quinta-feira, 10 de setembro de 2015

Rascunhos de viagem, Camboja




     Linda George esgotou as páginas do passaporte. Andou de aeroporto em aeroporto a pedinchar para um carimbo no sítio certo, afim de fazer render o pouco espaço que lhe restava. Se nalgumas emigrações lhe achavam piada e lá lhe faziam o favor, noutras mandavam-na para o país dela para resolver a questão, que assim não podia andar a viajar! Mas Linda tinha um objectivo, calcorrear céus e terras do sudoeste asiático. Ela e Tom delinearam rotas e prazos, que foram sendo alterados e reformulados um sem número de vezes. Num curto espaço de tempo e em constantes mudanças de planos. A primeira viagem ficou decidida, o Cambodja iria dar início à grande jornada por um mundo novo. 




     Os dois companheiros decidiram fazer esta viagem ao assento de uma scooter e com apenas uma mala, para reduzir espaço e peso, apesar, de mais tarde, se vir a tornar um verdadeiro inconveniente, que fez ambos ir deixando coisas pelo caminho.
     A jornada iria ter início com a chegada de dois amigos a Phnom Penh. Dali desceriam a costa rumo à cidade de Kampot, “terra da pimenta e com um rio que nos acolhe”, descreveu Linda. A  partir daqui seguiriam, Tom e Linda, com uma ideia de onde ir, algumas fotos de mapas e uma vaga noção de onde estavam. Para a frente seria o caminho, dar a volta ao país, descer pela costa, passar pelo reino de Angkor Wat, dar uma vista de olhos no lado este do país, com as suas florestas tropicais com natureza selvagem e regressar ao ponto de partida.
     Assim, de Phnom Penh, Linda e Tom seguiram viagem acompanhados pelos amigos. Iam visitar mais um outro amigo, agora a viver na região. Três horas distanciam a capital da cidade de Kampot, terra de conhecida rotunda do durian, fruta ambundante e de um outra, a 2000, que reza a lenda tem a ver com superstições e magia negra. Durian é uma fruta que cheira mal, mas dizem que sabem bem. Para Linda o cheiro será mais aceitável até mesmo que o sabor, apesar de contaminar tudo à sua volta.
     Os quilómetros foram feitos com calma e com algumas paragens para descansar, chegados ao local encontraram o amigo, que os recebeu de braços abertos e já com planos para visitar a zona.
     Em plena época alta no Camboja, Kampot tinha agora mais gente do que Linda se lembrava da primeira vez. Cheia de mochileiros, que encontram naquela terra um retiro, onde o rio nos deixa levar na pacatez daquela pequena cidade, de traços coloniais a viver à moda do reino. O tom relaxado e livre que Linda George irá sempre sentir falta. É o tempo alto desta terra, que cultiva uma afamada e deliciosa pimenta, onde abundam os tais durians, onde se faz molho de peixe, e onde habitam muitos expatriados. Terra dona de umas das mais belas montanhas do país – Bokor Mountain. Kampot é a capital da provícia de Kampot, no sudoeste do Camboja e o rio a separa em poucos quilómetros o Golfo da Tailândia.
     Da montanha avista-se o Vietname e todo o Cambodja.
Um dia foi usado para uma viagem de mota ao topo da montanha. Uma jornada de algumas horas, que valeu cada quilómentro feito, contou Linda George. Quedas de água, rios, montanhas e muito verde prefaziam o cenário. A meio umas pessoas, que vivem ali e acolá, porque se estão a construir resorts e, dizem, um casino. Uma casa chamada de assombrada, uma estranha construção, imponente e inacabda, a aparentar um já pequeno casino.
    Perto da população, numa subida sem saída, escondia-se um templo budista. Uma construção pequena e simples, a revelar as boas intenções religiosas. Uma vista extensa de verde a perder-se no nevoeoiro. Com o cair da tarde o frio fazia-se sentir mais intenso. Hora de regressar, para um final à beira rio, num bar com a água ali ao pé, com uma cerveja Cambodia na mão e umas gargalhadas entre amigos. Houve ainda direito a um mergulho enquanto se saboreava uma ou outra cervejola.
     Um começo bem humorado e descontraído, faziam prever uma viagem plena, afinal fora da cidade o reino é tranquilo, sem azáfama e vagaroso no seu jeito de agir.
     Os companheiros seguiram viagem. A próxima paragem seria Kep, a cerca de meia hora de Kampot. Uma pequena, também ela cidade, à beira mar, famosa pelo peixe e marisco, em especial o seu carangueiro. A pimenta faz também um vistão nos muitos pratos que confecciona. Sabe-se que se chegou ao destino, quando se avista uma estátua de um carangueijo, lá no mar, a imagem da cidade. Sempre a direito, entre casas dispersas e o nada, avistam o centro da cidade. Ali, os dois amigos queriam seguir directos uma ilha   chamada de Rabbit Island – a ilha do Coelho. O nome não é literal, porque à data nehum coelho foi avistado naquele pequeno pedaço de terra. Uma ilha deserta, onde mesmo em época alta, a tranquilidade existe e privacidade é possível. 



  
   Não era possível, àquela hora já não havia barcos que os levasse para o outro lado. Teriam de passar a tarde e a noite em Kep e só na manhã seguinte ir para a ilha. Compraram o bilhete, depois de regatear, como apraz o Cambojano, a quem Linda já conhecia as manhas. Havia agora um novo plano, procurar um local para pernoitar e tomar um merecido banho. Perguntaram ao senhor que lhes havia vendido os bilhetes onde poderiam encontrar um sítio barato para passar a noite. Afastado da praia, numa cortada quase imperceptível e por um caminho de pedras, Tom e Linda chegaram à pousada. Um sítio charmoso, calmo, com casinhas feitas em palha, uma cama, e casas de banho partilhadas. As casas estavam construídas numa pequena encosta, por onde descia um jardim.
      A noite estava encantadora, o pôr do sol mostrava-se num espectáculo de cores. O jantar foi num restaurante acima do nível do mar, construído sobre estacas de madeira. Ao longe avistaram pescadores a recolher as redes cheias de carangueijo, sentiram as ondas a remexer por baixo dos nossos pés, o olfacto absorveu a maresia.
     A comida guarnecida de pimenta fez uma festa nas pupilas gustativas dos dois viajantes. O molho preferido de Linda era simples, a pimenta preta de Kampot, usada por todo o país, e o sumo de lima. “Uma delícia”, contava ela.
No dia seguinte levantaram-se cedo para rumar à ilha. Como sempre, os horários do Camboja diferem entre uma a duas horas, isto quer dizer... que estão sempre atrasados. Já com longa espera Linda começou a recear terem sido enganados e fazia sentido ter sido mais barato. Ligaram ao homem dos bilhetes e ele disse sempre que alguém estaria para chegar. Na sua pontualidade, quase duas horas depois chega, alguém para os encaminhar até à ilha. Stress passado, tempo de apreciar a viagem de barco. Sentir o calor e disfrutar da paisagem. A viagem duraria cerca de quarenta e cinco minutos.
      O barco atraca ainda sobre a água. É preciso arregaçar as calças, precaver os bens e saltar o melhor possível. A Linda, a elegancia não chegou, saiu do barco num tombo que a deixou debaixo de água e com a máquina fotográfica ensopada.
     Ao longo da pequena dimensão da praia sobrevivem cerca de três negócios de bungalows. Alguns mais modestos e em feitos em palha, outros em madeira, criando uma atmosfera de Alice no País das Maravilhas. “Somos gigantes naquele pequeno pedaço de terra”, descreveu a nossa personagem. A tranquilidade de uma ilha sem luzes artificiais, que por volta das nove se apaga, cada um dos donos dos bungalows desliga os geradores, para uma noite iluminada pela lua. E essa brilha cheia de graça. 


     Acordar num local daqueles é quase idílico, recorda Tom. De manhã o galo canta e acorda os mais preguiçosos dos turistas. Manhã cedo e o sol já vai alto, convida a um mergulho no mar. Uma caminhada pela praia ou uma massagem ali mesmo, enquanto se passeia, a ouvir as ondas, a cheirar a maresia. Em cada um dos negócios existem restaurantes associados. Comida do mar cozinhada em modo artesanal, alimentou-lhes a alma. O mar pacífico repousou-lhes o corpo, que se foi deixando embalar nas redes baloiçantes em cada par de árvores ao longo do areal. A paz reina na ilha do reino. A noite cai, com ela as luzes. Fica a tal lua e fica a pureza do espaço. Repostas energias há que prosseguir com a viagem.
     Ao quinto dia, o destino era agora Sihanoukville. Uma terra com o nome de vila do rei, de praia, de ilhas e de uma noite que guarda alguns famosos segredos negros do Cambodja. A partir daqui Linda iria ao desconhecido. Tinha visitado antes Kampot e Kep e tinha ido até Siem Reap para ver Angkor Wat. O resto iria descobrir com Tom a seu lado. E até aquele ponto a jornada fluía. Estava calor, os locais e as pessoas com que se iam cruzando despertavam uma boa relação com o país. O único incomódo era o transporte da mala, desde Kampot, Tom tinha criado uma estrutura com paus de madeira atrás na mota. Contudo, era frágil e passava o tempo a desmontar-se, e, por vezes, a deixar a mala para trás. Pequenas atribulações, que se tornaram grandes com a distância a percorrer e o tempo a escassear. Momentos de irritação que começavam a deixar levar os dois companheiros pelo cansaço.
      A chegada a Sihanoukville durou, talvez, cerca de quatro horas, com paragens e desorientações pelo caminho, assumiu a nossa personagem. A entrar na cidade cansados e já sem saber o que fazer com a mala, que estava a ficar cada vez mais vazia, tiveram de pôr gasolina. A cara de desespero de Tom levou uma menina das bombas, que sem saber uma palavra de inglês, a apenas pegar na mala, virá-la na vertical, encaixá-la entre o volante e o assento do condutor. Assim resolveu o problema deste dois aventureiros. Quando Tom a conduziu, luz foi feita, aquela era realmente a forma mais confortável de a transportar.
     - Esta gente transporta grandes mercadorias em pequenas motas, há que os respeitar nisso e levar os seus conselhos a sério – comentou Linda com Tom. Ambos deram uma garglhada. Tão simples.
      Um problema resolvido. Havia outro para solucionar - situarem-se. Sihanoukville é composto por várias praias ao longo da costa. Os dois companheiros queriam ir a uma chamada Otres. Uma praia feita, mais uma vez, por expatriados, que a exploram com as suas guesthouses e bares, mas com uma boa onda no ar. Esta praia é conhecida pelo seu Mushroom Point, um pequeno areal rodeado de sombras feitas em bambu, em forma de cogumelos. Antes de conseguirem chegar passaram por outras praias. Com os seus bosques, as suas rochas e o seu mar azul. À volta haviam ainda mais ilhas desertas onde se pode pernoitar umas noites, no doce sossego do isolamento. Linda e Tom passaram um dia numa ronda a três ilhas. 


       - Uma excursão muito mal organizada, lá meteram cerca de trinta pessoas, ou mais, num pequeno e lento barco. Contudo a beleza das paisagens, aquele céu azul que desenha o Camboja, as ilhas com meia dúzia de bungalows e um ou dois pequenos restaurantes fazia esquecer qualquer frustacao, descreveu Linda. A vida simples daquele reino, que seja em terra ou no mar, nunca se lhe muda o ritmo.
     - Sem dúvida que nos faz ponderar o nosso lugar do mundo, reiterou. A viagem ao Sudoeste Asiático provocou-nos mudanças profundas, sem dúvida.  
     À noite Linda e Tom decidiram dar um giro pelo centro da cidade. Ver a famosa noite louca de Sihanoukville. Os dois, numa passagem, viram como funcionava, não era muito diferente de qualquer outra vida nocturna turística. Sexo fácil, pedofilia são a maior atracção turística naquela zona. Mandam os chulos e os mafiosos, na maioria estrangeiros, que à se noite rodeam dos prazeres da noite, de manhã batem com toda a agressividade na casa das meninas, entram e o que se passa lá dentro só eles sabem. Esta imagem deixou pouca vontade de usufruir daquela que dizem ser uma grande noite no Camboja. O vício circula livre, as leis tomam outras medidas. Tudo é possível naquela terra, a quem a gente de fora corrompe.





      Linda tentou afastar esta ideia e aproveitar a cidade. O final da tarde estava a chegar e era hora de mudar de poiso novamente. Seria um dos mais longos destinos a enfentar. O que nunca julgaram é que passariam dois dias no meio de uma densa floresta tropical e atravessariam uma das montanhas do mundo com menos mão humana. Encontrariam neste grande desvio e erro de cálculo as mais impressionantes paisagens e os mais incríveis sentimentos que alguma vez imaginariam na sua volta de mota pelo Camboja, com os seus vales encantados.