terça-feira, 3 de fevereiro de 2015

Um regresso ao pressente


Linda George voltou a ver Macau. O seu guião parecia levá-la para aquele sítio, desta vez, com o coração apertado de quem fica onde não esta bem, a nossa personagem teve que fazer paragem nestas bandas por um questão de visto. Por mais de um mês foi turista em Macau, reconhecendo-lhe os becos, fugindo ao publicitado como a galinha dos ovos de ouro da terra dos casinos. Deixou de lado a loucura destes estabelecimentos de luzes ofuscantes e deixou-se levar pelos pequenos pormenores que abrem uma brecha para uma velha Macau. Ruas, ruelas, becos, espaços que se abrem longe do frenesim dos neos e do jogo livre e desenfreado. A afamada Las Vegas chinesa vive um presente inquieto, vive enterrado num objectivo único, que deixa de fora a população local e os pequenos comerciantes. Ruas calcorreadas por um mar infindável de gente, que dificulta uma vida diária, os preços a subir, uma nova geração sem poder de compra. Uma Macau visivelmente dos ricos, de quem conhece alguém, de quem se vai safando, dos lideres dos gangs, dos mitras, uma terra de quem pertence ao dinheiro. Ostentação, espectáculos cheios de glamour, salas de casinos apinhadas a qualquer hora do dia, turistas apertados nos locais que se dizem ter que se visitar, nos bens que se tem que comprar. Sacas e mais sacas, onde se lêem marcas caras, que saciam a alma do chinês agora rico.
Linda não conheceu o Macau de antigamente, aquele sitio calmo, tranquilo, de pescadores, de mistura de raças, onde havia qualidade de vida. Segundo sempre ouvia, depois dos anos noventa, aparentada década de ouro, tudo mudou, tudo se transformou. A era desta colónia portuguesa, fácil e calorosa, foi sendo deixada no passado. O futuro vê-se diferente, a grande China pensa outros planos para a RAEM e mostra-o em grande estilo. Poder. O poder de um Governo Central que se vai mostrando com a apreensão de cargos importantes e das meninas mais famosas de Macau, as meninas do antigo hotel Lisboa, que desfilavam, sem parar, nos corredores, numa mostra aos clientes. As meninas que viviam num aquário, a procura de dinheiro por um punhado de homens a precisar de libertar a sua libido. Um dos mais poderosos hotéis atacado por alguém. Uma ameaça? Uma chamada de atenção? Uma mostra de poder? Em Macau ha murmúrios de máfia a voltar a tona, na grande China prendem-se corruptos.
A Macau dos anos noventa, apesar de levar uma vida local pacata, foi também marcada por grande actividade das suas máfias. Ouviam-se e tiros, havia incêndios e bombas postas em certos locais que dispensavam a protecção dos gangs. Houve uma prisão do líder do grande gang. Mais de uma década passada, Macau apinhou-se de gente poderosa, lida com muito dinheiro, o líder foi libertado e prometeu paz. Queria vingança, mas na região do turismo, tudo o que não se quer e mexer com a fluidez com que tudo acontece. Ha pequenos pormenores que fazem adivinhar que algo anda a mudar. Uma caça aos maus? Será agora que podemos vê-los a afundar? - perguntava-se Linda muitas vezes.
No meio deste filme de gangsters e jogo, esconde-se como escolha cénica, uma terra que alberga raças de todo o lado, que na sua pequenez faz conviver diferentes países. E estes parecem viver em harmonia. Os chineses compõem a maioria, muito provavelmente oriundos de algures da grande mãe, mas já com gerações que pertencem a China de Macau. Os filipinos representam a segunda maioria de habitantes. Sao os trabalhadores, são amas, empregadas de limpeza, trabalham nos casinos e no aeroporto, são explorados e as vezes maltratados. Vivem rodeados da sua comunidade, agem como uma grande família.
Linda George tinha uma cabeleireiro e eleição em Macau. Um filipino, mulher em toda a sua essência e no seu  jeito de ser, homem no aspecto físico, talentoso de tesoura na mão. A fama vem-lhe das Filipinas, onde trabalhava como responsável pela beleza de gente famosa. Chanel era o seu nome. Tinha a casa cheia de clientes a qualquer dia da semana, a sua loja enchia-se com filas de horas, a espera das mãos de Chanel. Os mais próximos chamavam-lhe Mama Chanel e tratavam-no por ela. Apropriado, sem duvida. Uma lady num corpo de homem, rechonchudo, de rabo empinado e mão de lado a dar-lhe o estilo. Linda, como todos, esperava horas na fila, porque ele era realmente bom, e mais barato, que nos fashionistas de Macau e o seu corte a artista pop.
Nas horas que passava na loja, a espera das mãos da Mama Chanel, Linda ia tendo contacto com o ser filipino. O salão era todo ele como uma qualquer sala de estar. Pessoas a conversa, risos altos e sentidos, cantarolices, como apraz o bom filipino. Serviam-se cafés, ia-se buscar comida para os mais esfomeados. Uma grande reunião de famílias. Linda gostava de chamar os filipinos de latinos da Asia. O seu jeito caloroso, talvez reminescente do sangue espanhol que lhes foi herdado, define o povo filipino de forma muito simples. Abraços, beijos, lagrimas, risos, drama e mais drama de quem vem de um pais corrupto, a procura de uma vida melhor. E aqui, são felizes, apesar de separados das famílias e filhos feitos ao desbarato no calor da paixão. “Como uma vez uma filipina me disse, pensam primeiro com o coração e so depois com a cabeça, seguem o coração, apaixonam-se, amam e fazem filhos, como manter a relação ou criar o filho, não sabem bem, mas isso não importante, o amor e tudo”, recordava Linda. Para ela, este desabafo fazia-lhe todo o sentido para descrever este povo. Quase sem excepção, já todos tinham filhos, e muitos, mais que um. Foram deixados nas Filipinas, com os avos, a reconhece-los como pais, a afastarem-se de quem os teve. Quem os teve trabalha, num outro pais qualquer, ganha um salário sobrevivente, vivem empacotados em apartamentos, mandam o que ganham para as famílias. Os filhos vão ficando, ao encargo dos avos, sem poder viver com os pais. Algo dramático, mas que parece ser uma pratica comum deste povo, também ele espalhado pelo mundo, em países onde podem fazer uma vida, ter um trabalho onde ganham dinheiro para ajudar os seus. Em Macau respira-se filipino, ouve-se a língua, que soa comum aos ouvidos, que se reconhece, que ate se sabe umas palavras. Tagalog, uma língua que soa a uma mistura de espanhol com algum tipo de língua muçulmana, que explicada pela sua localização. Uma colónia espanhola que lhes deixou a paixão e a língua, uma sudoeste asiático que lhe conta a geografia e lhes define a personalidade. Oriundos de um pais pobre, tem a lábia de quem pedincha qualquer coisa, de quem abusa da confiança. Macau representa um futuro rico, alguns sobrevivem ordeiramente, outros perdem-se num imaginário jackpot nos casinos. 
Linda gostava de os observar, pareciam alegres, calorosos, defensores da sua cultura, da sua língua, do seu jeito de ser e de olhar o seu próximo como irmão. Um povo que sobrevive com a musica nos sentidos e o drama no coração.
Estas duas nacionalidades parecerem constituir a maioria da Macau do século vinte e um. Restam ainda um bom numero de português, não tão em abundância como no antigamente, mas ha uma vaga de novos vindouros, que também eles, procuram uma vida melhor, onde pensam ainda encontrar um poderio colonial. Ha também americanos vindos com a vaga de casinos, australianos, para a construção, que vao diminuindo, russos, com os seus negócios e as suas mulheres altas e esbeltas. E toda uma panóplia de nacionalidades, que fazem os espectáculos dos casinos, que são arquitectos, designers, dançarinos, acrobatas, cantores, entre outras profissões ditas liberais.
Esta mistura de culturas  fascinava Linda. Contudo, apesar de viverem juntas, as comunidades em Macau tendem a fechar-se nas suas culturas e a não conviverem. Contudo, ha sempre alguém que quer partilhar experiências com outros, sem querer saber o que lhe define o passaporte. Linda considera-se cheia de sorte quando vai encontrando estas pessoas na sua viagem. E por esta Macau, Linda passou os seus dias. A terra onde se sente o local, onde os seus habitantes locais habitam, onde se convive, onde se sente aquela Macau que um dia foi uma contadora de historias de navegadores e pescadores. Linda voltou a Macau e sempre que volta descobre ruas novas, paralelas, pequenas, com casas baixas, com portas pequenas, que dão tecto aos habitantes mais antigos, que vivem a vida longe da correria turística e do corrupio de fotografias e sacos de lembranças. Uma Macau pacata, com gente da sua terra, que vive o ritmo de uma terra de outrora. Ruas que desvendam a essência da gente de Macau. Da gente que aqui vive, que e de Macau, que lhe entende a língua, que lhe reconhece os recantos e os truques.
Linda relembra uma dessas noites, onde um jantar em casa de uns amigos a levou por novas ruas e vielas,  com um templo a dar-lhe o brilho arquitectónico, carrinhos de comida de rua e uma esplanada mesmo ali no passeio. A noite estava agradável, a iluminação e a solidão tardia da hora preencheu o cenário de melancolia. Uma cena perfeita para um filme sobre Macau. A trama continuaria na Macau da busca pelo dinheiro, do limitar uma carreira a um emprego no casino que melhor pague, rodeando-se de um glamour e de um estilo de vida condicionado pelas muitas paredes daquelas construções majestosas e imponentes. 


Um anjo Tailandês e uma Deusa negra

Durante a sua viagem pela Asia, Linda George viveu experiências que a transformam enquanto ser humano, e sentiu afectos que achava esquecidos na sua espécie. A curiosidade de experimentar, de viver cada momento de cada civilização por onde que passava deu ao final da viagem de Linda e Tom um desfecho inesperado que os iria deixar à deriva num hospital da Tailândia. O desprendimento com que visitavam e comiam, num efeito de habituação de quem tem que esquecer o conceito de higiene que traz da sua cultura, tardou, mas fez-se sentir sem dó nem piedade. Nesse mesmo desfecho, os protagonistas desta história encontraram o mais precioso sentimento, que os deixou estonteados, a bondade de um desconhecido. A viagem a Myanmar não correu como esperada. O país que mais ansiavam chegar entregou-os a um desapontamento depressivo.Decidiram sair do país mais cedo do que o previsto. Acordam cedo e procuraram a agência onde tinham comprado o voo. Queriam voar naquele mesmo dia, mas o destino parecia dar sinais de que algo estava para acontecer. O preço avultado de uma mudança de viagem no próprio dia, deixou-os retidos mais um dia na capital de Myanmar. Sentiam-se cansados e fracos, um corpo a desfalecer no tempo passado nas estradas do sudoeste Asiático. O espírito, também esse estava difícil de manter, desanimado, decepcionado, esgotado psicologicamente. A balbúrdia daquela cidade desorientava-os, os cheiros revoltavam-lhes o estômago. O odor do tabaco vermelho que mastigam, as ruas cobertas de cuspidelas deste produto deixavam Linda tonta e enojada. Apoderou-se sobre ela uma vontade de se fechar no quarto do hostel e não sair até a hora da viagem, que os levaria dali para fora. Tom desejava que o tempo passasse o mais rápido possível. Contudo, tinham que esperar e passar aquele dia a mais na cidade. Procuraram um restaurante para almoçar, a tarefa parecia impossível, os cheiros e a higiene tirava-lhes a vontade de comer. A chuva que brindou o dia não ajudava, inundava a cidade de cheiros passados, enchia as ruas do lixo produzido e deixado no chão ao desbarato. Encontraram um dos muitos sítios de comida indiana, pareceu-lhes minimamente limpo. O menu estava quase todo esgotada, não lhes restavam muitas escolhas. Pediram o que puderam, ingeriram o que conseguiram, o suficiente para se aguentarem. A seguir ao almoço, enquanto tentavam escapar a chuva, Linda começou a sentir umas pontadas fortes no estômago. Deixaram a chuva amainar e decidiram voltar ao hostel e descansar por uns instantes. Tom estava bem, apesar de naquela tarde ter tido frequentes idas a casa-de-banho. Passaram a tarde no quarto, Tom tentava, de pois muito tempo ausente, contactar alguns amigos, dizer olá, está tudo bem. Linda, essa, tentava ir dormindo sestas inquietas. A dor parecia ter desaparecido. Já hora de jantar e a fome a apertar, ganharam coragem e saíram das quatro paredes e jantaram  num tasco mesmo ao lado do hostel. Meio sujo, mas não dos piores, tinha vários pratos e até batatas fritas. Pediram os pratos e regaram-nos com cerveja. Tudo parecia estar bem, sentiam-se melhor, a comida estava deliciosa e a cerveja caia bem. Parecia, afinal de contas, um não tão mau desfecho, nos instantes finais naquele território. 
Iriam passar os dois últimos dois dias e meio na Tailândia, seria desta que iriam visitar o sul do país. Contudo, as circunstâncias estariam prestes a mudar com o acordar do novo dia. Tom levantou-se, sentia-se indisposto, e corria para a casa-de-banho a cada quinze minutos. Começou a sentir-se enfraquecido e nem sequer tocou no pequeno-almoço. O tom de pele tinha-se alterado, estava com uma cor azulada, que previa um mau estar mais grave. Até à hora de ir para o aeroporto, Tom tinha piorado, mal se aguentava em pé e deixava fechar os olhos a cada passo que dava. Linda estava inquieta e tinha devorado os naams do pequeno-almoço, na tentativa de absorver algo que nao sabia explicar e que nunca mais conseguiu comer de ânimo leve. Ainda se sentia bem, tentava cuidar de Tom o melhor que as circunstâncias lhe permitiam. Tom enfrentou as filas do aeroporto já de arrasto, quando se sentou no banco do avião, adormeceu de imediato. Linda começava a sentir também desconfortável. Sentia o seu sistema digestivo num corrupio. Assim que aterraram ambos procuram desenfreadamente uma casa-de-banho. Linda estava pálida, sentia o corpo vazio de corrente sanguínea. Fracos e Tom já desfalecido nos seus braços, procuram a clinica do aeroporto. Linda num desespero pede que lhe passem uma receita para a intoxicação alimentar, o pessoal da clinica insiste que ele fosse visto por um medico, Linda tentava resistir, quando se deu conta do estado de Tom. Quando voltou da sua busca, sem sucesso, procurar por uma famárcia que lhe vendesse algum medicamento que ajudasse o seu companheiro, Tom tinha-se deixado cair no sofá da sala de espera. Linda correu para o socorrer, ardia em febre. Precisava de um médico. Foi-lhe diagnosticado uma infecção no aparelho digestivo, provocada por uma bactéria qualquer deixando uma severa intoxicação alimentar, e por conseguinte desidratação. Enquanto Tom estava a ser medicado, Linda começou a ter os mesmos sintomas. Idas constantes ao WC e um sono perturbador. Cansada e já ela também enfraquecida, adormeceu ao lado da cama de Tom. Este, por usa vez, acordou depois de umas horas de sono. Dizia sentir-se melhor, apesar do aspecto físico dizer o contrário. Levantou-se e quis ir embora. Pediram a conta, mas quando foram levantar dinheiro, a sua situação deu uma volta, que os iria levar aos limites da necessidade e da dignidade humana. Seriam postas à prova na sua capacidade de sobrevivência, num país que não era nenhum dos seus, num país que vive e fala diferente. Linda e Tom correram as caixas multibanco do aeroporto. Todas lhes negaram dinheiro. Não entendiam a razão, verificaram o saldo e a conta ainda tinha dinheiro. Na carteira tinham meia dúzia de dinheiro tailandês e quarenta e cinco dólares em dinheiro de Myanmar. Uma solução tinha sido encontrada, bastava fazer o cambio e assunto resolvido, e assim poderiam pagar a conta do hospital. Dirigiram-se a uma caixa de câmbio e foi-lhes informado que nenhum banco lhes trocaria a moeda de Myanmar,por não ser ainda uma moeda internacional. Um nervosismo tomou conta de ambos. Um desespero, teriam que engolir o orgulho e voltar ao hospital mendigar que lhes fosse perdoada a dívida. Enquanto Tom negociava com eles, sem sucesso, com uma enfermeira que insistia em ser arrogante e sem coração,  que apesar da sua ganância teve que entender que não havia dinheiro para pagar. Perdoou-lhes a dívida, deixou claro que seria a primeira e ultima vez e negou os medicamentos a Tom. Os dois saíram da clínica envergonhados e nada saudáveis. Sem dinheiro, sem sitio para onde ir, sem forças para tomar decisões, Tom e Linda deixaram-se ficar pelo aeroporto. Tentaram ligar-se a internet para contactar amigos que viviam na Tailândia. O estado de Linda começava a piorar. A febre ia alta, Linda sentia-se zonza e a desfalecer, sabia o que a esperava, via o seu futuro em Tom, sabia que não havia dinheiro para que pudesse também ela ser medicada de alguma forma. Um pânico tomou conta do seu corpo dolorido e quente. Procuraram um local onde batesse o sol, no pais do calor, ambos sentiam um frio desconcertante. Tom olhava Linda num desespero de quem não tinha como resolver o problema. O local escolhido para se abrigarem ao calor do sol, era o caminho feito por todos os trabalhadores das companhias aérea, um corrupio de gente, que olhava Tom e Linda com desprezo. De toda aquela gente, nenhuma parou para sequer perguntar o que se passava. 
Sem aguentar ver a sua companheira a contorcer-se com dores, olhou-a nos olhos e disse-lhe: 'Não sei o que fazer, a única coisa que consigo pensar e em voltar aquela clínica e pedir ajuda, talvez...' Linda olhou-o e deu-lhe um sim, como se aquela fosse a ideia do ano. Voltaram, humilhados. A mesma enfermeira atendeu-os, troçou deles, olhava para Linda, já em delírios febris, e ria-se, como se gostasse do que via. Linda não aguentou e as lágrimas caiam-lhe cara abaixo, quentes e doentes. Por esta altura, os acontecimentos tiveram uma viragem, entraram em cena seres humanos dotados de alguma compaixão pelo seu próximo começaram a mostrar indícios de uma melhoria na sorte destes dois. Começou com a troca de turnos entre enfermeiras, a megera tinha acabado o trabalho e na sua vez tinha entrado uma outra ao serviço, que parecia mais meiga. Dirigiu-se a Tom para saber o que se passava, olhava Linda com um olhar de quem queria ajudar. Deixou-os ali algum tempo sem resposta. Voltou a eles, com uma solução. Ela chamaria uma ambulância do hospital publico, que os levaria de graça e lá Linda poderia ser assistida. Tom agarrou em Linda, já desfalecida, e levou-a à ambulância. Os auxiliares mandaram o corpo de Linda para um banco estreito, e desconfortável, sem grandes delicadezas arrancaram, deixando os corpos de Linda e Tom a deriva. Apesar da rudez, fizeram entrar Linda de urgência, puseram-na numa maca e tentaram entender o que se passava. Não demorou muito ate que alguém a atendesse. A barreira da língua foi atenuada por um medica jovem que arranhava no inglês. Tentou falar com Linda, mas esta tinha dado entrada com um ataque de pânico que lhe deixou os membros superiores paralisados e lhe descontrolou a respiração.  A jovem medica precisava que Linda falasse, deu-lhe um saco de papel para a mão e pediu-lhe que respirasse para dentro do saco. Linda acalmou e finalmente saiu do seu estado de alienação. Sentia o corpo dorido e uma sede insaciável. Pediu água, alguém a ouviu e veio a ela a rir-se e a repetir a palavra. Esse alguém parecia mais feliz por ter entendido uma palavra em inglês, do que propriamente pronto a fazer o seu trabalho. E Linda continuava seca. Foram-lhe feitos vários exames, estava intoxicada e desidratada. Foi-lhe dada medicação, que a deixou desorientada e a invadiu-lhe  um sentimento de desespero tão grande, que quase inconsciente, esbracejou  varias vezes para se tentar levantar da maca e arrancar os tubos que a medicavam. A resistência dos médicos ao descontrolo de Linda permitiu que conseguisse permanecer deitada. Conseguiu acalmar e deixou-se dormir. Inquieta e sem ver Tom, queria procurar por ele, mas sabia que ele estaria algures perto, a tentar também ele, recuperar. Uma das vezes em que acordou, Tom estava ao seu lado. Olhou-o, sentiu-se segura e voltou a dormir. Tom, ainda doente, tentava encontrar cantos onde pudesse descansar o corpo. Passado algumas horas, Linda deu de si, acordou e sentia a força voltar ao seu corpo. Ainda decadente, levantou-se e procurou Tom. Trouxeram-lhes a conta, e por 100 bahts, não tinham mais uma vez dinheiro para cobrir as despesas. De novo, explicaram o que se estava a passar, mas na mesma queriam o dinheiro. Confiscaram o passaporte de Linda, para se certificarem que voltariam para pagar. Nenhum deles sabia o que fazer. Não tinham como pagar, e sem passaporte não poderiam sair do pais. Estavam mais perdidos que nunca. O amigo de Tom vivia numa outra cidade, a amiga de Linda não tinha respondido. Já era tarde e ambos ainda estavam convalescentes.  
Mais uma vez, Tom dirigiu-se a Linda e com um olhar confuso perguntou-lhe se ela se importaria de dormir ali no chão da sala de espera, ele tinha visto gente lá a fazer o mesmo. Tinha consigo duas tolhas que tinha tirado da maca de Linda. Ela acedeu de imediato, como se ele lhe tivesse dito que iam dormir numa suite de um qualquer hotel de luxo. Moribundos e ainda drogados de dor e medicação, estenderam uma das toalhas, fizeram das mochilas um encosto e dos sapatos a almofada. Cobriram-se como puderam com a outra toalha. Linda nunca esqueceria o azul daquelas toalhas. 
No meio do sono, foram acordados por uma das enfermeiras que fazia o turno da noite. Abriram os olhos, mas a visão estava turva, recordam uma mulher que estendeu o passaporte a Linda para o devolver. Linda lembra ter balbuciado qualquer coisa a ver com o facto de não terem dinheiro. Ambos lembram as palavras daquela mulher, como um milagre. "Alguém pagou a vossa conta. Aqui esta o passaporte e a medicação prescrita pelo médico". Linda e Tom contam ter tido a mesma reacção, ambos levantaram cabeça, emitiram um som de espanto e voltaram para a sua inércia. Antes de adormecerem de novo, murmuram que deviam agradecer, mas não tinham forças suficiente para o fazer. Linda ainda se levantou para mais uma infindável ida à casa-de-banho, no regresso tentou ver  se encontrava a cara de quem os tinha ajudado. O curto espaço de visão que tinha, não a deixou ver claramente, deixou-se fazer uma vénia, a pensar que se ele estivesse ali, poderia sentir o agradecimento que tanto merecia. E só acordaram naquela manha já com o sol nascido. Tom acordou e queria sair do hospital, sentia que estava na hora, sentia-se humilhado e fraco. Ainda quiseram procurar aquele anjo da noite anterior, queria saber o nome, mas os turnos tinham mudado, levando consigo os vestígios daquele desconhecido. 
Saíram do hospital, contaram os trocos e compraram alguma comida e água, numa loja de conveniência portas meia com o hospital. Encontraram mais a frente um café com internet. Linda insistiu em descobrir o número de telefone da sua amiga. A sua busca teve um final feliz, procurou um telefone público e conseguiu contactar a amiga. Quando do outro lado da linha houve resposta, Linda chorou e pediu ajuda, precisava apenas da morada, ainda tinham algum dinheiro para apanhar um táxi. Deambularam os seus corpos exaustos pelas ruas até encontrem um livre, que os levasse a um porto seguro. Com aspecto de vagabundos bateram à porta, quando esta se abriu, Linda entregou-se aos braços da amiga, que naquele momento lhes pareceu a sua Deusa, de entre muitos que viram naquela jornada. Ambas riram, quando Linda evocou as crenças da amiga e apelidou-a do seu Deus negro. Inglesa de criação, apressou-se a servir um chá com leite aos moribundos. Uma bebida quente refez os corpos, endireitou-lhes as costas e deu-lhes a consciência do que tinham passado. Se a assistência não tivesse vindo ao seu alcance naquele tempo perfeito, o pior poderia ter acontecido, os sinais de desidratação no seus corpos deixava lembranças de tempos difíceis e de um físico debilitado, que iria acompanhar o casal ainda mais uns bons dias. A falta de dinheiro e apenas com medicamentos para um, partilharam a receita, e tardou o efeito desejado. Uma semana depois Tom apresentava melhorias, Linda ainda tentava livrar-se de um sistema envenenado. A amiga recebeu-os, deu-lhes um tecto, uns sofás improvisados para se esticarem, alimentou-os, deu-lhes algum dinheiro para que pudessem continuar a sua viagem e regressar ao Camboja, onde a sua espera estavam os seus pertences e uma viagem, que levaria Linda a terminar a sua estadia naquela país. 
Quando voltaram a pousar naquele reino, tudo lhes parecia encantado, familiar e tinha algo de casa. Passaram dois dias na capital do reino, despediram-se dos amigos, embarcaram de novo rumo a Macau, ainda debilitados e cheios de malas e bagagens, que viria a ser mais um teste a sobrevivência destes dois. De novo, amigos acolheram-nos e o casal pode recuperar e repor algum do peso que tinham perdido. Numa viagem encantada ao sudoeste asiático ficaram as recordações, guardaram-se as experiências, tiveram-se lições de vida. E foi no pior momento da viagem, que ambos os nossos protagonistas encontraram a bondade humana e um início para contarem as suas histórias pelas rotas do Sudoeste Asiático.