domingo, 29 de agosto de 2010

Aníbal e companhia um grupo de trabalhadores das obras atípico

Eles são homens íntegros, honestos, trabalhadores e sim, sensíveis. Vamos então conhecer Joaquim, Alfredo, Jorge, Arménio, Esdrúbal e Aníbal. Vale a pena.

D. Maria, a patroa, tem a casa em obras – quem nunca teve?-, e está prestes a sair de casa. Precisa informar Joaquim, um dos trolhas, desse mesmo facto.

D. Maria: Joaquim, Joaquim?
Joaquim: Eu sou talvez
aquele que procuras, e as minhas dúvidas a tua voz
chamando do fundo do meu coração.
Diga lá, patroa.
D. Maria: Era só para avisar que eu vou agora às compras. A minha filha Adelaide está em casa com uma amiga, por isso se precisarem de alguma coisa, disponham.

Joaquim acena levemente com a cabeça e voltando-se para Alfredo, seu colega de trabalho, pergunta-lhe: Então, Alfredo, o outro saco de cimento?
A resposta de Alfredo: Não trago nada e não acharei nada.
Tenho o cansaço antecipado do que não acharei,
E a saudade que sinto não é nem do passado nem do futuro.
O Jorge é que deve saber onde é que eles estão.

Alfredo, virando-se para Jorge: “Sabes onde está o cim…’tás bem, pá? ‘Tás assim um bocado falta de cor…
Responde Jorge: Não sei que mistério
Prende meu coração ao dia de hoje.
Tanto que me parece
Que estou ausente da vida
E apenas real nesta paisagem.
Deve ter sido alguma coisa que eu comi, num sei.

Entretanto, a filha da patroa, Adelaide, e a amiga, descem até à garagem, à procura de duas bebidas. Aníbal, sem mais delongas, atira-lhes muito sentidamente (qual “Eh boa!”, “Comia-te toda!”e “Ai se eu não fosse casado!” qual quê! Aníbal vai mais além, como só um trolha sabe ir):

Amo-te muito, meu amor, e tanto
que, ao ter-te, amo-te mais, e mais ainda
depois de ter-te, meu amor. Não finda
com o próprio amor o amor do teu encanto.

Alfredo grita por Aníbal: Ó Aníbal, ó pá!
Aníbal interrompe por momentos o seu soneto:
- Que é? Já bou, carago! Já bai!
Prossegue:

Que encanto é o teu? Se continua enquanto
Sofro a traição dos que, viscosos, prendem,
Por uma paz da guerra a que se vendem,
A pura liberdade do meu canto,

Um cântico da terra e do seu povo,
Nesta invenção da humanidade inteira
Que a cada instante há que inventar de novo,

Tão quase é coisa ou sucessão que passa…
Que encanto é o teu? Deitado à tua beira,
Sei que rasga, eterno, o véu da graça.

Perante o olhar atónito das duas moças, que desconheciam por completo a obra poética de Jorge de Sena, Aníbal, transposto à dura realidade, abandona o olhar absorto e puxando o escarro, continua a trabalhar.

É a vez de Arménio intervir:
Raparigas, tomai tento,
Cachopas, não vos fieis.
Cantigas leva-as o vento,
Cartas de amor, são papéis…

Finalmente, chega o mestre das obras, o Shôr Esdrúbal, que não quer acreditar naquilo que os seus olhos vêem e os seus ouvidos escutam:
Mas que é isto, mas que é isto?!
Uma declaração de amor não é acontecimento do domínio público, uma baleia que vara na praia sob o sol dos desastres e convoca multidões, desalinhando hábitos quotidianos; uma declaração de amor é um acto de grande intimidade que ergue um véu transparente de onde brotam mel e pássaros azuis.
Ai, cambada de malandros! Toca a trabalhar, toca a trabalhar!