sexta-feira, 19 de julho de 2013

Aquela que matou o gato


Linda é fã de Kusturica e um dos seus filmes preferidos é, claro, “Gato Branco, Gato Preto”. Mas, nunca lhe tinha passado pela cabeça, que um dia um pequeno e magro gato preto se atravessasse na sua vida, sem que ela se desse conta.
O gato era pequenino, ainda bebé e magro, ao jeito de um gato de ciganos – sem querer criar preconceitos – um gato ao jeito dos filmes de Emir, por assim dizer. E era preto.
Linda George estava há três ou quatro dias no Cambodja, a viver em casa de um família meio local, meio estrangeira. Clarifiquemos. O dito marido era inglês, de Manchester, cerca de 50 anos e de seu nome Charlie. Estava a viver em Phnom Pehn há cerca de dois anos e estava “casado” com uma rapariga local, dos seus 30 e poucos anos. Como bom estrangeiro que se preze e, sejamos sinceros, para que consiga sobreviver aqui, tem que arranjar uma moça local, fazer-lhe um filho e sustentá-la.
Por sua vez, ela tem que tratar das finanças da casa – aqui os maridos entregam todo o seu salário à mulher para que ela o gira – e das suas lidas. Ele chamava-lhe a Ministra das Finanças.
- Ela é Ministra das Finanças. Aliás, aqui as mulheres todas são.Elas é que mandam.
Talvez não, mas a isto iremos mais tarde.
Os papéis referentes ao casal, acima referidas, são decididas pela vila, de onde a mulher é oriunda. A escolha da rapariga  é feita pelo monge da  e depois a vila junta-se para estabelecer o contrato. Pelo menos, assim ele conta terem-se conhecido. Para Linda a história mais coerente, é aquela que é mais frequente. Num qualquer, uma qualquer menina.
Independentemente dos contornos, o dinheiro, da roupa e da comida para o marido, sem dúvida que tratava. Já as lidas da casa, deviam aborrecê-la, que é sempre melhor tirar um sestinha depois de um bom prato de arroz. A sujidade não incomoda. E não são sestinhas à espanhola que ela tirava, aquilo era uma paragem de se estender por algumas horas.
Adiante. Havia também um filho. Com cerca de dois anos, o sexto dele, o segundo dela. Do casal o único, e único na casa. De vez em quando haviam umas crianças, familiares da mulher. E claro, a casa recebia também a visita da matriarca, que vinha da província pôr ordem às coisas.
E o destinado gato preto e sua progenitora.
O menino chamava-se Hat, devia ter cerca de 5 anos. Tinha um tom de pele muito escura e uns olhos grandes e redondos, bem escuros e com um brilho doce. Linda apaixonou-se pela aquela criança, que aos poucos lhe foi ganhando confiança e lá iam saindo uns sorrisos tímidos de menino. Vivia na província, dormia em estacas de bambu e andava por ali.
A menina era mais velha, tinha treze. Um olhar doce, era bonita e tinha um sorriso iluminado. Estava na casa para ajudar nas lidas, ou fazê-las todas. De manhã logo se apressava a levar um cafezinho acabado de fazer. Queria falar com Linda, mas não conseguia fazer-se entender, então sorria...
A matriarca, uma mulher magra, de cabelo curto e grisalho. A cara envelhecida pelos 60 anos de vida dura. Contudo, tinha ar de líder, e segundo Linda comentou, era uma personalidade forte na vila.
Mãe solteira de três filhos. Um marido chinês de que nada se sabe, décadas de luta sozinha. Não conseguiu levar os filhos à escola, mas uma trabalha, a outra está casada com um branco e o filho toma conta dela, vive na vila e tem a sua família, como bom homem. Seguindo os traços culturais desta parte do mundo, tudo seguiu pelo melhor caminho.
- Parecia-me uma mulher de armas. Era educada e confiante. Sem problemas em lidar com estrangeiros.
E finalmente, os tão fadados gatos.
Uma manhã Linda acorda, dirigindo-se à casa-de-banho, quando se deparou com o pequeno gato preto deitado, quase camuflado pelo tapete, também ele escuro.
- Segui o meu caminho, achei que estava a dormir. Num sítio estranho, sem dúvida e meio inerte, mas era um gato e deixei-o em paz. Para mim estava a fazer coisas de gato.
Horas mais tarde o homem da casa repara no gato e pega-o, cabia-lhe na mão e estava mole, literalmente mole, parecia que não tinha ossos.
- Está doente, vai morrer – disse Charlie.
E sim, o destino daquele gato já estava traçado. Antes do seu triste fado, foi alimentado com leite. A mãe ao seu lado, a velar o seu pequeno e jovem enfermo.
A noite passou e a manhã seguinte teve um início fatídico  e deveras estranho. O pequeno gato preto estava morto, tinha-lhe sido decepada a cabeça e uma perna.
Linda quando ouviu tal dizer não teve reacção.
- Pensava que não tinha ouvido bem, até que me mostrarem um saco de plástico com os restos mortais do gato. Fucking freak, é como descrevo.
Um choque, um acontecimento estranho, mas por esta terra fora há toda uma crença em espíritos e possessões. Assim sendo, há que rumar à vila e falar com o monge.
- Ele sabe tudo, vai dizer quem matou o gato e o que se passou – disse Charlie.
Até aqui tudo bem. Mais umas horas depois Charlie diz a Linda, que suspeitam que ela matou o gato. Charlie, era um homem que delirava com guerra e militarização – e, sem dúvida obsessivo e controlador.
- Temos que pensar em três coisas: motivo, oportunidade, e porquê. Motivo, gatos pretos são má sorte em algumas culturas. Oportunidade porque éramos os únicos na casa e porquê, porque as pessoas são más.
Tudo aquilo, numa consciência tranquila parece um pouco demais. Mas, sem dúvida, que foi um episódio aberrante. Da vila não veio a resposta de quem matou, só que a casa tinha sido construída por cimas de cadáveres e havia uma menina que rondava a casa. Uma menina que podia ter possuído a menina de carne e osso. Esta foi, de imediato, recambiada para a vila.
- Temos que ver se ela tem algum problema e lá pode ser tratada pelos mongues.
Mas, a mulher da casa dizia ter certezas que tinha sido Linda a autora do acto fatal. Linda veio a saber mais tarde. Não gostou de saber e sentiu-se ofendida. Charlie com as suas conversas, pediu-lhe desculpa pela mulher.
- Pediu desculpa e tal. Mas o melhor veio, quando ele me disse que o facto de eu ter uma bruxa tatuada, era um indicio de que eu fazia magia negra. Só não me ri na cara dele, porque como me chama o Jackson, sou a Miss Good Manners, mas vontade não me faltou.
- Uma terra onde a magia negra e mexer com o outro mundo é prática comum, eu é que tinha morto o gato, por causa de uma tatuagem feita em tempos de juventude inconsciente  Nunca antes visto -  e solta uma gargalhada.
O mistério do pequeno gato preto nunca foi totalmente desvendado. Um mês mais tarde, a menina volta à casa, Linda sai, a saber que na cabeça da mulher, ela vai ser sempre aquela que matou o gato.