domingo, 18 de agosto de 2013

O que andará a acontecer no Reino

Hoje houve chamada de emergência. Kaheng e Linda combinaram almoçar. Ele tinha uma folga por entre as intermináveis horas de vigia, que têm sido uma constante no pós eleições.
Encontram-se no sítio combinado para um almoço de domingo tardio e descansado. Kaheng estava constantemente a atender telefonemas. O último levou-o a levantar de repente e muito sério dizer:
- Tenho que ir... com um ar preocupado.
- Alguma confusão?
- Não, reunião de emergência.
Os tempos aqui estão tensos. Ainda se limita o acesso a Phnom Pehn. Os militares andam em treinos intensivos e duros.
- Temos andado a treinar muito. Hoje fizemos slide que no fim tinha um obstáculo que tínhamos de destruir, uma porta ou uma janela.
- Parece que estou a ouvir uma história de um filme de acção.
Manter as pessoas fora do perímetro da cidade, as tropas em sentido e a trabalhar o desempenho, tem deixado Linda pensativa.
- Não quero fazer qualquer juízo de valor sobre este tema, mas por vezes preocupa-me. Será prevenção ou acção? O que virá por aí?
O desejar poder deixa o ser humano desnorteado. Como se refere o filme “Senhores dos Anéis”, a espécie humana é mais vulnerável a tentações, por isso a mais fraca. Voltando à realidade, seja ela qual for, neste mundo é o que acontece. Homens sequiosos de serem Senhores e com uma ambição desmedida, pode levar ao render da bandeira branca.
Uma consciência de que uma trapalhada militar agora pode aniquilar um país que vive de turismo, pode ser considerada.
- As pessoas não devem ter vontade de visitar um país em conflito – opina Linda. Espero que haja essa consciência de ambos os lados. Há muito a perder. Esta gente vive de turistas.
A nossa personagem espera que seja este o raciocínio. Por outro lado, teme que toda a ambição descambe e a paz se vá de novo.
Phnom Pehn está a crescer. Não é uma cidade propriamente cosmopolita  mas é, apaixonante. Um terceiro mundo desconhecido, com pessoas afáveis e uma vida fácil de levar. A zona mais moderna é à beira rio – River Side – onde tudo turístico acontece. De visitas ao Monumento Nacional, ao Palácio Real, de restaurantes de comida ocidental, bares e discotecas. É uma zona mais cara, mas tudo ali acontece e a localização é deslumbrante. Óptima para uns passeios nocturnos.
Há um casino, há museus, há casas de ricos e guetos para pobres em qualquer esquina a contrastar e a mostrar do que é feito este país. Favelas sem morro. Há mercados bens conservados, à outros lamacentos e o cheiro não é agradável a um olfacto sensível. Há cortes de água e luz, há inundações e cheias em pouco tempo de chuva. Há gente que pouco sabe de boas maneiras, meninos que pedem na rua, a quem os irmãos fazem chorar para que a pena e a esmola consequente, seja grande. À noite à procura de turistas há meninas com coisas para vender e que fazem jogos a ver se o turista cai na lábia. O inglês é incrivelmente bom.
- Miúdos de rua, cujo inglês é melhor que alguns dos meus alunos. Até miúdos de cinco anos. Um inglês que enrola bem os viajantes. Ontem vi duas miúdas, uma de cinco, outra de doze, que tanto negociaram que venderam cerca de dez pulseiras.

A maioria das pessoas que aqui habitam são oriundas de províncias, de vidas rurais, que procuram na capital melhor vida, sempre para ajudar a família.
- Um local que ganhe mil dólares, já é rico, porque consegue ajudar toda a família, da aldeia à cidade.
Uma cidade cheia, onde as pessoas deixam espaços tranquilos e rodeados de natureza, pelo fumo de excessivos escapes e uma confusão de pessoas. O que é compreensível, a vida nas províncias é dura... mas sem dúvida mais saudável.
Para já cheia de pessoas. Quanto tempo falta para se saberem os resultados oficiais, não se sabe ainda. O que estão a negociar muito menos. As reacções, essas, podem ser inesperadas ou não.
No dia-a-dia Linda diz não sentir nada.
- Não me apercebo de nada. Também não entendo a língua... como estrangeiro o nosso acesso à informação é sempre mais restrito. Tudo o que te conto é de conversas que tenho, de considerações que troco com outras pessoas.

O amigo foi à pressa. A nossa personagem, essa ficou curiosa...

- O que se andará a passar no Reino?