quarta-feira, 20 de novembro de 2013

A refeição e os seus rituais

Tudo começou com uma discussão entre colegas. A hora de almoço de Linda é passada com colegas de trabalho a falar de coisas banais. Entre banalidades trocam-se impressões sobre cada uma das culturas que integram o grupo. Três nacionalidades americanas, cada uma com o seu sotaque e costumes, mostrando a diversidade e a dimensão dos Estados Unidos da América. De Minnesota e o seu falar arrastado e lento, a Nova Orleãs, de falar rápido, a Kentucky com o seu sotaque de “Old MacDonalds had a farm” ou um “get ou of my land” texano.
Todos estão cansados de saber que ninguém suporta os USA e a sua bandeirada no mundo. Alguns fogem de um país que já não é livre, outros fogem do país para serem livres. Com eles vem arrastada toda uma cultura pop americana, assumida pelo povo deste lado do mundo, como a cultura do branco. Um mundo sem problemas, com dinheiro a esbanjar e em que o que se deseja tem-se.
- Quem me dera ser essa gente branca... – desabafa Linda.
Voltando à diversidade do grupo. A Europa com quatro representantes. Países que se vão assemelhando com a convivência – França e Portugal, uma britânica e uma irlandesa. De Portugal vem o sangue latino, que ferve rápido e diz asneiras. De França vem a finesse, num tom relaxado do norte. A Irlanda mostra-se descontraída e sem preocupação.
A britânica, crescida maioritariamente na Austrália e no Cambodja mostra uma mistura de comportamentos – dos bons hábitos ao costume de viver aqui.

Entre troca de impressões surgiu a questão de como se colocavam os talheres após a refeição em cada um dos países. Há diferenças entre o pôr os talheres para dizer que se quer repetir ou que se terminou.
Se entre brancos a direcção dos talheres mostra que num mesmo continente se age de forma diferente, num outro continente, do outro lado do mundo, no mundo dos “amerelinhos e castanhinhos” come-se de forma diferente.
- Uma criança veio ter comigo e disse: “Sabe, na China não usam colher, já viu? Usam uns paus”. E riu-se muito.
No Cambodja come-se em pratos de sopa e use-se uma colher e às vezes um garfo para ajudar. Na China e no Japão come-se com pauzinhos e em taças, a colher tem outra forma.
Linda lembra-se de ouvir um japonês comentar, que quando começou a comer com faca e garfo não foi fácil e que se mostrava meio desajeitado até ao dia.
Na China e no Japão o acto de comer com os pauzinhos é significado de honra.
- Muitas pessoas não comem correctamente, a posição dos dedos está errada e mostra deselegância. Mostra ainda que a educação em casa não é das melhores – parafraseia Linda o japonês.
No Ocidente há também que saber comer de faca e garfo e por vezes com vários numa só refeição.
No momento da refeição parece haver todo um ritual, do pegar nos talhares ao dispô-los no prato a deixar uma mensagem. Há que haver elegância no mauseamento e que adequar às dietas.
A comida no parto também é composta de estética e conta a história de um povo.
Da China e do Japão vêm as proteínas cortadas em pequenos pedaços e o arroz ou noodles em taças - tudo para facilitar o acesso dos pauzinhos. A fartura dos pratos chineses mostram o gosto pelo se sentar à mesa e partilhar a comida.
No Cambodja grandes montes de arroz, pequenos pedaços de carne e ovo, fácil de manejar com a colher a levar grandes colheradas, o garfo ajuda a segurar o pequeno naco, o resto fazem os dentes. Conta a história de um povo que da miséria lhes resta o arroz, para comer até se ficar farto, que o resto escasseia.
- A avaliar pela magreza das vacas, é natural que não se comam grandes bifes – comenta a nossa personagem.
Do Ocidente chega a faca e o garfo precisamente para os grandes bifes e as batatas. O Ocidente é terra farta, de história e povos civilizados, que comem em restaurantes caros.
À primeira vista pode parecer um pormenor menor, mas na hora de comer em país que não é o seu, aprender a comer de forma local faz toda a diferença no processo de habituação.

- Habituação e conhecimento cultural. Uma vez, num jantar com um japonês  ajudei-o a cortar um bocado de peixe. Num de repente, leva o corpo para trás e dá-me um olhar de ofensa profunda. Os pauzinhos eram numa outra era o último contacto os restos mortais dos seus entes - daí não poderem ser tocados por  um outro qualquer par.