
- Explica.
- Oh, não sei...
Apesar da nossa personagem querer ser correcta e dizer que não devia dizer aquilo.
- No máximo, na idade dele, as meninas são bonitas. Disse-me está bem. Logo a seguir vira-se para uma colega que estava sem uniforme:
- Hey, today you are sexy girl!
Linda conta que a pequena ficou deslumbrada com o elogio.
- Podem não saber explicar, mas o sentido está lá – comenta Linda.
Isto está em qualquer geração. Os adolescentes vibram, os jovens e adultos partilham a vibração e a loucura.

Uma noite inesperada

Linda foi convidada para um serão de comida mexicana, cerveja e boa companhia.
O seu amigo Wild Bill regressava aos Estados Unidos dali a dois dias. Uma espécie de “até já”, que Bill lhe confessou levar no coração. Um americano do Texas, um cowboy dos seus 65 anos, uma história de vida, que o levou à guerra no Vietname, ao volante de aviões e a viagens pelo mundo. Agora reformado, deixou a família a cuidar do seu “aligator´s ranch” e anda a curtir a vida, literalmente. Um homem com uma abertura de mente, rara e cada vez mais lúcida. Tem a idade de um jovem experiente na direcção que dá à vida.
Uma noitada com amigos, boa conversa e muita cerveja. Bill estava pronto para ser maroto, como gosta de dizer.
Depois do momento mexicano, uma voltinha pelo Night Market, para digerir e aliviar a alegria da cerveja e comprar umas lembranças.
- Aquelas tretas que se compram para se levar à família para mostrar que estivemos lá – diz a nossa personagem sorrindo-se.
O rumo a seguir foi escolhido pelo Tony, um outro amigo local, que geralmente acompanha Bill.
- Fomos até ao outro lado da ponte, à Ilha do Diamante, como lhe chamam. Há uma espécie de parque de diversões à beira rio, ideal para casais apaixonados e cerveja barata para os mais festeiros.
O grupo de Linda é danado para a brincadeira e ainda se beberam algumas jarras. Já tudo alegre, Tony diz ter que regressar à base. Assim que o militar arranca, Kaheng liga a dizer que acabou uma missão e está livre naquela noite.
Trocam-se os turnos, e agora é a vez de Kaheng guiar os amigos ocidentais que queiram tanto dar um passinho de dança.
A noite bem bebida estava ao rubro. O amigo levou-os a uma discoteca no River Side. Linda já estava à espera de uma música qualquer da moda, mas que talvez a leveza de espírito a tornasse suportável. Qual não foi o seu espanto, a música era boa. Uma mulher Dj a passar um som com boa vibração. A nossa personagem deixou-se levar pelo som e dançou, dançou. No meio houve gays do Vietname, como eles se apresentaram, a dançar à volta de Linda e a desafiá-la para uns shots. No meio daquela animação, havia um outro acontecimento a decorrer. Kaheng, o amigo local e certinho, que já deixava a cerveja falar e estava a dançar. A nossa personagem conta ter sorrido. Ele estava a divertir-se e havia miúdas a rodeá-lo.
- Afastei-me para apreciar o engate local – gracejou. Ele mirava-as de alto a baixo, elas sorriam-se. O ego macho foi aumentando e produzindo os movimentos sexy das coreografias pop. Uns movimentos da anca, ditos sensuais, um braço esticado e o outro atrás com a mão a rodar. Ainda lancei uma gargalha. Mas ele estava todo contente. Soltou a franga o menino certinho! Mais tarde disse-me:
- Ah, ainda sei dançar melhor, aquilo foi uma amostra.
A cultura pop não agrada à nossa personagem, por isso não ficou muito entusiasmada em ver mais do que aquilo. Contudo, houve uma surpresa naquela dança.
- Aqui a dança é baseada no movimento das mãos. Uma vez Kaheng disse-me que os ocidentais se mexiam muito a dançar. Naquela noite, ele esteve lá, naquilo que lhe dão a conhecer da vida ocidental. Mexeu-se muito.
Enquanto isto se passava, Wild Bill tinha encontrado uma esplanada, menos barulhenta, para beber umas cervejas e observar as pessoas – coisa que gosta de fazer.
Os amigos foram ao seu encontro.
No grupo estava também um americano hippie, oriundo da Virgina.
- Mais um queimado do cérebro pela cultura U.S.A. – comentou Linda.
Este jovem estava a deitar a asa a Linda. Kaheng segredou-lhe que ele a achava hot.
- Ele diz que te acha boa (em português), deves ser bonita no Ocidente.
- Jovem, o significado de tal adjectivo no nosso mundo, não significa beleza, mas sim que és boa para levar para a cama.
- A sério? – perguntou o amigo meio confuso.
Entretanto gera-se ali uma disputa de galos. O americano desafia Kaheng a beber finos “a penálti”. As saudades de uma branca confessadas e o álcool a falar mais alto - aí estavam os motivos para um desafio digno de machos... depois de um não.
Que comece o duelo. Linda foi chamada a júri.
- Kaheng bebemos este?
O fino estava a meio.
- Sim, fácil – responde o amigo  tranquilamente.
E desta forma, também ingeriu o líquido, numa levada. Do outro lado, o concorrente reclama e desafia a outro, desta vez cheio.
- Está bem, vamos a isto – continuando com serenidade e confiança.
O resultado foi o mesmo. O mesmo concorrente reivindica. E inventa mil e uma razões para a derrota. Um belo discurso à americana.
- Não há duas sem três. Por isso, paremos o desafio à terceira – desafia Linda o macho. Mais duas, por favor.
Entretanto discutem-se regras. Linda declara-as, o americano já derrotado diz:
- Lá está o europeu a pensar – declarou.
E assim Linda ficou a saber o que os americanos pensam dos europeus. Um povo que pensa.
 A terceira foi o aniquilar do pavão. Não tinha sido suficientemente macho para conquistar a fêmea.
A nossa personagem também aprendeu que estes jogos ainda se usam na hora do cortejo sexual do macho humano.
- Bem, resta-me ir para casa – constatou o derrotado de tão desafiante duelo.
- Kaheng, o segredo é embebedar o homem que te cobiça.
O amigo riu-se.
Linda seguiu viagem até ao último destino da noite, casa. No tuk tuk despediu-se de Wild Bill. Na hora da sua ida, passearam-se como nos primeiros dias em que se conheceram.
Um abraço forte foi deixado para trás. Uma admiração mútua a florescer.
- Admiro-te como admiro a minha filha. Parecem feitas da mesma fibra.
- Eu... quem me dera ter tido um pai tão porreiro como tu...
Wild Bill seguiu caminho até casa. A família espera-o. E ele vai cheio de histórias para contar.






O que andará a acontecer no Reino

Hoje houve chamada de emergência. Kaheng e Linda combinaram almoçar. Ele tinha uma folga por entre as intermináveis horas de vigia, que têm sido uma constante no pós eleições.
Encontram-se no sítio combinado para um almoço de domingo tardio e descansado. Kaheng estava constantemente a atender telefonemas. O último levou-o a levantar de repente e muito sério dizer:
- Tenho que ir... com um ar preocupado.
- Alguma confusão?
- Não, reunião de emergência.
Os tempos aqui estão tensos. Ainda se limita o acesso a Phnom Pehn. Os militares andam em treinos intensivos e duros.
- Temos andado a treinar muito. Hoje fizemos slide que no fim tinha um obstáculo que tínhamos de destruir, uma porta ou uma janela.
- Parece que estou a ouvir uma história de um filme de acção.
Manter as pessoas fora do perímetro da cidade, as tropas em sentido e a trabalhar o desempenho, tem deixado Linda pensativa.
- Não quero fazer qualquer juízo de valor sobre este tema, mas por vezes preocupa-me. Será prevenção ou acção? O que virá por aí?
O desejar poder deixa o ser humano desnorteado. Como se refere o filme “Senhores dos Anéis”, a espécie humana é mais vulnerável a tentações, por isso a mais fraca. Voltando à realidade, seja ela qual for, neste mundo é o que acontece. Homens sequiosos de serem Senhores e com uma ambição desmedida, pode levar ao render da bandeira branca.
Uma consciência de que uma trapalhada militar agora pode aniquilar um país que vive de turismo, pode ser considerada.
- As pessoas não devem ter vontade de visitar um país em conflito – opina Linda. Espero que haja essa consciência de ambos os lados. Há muito a perder. Esta gente vive de turistas.
A nossa personagem espera que seja este o raciocínio. Por outro lado, teme que toda a ambição descambe e a paz se vá de novo.
Phnom Pehn está a crescer. Não é uma cidade propriamente cosmopolita  mas é, apaixonante. Um terceiro mundo desconhecido, com pessoas afáveis e uma vida fácil de levar. A zona mais moderna é à beira rio – River Side – onde tudo turístico acontece. De visitas ao Monumento Nacional, ao Palácio Real, de restaurantes de comida ocidental, bares e discotecas. É uma zona mais cara, mas tudo ali acontece e a localização é deslumbrante. Óptima para uns passeios nocturnos.
Há um casino, há museus, há casas de ricos e guetos para pobres em qualquer esquina a contrastar e a mostrar do que é feito este país. Favelas sem morro. Há mercados bens conservados, à outros lamacentos e o cheiro não é agradável a um olfacto sensível. Há cortes de água e luz, há inundações e cheias em pouco tempo de chuva. Há gente que pouco sabe de boas maneiras, meninos que pedem na rua, a quem os irmãos fazem chorar para que a pena e a esmola consequente, seja grande. À noite à procura de turistas há meninas com coisas para vender e que fazem jogos a ver se o turista cai na lábia. O inglês é incrivelmente bom.
- Miúdos de rua, cujo inglês é melhor que alguns dos meus alunos. Até miúdos de cinco anos. Um inglês que enrola bem os viajantes. Ontem vi duas miúdas, uma de cinco, outra de doze, que tanto negociaram que venderam cerca de dez pulseiras.

A maioria das pessoas que aqui habitam são oriundas de províncias, de vidas rurais, que procuram na capital melhor vida, sempre para ajudar a família.
- Um local que ganhe mil dólares, já é rico, porque consegue ajudar toda a família, da aldeia à cidade.
Uma cidade cheia, onde as pessoas deixam espaços tranquilos e rodeados de natureza, pelo fumo de excessivos escapes e uma confusão de pessoas. O que é compreensível, a vida nas províncias é dura... mas sem dúvida mais saudável.
Para já cheia de pessoas. Quanto tempo falta para se saberem os resultados oficiais, não se sabe ainda. O que estão a negociar muito menos. As reacções, essas, podem ser inesperadas ou não.
No dia-a-dia Linda diz não sentir nada.
- Não me apercebo de nada. Também não entendo a língua... como estrangeiro o nosso acesso à informação é sempre mais restrito. Tudo o que te conto é de conversas que tenho, de considerações que troco com outras pessoas.

O amigo foi à pressa. A nossa personagem, essa ficou curiosa...

- O que se andará a passar no Reino?