segunda-feira, 7 de outubro de 2013

Staring at China

Linda desapareceu. Sumiu-se na sua solidão. Quando a reencontrei, tinha um brilho nos olhos, estava bem disposta.
- Acabei de voltar de férias. Como estás?
- Bem... Onde foste?
- Tens tempo para um café?
Uma pergunta que tinha implícito um contar de novas histórias. E eu estava curiosa, que tinha andado Linda George a fazer? O que é que lhe andava a passar pela cabeça?
- Que tens para contar?
- Ah ah ah!!! Está bem eu conto...
- Há momentos da minha existência que me pedem isolamento. Uns dias passados em casa, a dispensa com mantimentos para não ter que ver ninguém, nem o homem do supermercado. Nestes momentos pondero a vida. Penso, canso-me de pensar, aborreço-me a mim mesma... penso de novo e chego à conclusão que pensar não leva a lado nenhum, e ajo.
Linda confessou algum cansaço do Cambodja. Da vida solitária, ironicamente, como ela própria adverbiou, de uma rotina que a aborrece e de uma vida nocturna que não consome.
- Não penses que falo de saídas à noite, discotecas e copos. Gosto de festa, sim, mas gosto sobretudo das cidades à noite. O mundo acalma, as luzes dão cor e enfatizam a beleza do que nos rodeia e as pessoas descontraem.
Uma mulher branca sozinha tem que ter recato.
- Isto não é uma vila na Europa – advertiu.
A nossa personagem começou por contar a sua saturação por Phnom Penh. A insegurança, a forma de trabalhar, a falta de direitos humanos e a corrupção. Tudo isto gera confusão. Tudo isto num país que mantém Linda cada vez mais curiosa. O mau, a nossa personagem vê como interessante, e sem dúvida, uma experiência alucinante. Contudo, precisava de se distanciar.
- Precisa de sair, aproveitei aqui se celebrar o Pchum Ben, uma celebração aos antepassados e aos seus espíritos. Dura alguns dias, as pessoas levam comida às pagodas. Comida que vai alimentar bem os monges. É tempo de fartura e de respeito pela religião. 
- Adiante. Regressei à China.
Linda George começa a história da viagem.
- Não sei porque gosto tanto da China.
Voltou, esteve em casa, comeu todos os pratos a que tinha direito. Ficou a faltar a salada de batata japonesa, fez questão de frisar. Imagino que seja mesmo boa. Tomou banhos de água quente.
- O primeiro que tomei, sentia a água a queimar-me a pele, mas a sensação de água quente a correr pelo corpo era quase orgásmica, que não conseguia parar.
Esteve nos seus lugares, esteve em lugares novos. Passou a fronteira de Macau e entrou na China dos chineses e só dos chineses  Onde se fala mais mandarim que cantonense. Onde Linda se sente mais perdida, mas onde sorri sempre.
Desta vez, rumou a um festival rock na praia. Ali perto, em Zhuhai. Depois de longa espera – a fronteira está sempre cheia de gente, e por esta altura na China celebra-se a Semana Dourada, o dia do país, o aniversário da China como uma República Popular.
Os amigos do lado de Macau sem conseguir taxi ou autocarro até à zona da fronteira. Chineses e mais chineses cheios de sacos, como eles gostam. Cheirava a China. O fumo dos cigarros cheira diferente, é doce, enjoa, mas cheira, sem dúvida, a China.
Depois de uma longa espera, hora de enfrentar o trânsito e tentar encontrar um táxi até à praia.
- Legal ou ilegal? – pergunta Tom.
- Foi legal - disse Linda, rindo.
Uma multidão à volta e dentro do espaço. Os bilhetes estavam gostados... na bilheteira.
- Quando voltámos costas estavam já dois chineses a vender bilhetes. Legal ou ilegal? O que interessa é que entrámos.
Uma exposição de comidas, bebidas, brinquedos. Estrangeiros, chineses, famílias. Tudo a assistir a um concerto de rock numa praia algures na China.
- Adoro.
Como não pode deixar de acontecer Linda e Tom deram o seu show. Levantaram a poeira da areia dura e dançaram ao ponto de pôr chineses a saltar com eles.
- O mais incrível é que eles estão a divertir-se, mas não se mexem. Os que estavam perto do palco mantinham-se em pé e abanavam os braços. Os que viam os concertos pelo ecrã, estava ordeiramente sentados a “curtir”.
- Eles adoram sair e divertir-se, mas dançar não é com eles.
No meio de concertos de bandas chinesas, houve uma inglesa, com um estilo old school do punk rock, com cristas e tudo. Uns vídeos psicadélicos e letras a dizer para não se deixarem ser controlados. Um vocalista pouco habilidoso, que fala inglês e espera resposta do público, que teimava em não vir.
- O moço para quebrar o silêncio ia dizendo obrigado em mandarim e entoava Chiiiinaaaa...
A noite foi acabar com alguns elementos de duas das bandas participantes, num bar de música ao vivo, o primeiro na cidade. De referir que a China começa agora a interessar-se por cultura e por uma vida mais ocidentalizada. Aparentava ser um pequeno armazém restaurado com bom gosto. Os elementos das bandas juntaram-se e deram-nos uma jam session.
A noite já ia avançada e nada melhor do que ir a uma casa de massagens, ser massajado da cabeça aos pés e deixar-se embalar.
- Podemos tomar banho e dormir nas casas de massagens. Um final de noite perfeito.