sexta-feira, 24 de maio de 2013

O mundo que existe

Há muito tempo que escrever deixou de fazer parte de uma rotina. Há muito tempo que escrever deixou de ser um prazer. Mas quem se ama não se esquece e mais tarde ou mais cedo cruza-se de novo num caminho chamado vida.

Em conversa com uma amiga ela disse-me:

- Deves ter tanto para contar.

E eu respondi.

- Oh, não tenho nada para contar. E quem quer ouvir o que tenho para dizer?- Não é preciso que alguém nos queira ouvir, concluiu  ela. Escreve por escrever, faz de conta que estás a falar com alguém.


Fiquei a matutar no assunto, fui tomar um banho e de repente frases e mais frases começaram a compor-se na minha cabeça. Mas o banho foi longo e quando me sentei ao computador todas as ideias tinham ido com a água.
Queria lembrar-me, mas não conseguia. Então segui o conselho e imaginei que estava a falar com alguém. Talvez com ela. Talvez ela me queira ouvir, talvez ela me entenda. A minha amiga dos cabelos negros encaracolados, com um sorriso lindo.
É com ela que vou falar, é a ela que vou contar as minhas aventuras na Ásia. Nada de excitações que não sou nenhuma Ana Maria Magalhães, nem Isabel Alçada e muito menos vivo aventuras mirabolantes, ou descubro crimes.
Saí do meu país, porque tinha que o fazer, porque ansiava pelo mundo. Não sou nenhum navegador em pleno século XV, mas talvez guarde comigo uma, um dia tão grande, alma lusitana.


Aterrei pelo céu em território Asiático. Cheguei por água a uma terra chamada Região Administrativa Especial de Macau. E Macau é realmente tudo isto. É uma região, é administrada, é especial e é definitivamente...Macau.



Saí de Portugal no dia 7 de Março de 2011 e cheguei um dia depois. Uma viagem longa e cansativa, mas cheia de excitação e vontade de chegar. Não sei a que horas, porque aqui o tempo “tique taca” a uma velocidade diferente. Cheguei. Depois de enfrentar águas remexidas pelo tempo e um nevoeiro digno de uma chegada à D. Sebastião. É pelo Rio das Pérolas que se chega aqui, porque o avião pára em Hong Kong.Sentia-me tonta. Tinha o coração a mil, queria sentir se tudo aquilo era real. Sentia-me exausta. Mas, ainda havia muito a fazer antes de poder estar sozinha e reflectir sobre esta grande viagem.
Dentro do barco estava bem vivo que tinha chegada à China. Vozes altas a emitirem uns sons estranhos. Eu como não entendia, achava que eles próprios não se entendiam.

À minha espera estava um rapaz, que seria um dos meus futuros colegas.Com cavalheirismo e um sorriso no lábios ajudou-me com a bagagem, chamou um taxi e levou-me àquela que seria a minha primeira, de muitas casas em Macau. Depois de me instalar levou-me até à redacção onde iria trabalhar com jornalista em língua portuguesa num território especial da China.Ainda me lembro da viagem até casa. Da janela do táxi avistei edíficios imponentes, ruas que me eram estranhas e gente, muita gente. Aqui o que não falta é gente. Em 28 quilómetros quadrados vive gente de todos os tamanhos e feitios, de diferentes nacionalidades. Vive gente diferente de mim, vive gente para quem eu sou diferente. E isso apaixonou-me.
- Vim ver o mundo. – pensei finalmente.



Quando se sai da zona de conforto, por mais aventureiros e abertos que possamos pensar ser, nunca nada é a 100 por cento e esta euforia não é diferente. Os ventos às vezes são tufões, o sol vem de soslaio e a chuva é quente. E inevitavelmente cresce-se. “Mo pan fa”. Porque se entra numa nova fase da vida e, definitivamente do crescimento.

No entanto, este mundo que esteve-me fechado durante um ano. Um ano em que vivi dentro de Portugal. Num ano, as coisas mudaram e a vida levou-me para fora de Portugal.

Deixei Portugal, o país à beira mar plantado, e deixei o Portugal de Macau. Depois de muitas atribulações, talvez naturais de quem se muda, decidi viver a minha aventura na China. Afinal, vim viver para uma terra do Grande Continente. Deixei de escrever na minha língua, deixei de falar a minha língua.




Fiz a minha grande viagem e nunca mais voltei.Nunca mais voltei a pensar em português, passei a pensar no mundo. Voltei de férias, mas estranhei-me. Mais de dois anos depois, olho ao espelho e vejo uma pessoa diferente. Não me sinto de lado nenhum. Não me sinto daqui, não me sinto do meu país. Talvez como sempre me chamaram, sou estranha, talvez como me chamam hoje, sou uma “falsa ocidental”. Não sei o que sou, sei que sou uma pessoa, sei que sou uma cidadã do mundo.

Na minha aventura pelo Oriente tenho conhecido pessoas de todo o lado. Fiz amigos de várias línguas e costumes e com eles viajo pelo mundo, pelos seus costumes e pelas suas crenças. Com elas viajo também pelo meu país, aprendi a olhar para o ser português de forma diferente. Falo Portugal na terceira pessoa, falo da cultura, da comida e das minis fresquinhas com tremoços. Falo de rancho e de touradas regadas com um bom vinho. Falo de um céu azul inigualável e paisagens únicas. Mostro o meu país como ele deve ser mostrado. Tento mostrar de forma romântica, porque aqui Portugal é mostrado com o coração.

Macau é uma região tão especial que tem gente de todo o mundo. Mas esta gente não se mistura. Cada uma das nacionalidades aqui existente vive fechada em comunidades. Falam uns com os outros, mas não há misturas.
- Não achas que misturar-se é bom?

- Eu cá acho que é. Aprendes tanto sobre outras culturas.

As outras culturas não são melhores, nem piores que a nossa, são simplesmente diferentes.

Conheci um rapaz do Paquistão. Tornámos-nos amigos. Amigos de passar noites ao sofá a falar sobre tudo e mais alguma coisa, basicamente.
Um dia chamou-me a casa dele.
- Quero-te contar uma coisa, uma decisão que tomei.

Eu lá fui, curiosa com o que ele me teria para dizer de tão importante.

- Decidi casar. – afirmou muito sério.

Não vi a minha cara, mas senti os meus olhos muito abertos e fiquei com aquela boca aberta de surpresa. E isto porquê? Porque ele nem sequer namorada tinha e estava em Macau há pouco mais de três meses.

- Assim, de repente. Explica lá isso melhor.

- Os meus pais já me andam a pressionar há algum tempo para casar e eu decidi que está na hora de fazer o que eles querem. Sinto-me preparado para dar este passo.

- Então... mas não tens namorada.

- Eu sou muçulmano, nós temos casamentos arranjados. – explicou.

Ora, isto para um ocidental e em especial uma mulher é uma coisa muito estranha. Falar da vida e em tom de brincadeira chamar-lhe “taliban” está bem, mas agora casamentos feitos... O que é isso?
E nem precisei de perguntar nada.
- Eu explico-te, tem calma.
Eu ouvi. Ele falou-me de todas as questões envolvidas - do sucesso dos casamentos assim, de como funcionava, de como fazia sentido na sua cultura e religião que assim fosse. No fim, apenas uma pergunta me fazia sentido fazer:
- Estás feliz com a tua decisão?
E ele deu-me um sim com tanta certeza, que a minha pequena mente ocidental ficou desarmada. E dessa noite em diante segui todos os passos com ele. Até ao dia em que, via Skype, assisti à parte religiosa, que oficializou o casamento. Não era suposto, porque uma mulher não pode estar presente do lado do noivo. Eu estive e com a devida aceitação da família - simplesmente porque era amiga dele. E ele era tornou-se um homem casado, mesmo à distância. E ele sorria feliz. E ele não é de sorrir.
- Não preciso de sorrir, só porque estou feliz. Não gosto. – comentou ele.

Vim realmente ver o mundo, viver ao lado dele e respeitar com ele. Ao lado dele tudo faz mais sentido na minha cabeça.