sábado, 25 de janeiro de 2014

Os filhos de Phnom Penh

Cambodja. Terra de campos de arroz que se estendem até ao azul do céu, com uma história de um Reino Asiático, que teve um dia a sua capital a prosperar neste lado do mundo. Mas este era um vez teve um presente feliz, mas um final infeliz.
A história deste reino tem milhares de anos. Tem uma cultura própria, uma escrita intocada até aos dias de hoje, uma primeira rainha mulher, que diferencia o obrigado ao rei, na língua local. Existem duas formas de dizer obrigado em khmer - ma masculina e a outra feminina. Até hoje o Rei tem sempre um agradecimento no feminino.
Uma capital que um dia foi capital no mundo asiático. Esse dia foi interrompido por um único nome. Nome esse que arrastou consigo um país à miséria... até hoje.
Pol Pot, um revolucionário, definem, que liderou o Khmer Vermelho, entre 1963 e 1997. De 1963 foi secretário geral do Partido Comunista do Cambodja. Em 1975 as suas forças tomaram conta de Phnom Penh levando-o  a servir o cargo de Primeiro-Ministro do Democratic Kampuchea, entre 1976 e 1979.
Pelas datas se vê que esta é uma história recente, que ainda hoje se vive em cada passo que este povo dá. O que se conta daquele tempo não é bonito. Um genocídio em grande. Uma caça àqueles que pensavam. Porque pensar é um mal neste mundo. Foram perseguidos os intelectuais deste país: professores, advogados, líderes, opositores, pessoas com óculos e bébes. Queimaram-se livros, censurou-se a música, calou-se a inteligência de um povo.
Até hoje... Educar a nova geração do Cambodja é um trabalho árduo. Requer muita paciência e algum jogo de cintura. Não se conta aos jovens de hoje a história de um reino extenso, faz-se questão de se viver em Pol Pot. É inclusivé usada para educar as crianças.
- Queres ser como o Pol Pot? Hum...?
Talvez no entendimento ocidental não seja uma coisa simpática de ser dizer. Aqui é uma técnica de aprendizagem...
Para alguns este pedaço da história nunca existiu. Cambodjanos a matar o próprio povo, é impensável. Para as crianças de Phnom Penh os pobres são quase uma atracção comparada a um Zoo, parafraseando uma menina rica de dez anos. Para outras não existem.
- Isso já foi à muito tempo! – exclamam.
O Cambodja é feito de gente pobre, de casas de árvores, de pessoas que não têm o que comer, que vende filhas para pagar dívidas, que vende sexo infantil como forma de turismo. Phnom Penh é feita de gente rica, uma bolha de desenvolvimento e de corrupção à vista de todos.
Na escola pedem-nos para educar estas crianças a serem os futuros líderes do Cambodja, mas daqueles que são bons e não corruptos.
Analisando bem, a tarefa é árdua, porque esta geração está precisamente a ser criada seguindo as leis da corrupção. As escolas na capital são privadas, claro está. Há que manter as crianças, porque é negócio e há centenas de estabelecimentos escolares na cidade.
Sendo privadas e para a gente rica, o que os pais querem, é ordem.
Choca com a base do que é educar. Tudo é feito em função dos meninos. Esconde-se a verdade sobre o desempenho do filho ou da filha. Tudo em troca de dinheiro.
Falam de educação e de disciplina, querem quantidade de alunos. Pedem qualidade e vendem diplomas. Tratam diferente os alunos, consoante a conta bancária e o estatuto do seu progenitor.
Esta geração de país e de fazedores de escolas deviam querem sim criar líderes, mas líderes dotados com a capacidade de pensar. Seria uma transacção mais aceitável. Pelo menos teriam sidos ensinos a pensar, a analisar e aí, sim, numa verdadeira vontade de levar este país para a frente.
Os meninos ricos do Cambodja têm dinheiro, têm casas, têm brinquedos e vão à escola. Os meninos ricos do Cambodja precisam de amor. Os pais dos meninos ricos não têm tempo para eles, exigem à escola a educação dos filhos. Um mau comportamento é culpa da escola. Talvez se professores devem ter em atenção ao que se passa na vida familiar, talvez não seja de mau pensamento dizer aos pais que eles também precisam de pensar nisso. Eles são os pais e eles têm os filhos. Contudo, segundo a educação da conta bancária, os professores são os responsáveis, a escola acarreta com as culpas todas. E não pode ser, porque senão mudam as mensalidades de escola. Desautorizam-se professores em troca de um final do mês feliz. Os pais pagam para não perderem a tão afamada face. Mentir, é sempre melhor, que perder a face.
Em cada uma das crianças se pode ver quem é um caso perdido, e  a quem o dinheiro compra o diploma e o emprego, outros que têm o verdadeiro potencial de um melhor Cambodja, mas que terão sempre o papel secundário na futura história deste Reino. A comprovação vem depois de uma conversa com os pais.
Há uma ausência da palavra valores. Não se ensinam, não se mostram. O exemplo que se dá, vai no sentido contrário ao que apregoa, num país que deixa o povo inculto, que desenvolve nichos de dinheiro.  
Os valores existentes são contraditórios. Se por um lado se vive num conservadorismo extremo, onde as mulheres usam saias compridas e têm de ir virgens para o casamento, por outro o homem é rei e senhor de ter quantas mulheres quiser, e pagar para se bajular – porque o homem precisa.
Os casamentos são arranjados para a junção de terras e a união de bens. Os donos de campos de arroz têm trabalhadores em regime feudal, que da miséria que ganham tiram doze horas de trabalho no campo. As pessoas de classe baixa – a maioria deste reino – são olhadas de baixo. Os ricos passeiam nos seus Lexus, numa cópia infinita. A necessidade de roubar é culpa da história e ainda arranca risos para resolver o problema.

São estes os valores que regem a criação da mais recente geração dos filhos de Phnom Penh.  Pais que casam por casar, onde o dinheiro é a prioridade, o tempo com os filhos é pago.