terça-feira, 3 de fevereiro de 2015

Um regresso ao pressente


Linda George voltou a ver Macau. O seu guião parecia levá-la para aquele sítio, desta vez, com o coração apertado de quem fica onde não esta bem, a nossa personagem teve que fazer paragem nestas bandas por um questão de visto. Por mais de um mês foi turista em Macau, reconhecendo-lhe os becos, fugindo ao publicitado como a galinha dos ovos de ouro da terra dos casinos. Deixou de lado a loucura destes estabelecimentos de luzes ofuscantes e deixou-se levar pelos pequenos pormenores que abrem uma brecha para uma velha Macau. Ruas, ruelas, becos, espaços que se abrem longe do frenesim dos neos e do jogo livre e desenfreado. A afamada Las Vegas chinesa vive um presente inquieto, vive enterrado num objectivo único, que deixa de fora a população local e os pequenos comerciantes. Ruas calcorreadas por um mar infindável de gente, que dificulta uma vida diária, os preços a subir, uma nova geração sem poder de compra. Uma Macau visivelmente dos ricos, de quem conhece alguém, de quem se vai safando, dos lideres dos gangs, dos mitras, uma terra de quem pertence ao dinheiro. Ostentação, espectáculos cheios de glamour, salas de casinos apinhadas a qualquer hora do dia, turistas apertados nos locais que se dizem ter que se visitar, nos bens que se tem que comprar. Sacas e mais sacas, onde se lêem marcas caras, que saciam a alma do chinês agora rico.
Linda não conheceu o Macau de antigamente, aquele sitio calmo, tranquilo, de pescadores, de mistura de raças, onde havia qualidade de vida. Segundo sempre ouvia, depois dos anos noventa, aparentada década de ouro, tudo mudou, tudo se transformou. A era desta colónia portuguesa, fácil e calorosa, foi sendo deixada no passado. O futuro vê-se diferente, a grande China pensa outros planos para a RAEM e mostra-o em grande estilo. Poder. O poder de um Governo Central que se vai mostrando com a apreensão de cargos importantes e das meninas mais famosas de Macau, as meninas do antigo hotel Lisboa, que desfilavam, sem parar, nos corredores, numa mostra aos clientes. As meninas que viviam num aquário, a procura de dinheiro por um punhado de homens a precisar de libertar a sua libido. Um dos mais poderosos hotéis atacado por alguém. Uma ameaça? Uma chamada de atenção? Uma mostra de poder? Em Macau ha murmúrios de máfia a voltar a tona, na grande China prendem-se corruptos.
A Macau dos anos noventa, apesar de levar uma vida local pacata, foi também marcada por grande actividade das suas máfias. Ouviam-se e tiros, havia incêndios e bombas postas em certos locais que dispensavam a protecção dos gangs. Houve uma prisão do líder do grande gang. Mais de uma década passada, Macau apinhou-se de gente poderosa, lida com muito dinheiro, o líder foi libertado e prometeu paz. Queria vingança, mas na região do turismo, tudo o que não se quer e mexer com a fluidez com que tudo acontece. Ha pequenos pormenores que fazem adivinhar que algo anda a mudar. Uma caça aos maus? Será agora que podemos vê-los a afundar? - perguntava-se Linda muitas vezes.
No meio deste filme de gangsters e jogo, esconde-se como escolha cénica, uma terra que alberga raças de todo o lado, que na sua pequenez faz conviver diferentes países. E estes parecem viver em harmonia. Os chineses compõem a maioria, muito provavelmente oriundos de algures da grande mãe, mas já com gerações que pertencem a China de Macau. Os filipinos representam a segunda maioria de habitantes. Sao os trabalhadores, são amas, empregadas de limpeza, trabalham nos casinos e no aeroporto, são explorados e as vezes maltratados. Vivem rodeados da sua comunidade, agem como uma grande família.
Linda George tinha uma cabeleireiro e eleição em Macau. Um filipino, mulher em toda a sua essência e no seu  jeito de ser, homem no aspecto físico, talentoso de tesoura na mão. A fama vem-lhe das Filipinas, onde trabalhava como responsável pela beleza de gente famosa. Chanel era o seu nome. Tinha a casa cheia de clientes a qualquer dia da semana, a sua loja enchia-se com filas de horas, a espera das mãos de Chanel. Os mais próximos chamavam-lhe Mama Chanel e tratavam-no por ela. Apropriado, sem duvida. Uma lady num corpo de homem, rechonchudo, de rabo empinado e mão de lado a dar-lhe o estilo. Linda, como todos, esperava horas na fila, porque ele era realmente bom, e mais barato, que nos fashionistas de Macau e o seu corte a artista pop.
Nas horas que passava na loja, a espera das mãos da Mama Chanel, Linda ia tendo contacto com o ser filipino. O salão era todo ele como uma qualquer sala de estar. Pessoas a conversa, risos altos e sentidos, cantarolices, como apraz o bom filipino. Serviam-se cafés, ia-se buscar comida para os mais esfomeados. Uma grande reunião de famílias. Linda gostava de chamar os filipinos de latinos da Asia. O seu jeito caloroso, talvez reminescente do sangue espanhol que lhes foi herdado, define o povo filipino de forma muito simples. Abraços, beijos, lagrimas, risos, drama e mais drama de quem vem de um pais corrupto, a procura de uma vida melhor. E aqui, são felizes, apesar de separados das famílias e filhos feitos ao desbarato no calor da paixão. “Como uma vez uma filipina me disse, pensam primeiro com o coração e so depois com a cabeça, seguem o coração, apaixonam-se, amam e fazem filhos, como manter a relação ou criar o filho, não sabem bem, mas isso não importante, o amor e tudo”, recordava Linda. Para ela, este desabafo fazia-lhe todo o sentido para descrever este povo. Quase sem excepção, já todos tinham filhos, e muitos, mais que um. Foram deixados nas Filipinas, com os avos, a reconhece-los como pais, a afastarem-se de quem os teve. Quem os teve trabalha, num outro pais qualquer, ganha um salário sobrevivente, vivem empacotados em apartamentos, mandam o que ganham para as famílias. Os filhos vão ficando, ao encargo dos avos, sem poder viver com os pais. Algo dramático, mas que parece ser uma pratica comum deste povo, também ele espalhado pelo mundo, em países onde podem fazer uma vida, ter um trabalho onde ganham dinheiro para ajudar os seus. Em Macau respira-se filipino, ouve-se a língua, que soa comum aos ouvidos, que se reconhece, que ate se sabe umas palavras. Tagalog, uma língua que soa a uma mistura de espanhol com algum tipo de língua muçulmana, que explicada pela sua localização. Uma colónia espanhola que lhes deixou a paixão e a língua, uma sudoeste asiático que lhe conta a geografia e lhes define a personalidade. Oriundos de um pais pobre, tem a lábia de quem pedincha qualquer coisa, de quem abusa da confiança. Macau representa um futuro rico, alguns sobrevivem ordeiramente, outros perdem-se num imaginário jackpot nos casinos. 
Linda gostava de os observar, pareciam alegres, calorosos, defensores da sua cultura, da sua língua, do seu jeito de ser e de olhar o seu próximo como irmão. Um povo que sobrevive com a musica nos sentidos e o drama no coração.
Estas duas nacionalidades parecerem constituir a maioria da Macau do século vinte e um. Restam ainda um bom numero de português, não tão em abundância como no antigamente, mas ha uma vaga de novos vindouros, que também eles, procuram uma vida melhor, onde pensam ainda encontrar um poderio colonial. Ha também americanos vindos com a vaga de casinos, australianos, para a construção, que vao diminuindo, russos, com os seus negócios e as suas mulheres altas e esbeltas. E toda uma panóplia de nacionalidades, que fazem os espectáculos dos casinos, que são arquitectos, designers, dançarinos, acrobatas, cantores, entre outras profissões ditas liberais.
Esta mistura de culturas  fascinava Linda. Contudo, apesar de viverem juntas, as comunidades em Macau tendem a fechar-se nas suas culturas e a não conviverem. Contudo, ha sempre alguém que quer partilhar experiências com outros, sem querer saber o que lhe define o passaporte. Linda considera-se cheia de sorte quando vai encontrando estas pessoas na sua viagem. E por esta Macau, Linda passou os seus dias. A terra onde se sente o local, onde os seus habitantes locais habitam, onde se convive, onde se sente aquela Macau que um dia foi uma contadora de historias de navegadores e pescadores. Linda voltou a Macau e sempre que volta descobre ruas novas, paralelas, pequenas, com casas baixas, com portas pequenas, que dão tecto aos habitantes mais antigos, que vivem a vida longe da correria turística e do corrupio de fotografias e sacos de lembranças. Uma Macau pacata, com gente da sua terra, que vive o ritmo de uma terra de outrora. Ruas que desvendam a essência da gente de Macau. Da gente que aqui vive, que e de Macau, que lhe entende a língua, que lhe reconhece os recantos e os truques.
Linda relembra uma dessas noites, onde um jantar em casa de uns amigos a levou por novas ruas e vielas,  com um templo a dar-lhe o brilho arquitectónico, carrinhos de comida de rua e uma esplanada mesmo ali no passeio. A noite estava agradável, a iluminação e a solidão tardia da hora preencheu o cenário de melancolia. Uma cena perfeita para um filme sobre Macau. A trama continuaria na Macau da busca pelo dinheiro, do limitar uma carreira a um emprego no casino que melhor pague, rodeando-se de um glamour e de um estilo de vida condicionado pelas muitas paredes daquelas construções majestosas e imponentes.