quinta-feira, 28 de agosto de 2014

Um pedaço de lar

Linda fez-se rodear pelo verão do seu país. A nossa personagem estava por esta altura em Portugal, em pleno “meu querido mês de Agosto”. Linda George deixou-se levar pelas actividades que apraz este dedicado mês no seu país. Agosto traz consigo uma panóplia de emigrantes, alguns de longa data, outros recentes. Reencontros de famílias, de hábitos e de comida que lhes são familiares. Agosto tem um gosto especial a férias e regresso a casa. Linda entendeu agora o que significa este querido mês de Agosto.
O seu país sofre um esvaziamento de locais e cria enchentes de turistas e emigrantes. Na sua maioria vindos de França, e já com alguns anos a viver naquele país. Falam um francês bem português, misturam as línguas e as traduções. Se a alguns sai forçado, noutros é interessante de ver o que viver lá fora muda nas pessoas. A vida de emigrante às antigas, todo o ano esperam pelo mês de Agosto para voltar às raízes e encontrar quem lhes é mais querido.
Linda quis seguir os passos desses emigrantes, quis saber o que é para os outros, ser emigrante. Esgueirou-se pelas praias de Portugal. No seu tom de terra à beira mar, com ruas a subir e casinhas baixas às riscas, com ambiente digno de Verão do afamado oitavo mês do ano. Regressou depois de anos às praias de Portugal, agora também ela emigrante e teve um dia de praia que lhe avivaram memórias de tempos de mocidade.
O dia começou chuvoso e o céu estava revestido de nuvens carregadas de água. Um vento fresco e um dia escuro faziam prever um fiasco naquela ida à praia. Mas, eis que de repente, pelo início da tarde, o sol se apresentou mais poderoso que as chuvas e refez aquele dia num dia de praia às antigas. Procurou-se espaço entre alguns resistentes, que mesmo com o tempo escuro, se desafiam para estar na praia, porque o iodo também queima. No final de almoço o areal começou a encher. Famílias, grupos de amigos, crianças, emigrantes, estrangeiros e locais. Uma maré de gente compôs a praia numa verdadeira tarde à portuguesa. Cada grupo carregava consigo artigos para um entretém na praia, para miúdos e graúdos, pára-ventos, para escapar ao vento que faz parte nas praias mais ao centro, coloridos chapéus para uma sombra necessária e para salvar as imprescindíveis malas térmicas, para um farnel à portuguesa.
As cores, o brilho do sol e a sonoridade de um mar bravio, deixaram Linda numa espécie de transe, entre o real e a sua imaginação. Linda deixou-se levar pela atmosfera daquela bela tarde veraneante. Sorria, ia escutando pedaços de conversas dos que se passeavam pelo areal.  O mar passou aquela pacífica tarde atiçado, tendo feito atear a bandeira vermelha. Salva-vidas passeavam-se à beira mar, para impedir que os mais destemidos se aventurassem naquelas ondas plenas de bravura.
Linda ia observando e ouvindo, levada pelo doce sabor de um verão no seu país. Pelo meio ia soltando gargalhadas, embalada em conversas.
- Olha para o mar. Está mesmo bravo.
- Pois está, está.
- Olha pr´àquilo.
- Até lá andam os moços salva-vidas. Olha, olha.
Uma conversa entre duas senhoras, numa sonoridade bem portuguesa, de quem vive perto do mar desde sempre. Que talvez tenham, muitas vezes, visto pais e maridos ir para o mar, buscar sustento e alimento.  Portugal com a sua enorme costa, de beleza e extensão, não conta apenas histórias de navegadores, reza lendas de pescadores, que ainda hoje se lançam e enfrentam o mar, para trazer para terra uma melhor vida a quem os espera.
Agosto enche praias e enche as vilas mais remotas. Agosto é tempo de alegria, de festejar, seja o que for, desde festinhas populares da vila, do concelho, do distrito, pequenos e grandes festivais de verão.
Pelo país se celebram festas em aldeias e vilas em homenagem aos seus santos padroeiros. Momentos de reencontro com amigos que estão fora. De encher a casa de familiares e amigos para seguir com os festejos. De dia passam-se algumas actividades lúdicas, o cair da noite enche palcos para dar início aos baile e à confraternização. A comida é de lambuzar e sempre acompanhada de um bom vinho, e para a digestão um cheirinho no café - um whisky ou uma aguardente velha. O domingo guarda uma procissão, solene, respeitosa e aprumada numa bela fatiota domingueira.

Sentimentos de verão, reencontros, festas, um cheiro a Portugal, àquilo que parecia longínquo, mas que faz bem recordar e estar.  "Um pedaço de lar", chamou-lhe ela.