sexta-feira, 11 de julho de 2014

A China dos Chineses


A China é um país imenso, em dimensão geográfica e em turbilhão de crescimento económico. Dona de uma diversidade cultural e linguística, construída por guerras, que delinearam o território como hoje se conhece. Definem a China diferentes tribos, cada uma com o seu dialecto e especificidades culturais, divididas agora em províncias e unidas por uma língua comum e oficializada.
Numa tão grande extensão de terra era preciso unificar o povo e uma língua – aquela que conhecemos por chinês, chamada de mandarim. Para além desta língua há uma outra que acompanha ainda como língua oficial em zonas como Cantão, Hong Kong e Macau – o cantonense. Esta está a ser esmagada pelo mandarim oficial, que se separa deste ser cantonês por fronteiras e talvez numa, para já, liberdade diferente.
Foi em terras de Cantão que Linda aprendeu o ser chinês. Um chinês moderno, de carreira definida, que vive em casinos e nos luxos que o dinheiro compra, onde a internet é livre e o governo vive mais aliviado do socialismo da Grande China – desde que produza receitas.
As cidades da província de Cantão, onde se fala o cantonense, está a ser invadida pelos mandarins que chegam para trabalhar nas grandes fábricas de produção ou construção made in China. Que fazem a sua vida dentro da imensidão do espaço, que é por si uma pequena cidade, com dormitórios, cantinas e locais para fazer compras. E esses produzem a riqueza esbanjada em casinos, hotéis e marcas de luxo. Vivem infelizes, separados das famílias. Muitos apresentam depressões e pouca ou nenhuma vida social. Jovens que passam a sua vida entre o trabalho e casa dentro de quatro paredes e viagens infindáveis às suas terras, para visitar a família e os amigos, que tanto lhes fazem falta na solidão das super cidades da China. Tudo em prol do povo e dos pobres não reza a história.
Contudo este poder territorial e económico não é ainda suficiente. A Grande China anda por aqui e por ali a reclamar território, do Vietname, às Filipinas, passando por Taiwan e ilhas que disputa com o Japão. Querem alargar mais o seu poder, os movimentos chegam ainda às suas terras especiais, que têm ainda influência de ex-colónias. Da língua, às receitas e, ao que parece, à sua liberdade de expressão.
Linda mostrou-me uns artigos que falavam da preocupação dos jornais chineses em Macau, acerca da liberdade de expressão, da repressão contra académicos e do elevado número de casos de abusos contra jornalistas.
De Hong Kong as notícias são flagrantes, como o esfaqueamento de um jornalista e a publicação do “Livro Branco” sobre Hong Kong, em que Pequim reafirmaria a sua soberania sobre o território, limitando a autonomia dos media e pedindo uma cobertura maior do movimento pró-democrata “Occupy Central” e notícias do  desenvolvimento económico do interior da China feita de forma objectiva e racional. A Associação de Jornalistas de Hong Kong apelidou este período, como os dias mais negros da liberdade de imprensa no território.
Invasão de mandarim e toda uma mão no que dizem os meios de comunicação mostra como vai o poderio da China. E no lado rico da China vai-se promovendo a dependência nas tecnologias, a obsessão por ídolos impossíveis, uma restrição inabalável de pensamento.
Mas a vida lá fora floresce. Eles movimentam-se, viajam, compram e vendem. Socializam, e festejar com um chinês nunca é uma desilusão. Eles sabem bem o que andam a fazer. Amá-los ou odiá-los.

Linda teve três momentos nas suas viagens que lhe deram uma nova dimensão da China. A primeira numa viagem a uma super cidade deste país.
- Que a China tem super cidades sabe-se, contudo ouvir falar e ver na televisão é muito diferente de estar ao vivo nos sítios.


Linda George conta uma cidade imensa, cujas distâncias podem unir cidades em muitos países. Com prédios altos a tapar o céu e a ostentar o muito ouro a rolar em terras chinesas. Restaurantes enormes, com salas privadas, bem ao gosto do homem de negócios chinês. A comida é farta e barata, pronta para satisfazer um estômago faminto de fartura.


Nesta viagem à loucura económica houve também tempo para visitar um local peculiar, digno de ser chamado de arte, e que mostra que na China poderão estar a despontar novas ideias. Uma antiga fábrica e estação transformada em ponto de encontro de arte. Com salas que apresentam diferentes exposições e estilos. As ruas estreitas e pequenas que formam o espaço escondem pedaços de criatividade, que valem a pena uma visita – Guangzhou, a cidade.




A segunda foi ter conhecido um jovem casal oriundo da China mais pura, dizem, a do Norte. Ele de Xian, das cidades com mais história e peso cultural, ela de Lianyungang. Um orgulho desmedido de ser chinês, da sua história e da sua victimização e redução histórica, de japoneses a matarem chineses. De um tão grande Mao Tse Tung, que revolucionou a China com mão de ferro. Deu-lhe uma revolução cultural e ceifou-lhe cerca de um milhão e meio de cidadãos e uma grande parte da herança que lhes afama uma cultura milenar. Tudo em benefício do povo, defendia fogosamente este tão jovem casal.
Uma alienação da lógica, mentes controladas. Tudo se pode, porque se é chinês, porque a China tem muita influência no passado de muitos países asiáticos. Ao ponto de nem ser preciso ir a outros países, porque é como na China. Quanto às paisagens, essas também existem na China. Um passado milenar, onde os chineses se guerrearam durante séculos, existe somente, um Japão que derramou muito sangue na China. Que é chinês, que é exactamente a mesma coisa.
- Às vezes apetecia-me parafrasear uma amiga e dizer-lhe, faz a tua pesquisa, lê...

A terceira foi a realidade de viver nessa China de controlo. O acesso à internet é restrito e os chineses têm os seus próprios motores de pesquisa, por exemplo, o equivalente a um google, um youtube e até um facebook.
Se por um lado o controlo e não liberdade de expressão. Por outro, um país que mantém o seu povo controlado, a crescer economicamente e que cria os seus conteúdos na web, que só eles entendem. Impressionante. E quando os chineses estudam, podem não entender de mais nada, mas de certo vão saber tudo aquilo que fazem.
A China dos chineses apresenta-se confiante no seu ser, faz de tudo para se manter e se continuar a expandir. Na China dos chineses o tempo é de fartura e ostentação. Amá-los ou odiá-los?