quinta-feira, 15 de agosto de 2013

Uma mulher vista diferente

Outra cultura, outra forma de pensar. Uma outra maneira de levar a vida. Os olhos, os ouvidos e a cabeça de um ocidental tem duas hipóteses aqui. Em bom português, ou vão ou racham. Se forem, as hipóteses de apreciar o mundo são maiores, se racharem, a vida torna-se penosa.
Linda é mulher ocidental, a isso chamam mulher moderna. Seja lá o conceito que lhe queiram dar aqui o papel da mulher é diferente. Se num país do Ocidente é considerado do “tempo da avozinha” e já em algumas partes do globo, quase a roçar o ofensivo, aqui é jeito de ser.
Expliquemos. Linda faz perguntas desembocadas e quis saber como se relacionam os casais por aqui. Quem melhor para ser interrogado que o seu amigo nativo.
- Kahneg tens noiva, não tens?
- Sim, tenho.
- O que fazem juntos?
- Raramente estamos juntos. Às vezes vou visitá-la, levo-a a passear e por volta das 6 vou pô-la a casa. Sabes, as mulheres Khmers não saem, àquela hora estão em casa para fazer as lidas. Já sei que as mulheres ocidentais não são assim – rematou.
Linda sorriu.
- Mas e como é que têm intimidade?
- Não temos, as mulheres não têm sexo antes do casamento.
- As mulheres... hum... e os homens?
- Ah, os homens podem ter mais que uma namorada ou ir às ladies. Os meus amigos têm várias namoradas.
- Sabes, isso na minha cultura é mais desrespeitoso que ter sexo antes do casamento. Para além de ficar caro sustentar tanta mulher – esta Linda guardou para si.
Pois é, as meninas guardam-se, os homens desfrutam  O macho senta-se à volta de uma mesa, a beber cerveja, como qualquer humano. As fêmeas ficam em casa, já em aquecimento para o casamento. Levam-se a passear, dão-se os abraços nas voltas de mota e levam-se a casa. Sem mais toques, sem mais demandas. O macho excitado ou retrai ou dirige-se a uma qualquer KTV – karaoke com happy beggining, middle and ending – e liberta todo o macho que há em si.
O sexo também não é uma coisa que se aprecie por estas bandas.
- As mulheres não ligam. O homem faz, mas também não lhe dá grande importância.
- Não é uma vida aborrecida?
- Sim – bem entoado.
A nossa personagem vem de uma realidade onde o sexo inicia relações, onde o sexo é para todos e vale tudo, até umas valentes palmadas. Aqui o sexo é para uso de procriação e não para ser apreciado.
Voltando ainda ao papel da mulher. Um outro seu amigo, Lee, contou-lhe uma conversa com um condutor de um tuk-tuk.
- Sabe, tenho uma mulher e tinha duas namoradas, agora só uma.
- Então o que se passou?
- A terceira arranjou um outro namorado.
- Então é justo.
- Não – saiu em jeito de grito. Eu posso porque sou homem, ela é mulher, não pode. Não são mulheres de bem.
O mundo é machista e por estas terras, ainda se o vive de forma plena e intocável. A mulher é de bem, se sabe cozinhar, tratar do marido. Na nova geração já pode trabalhar, até porque a vida está cara e há mais cobiça pelo dinheiro. O homem é de bem se puser dinheiro em casa, lhe inseminar o óvulo e for às ladies, ocasionalmente. Um verdadeiro macho latino do sudoeste asiático. Só não foi apetrechado de bigode e pêlos no peito.
Isto são relações dentro da mesma nacionalidade. Quando a coisa mete estrangeiros que querem uma moça para cuidar deles, o cenário é o mesmo, muda o facto de ser uma relação em que os casais não têm um conversa em comum ou até mesmo, porque as mulheres não falam inglês. Interessa tratar deles, servir de tradutora e de gerente da casa.
- Deve haver umas com sorte, que o branco até é boa pessoa ou pode acontecer ele ser um inferno. Como assisti uma a fazer as contas da casa e a incluir a ida às ladies.
- Tinhas cem, gastaste sete no táxi e dez na lady, mas está a faltar troco. Onde está o resto? – questionava a mulher.
- Uma vez fomos jantar e Charlie embebedou-se, como gosta, pô-la de tradutora para uma menina que queria levar para viver lá em casa. O argumento era para a ajudar nas lidas da casa. Ela diz-lhe que quer ir para casa e ele pede-lhe dez dólares. Levantou-se, atirou-lhe com o dinheiro e disse-lhe com toda a raiva do mundo:
- You want money to fuck the girl. I go. Fuck you.
Linda confessou que não sabia o que fazer com toda aquela cena.
- O que fiz foi aproveitar a deixa e ir para casa. Só queria ir para casa.
A nossa personagem diz que a maneira como vêm a mulher ainda lhe custa a aceitar.
- Nem é pelo modo das relações, é por achar que a mulher é ainda um ser inferior e que a qualquer momento se pode transformar num objecto útil. Com dizia o amigo Wild Bill, ironicamente, falta a mulher, falta a empregada da casa.