segunda-feira, 19 de agosto de 2013

O Oriente pelo Ocidente

- Está na hora de me rir com o assunto!
Linda decidiu abrir um pouco do seu passado. No pouco que conheço desta nossa personagem, claro é, que ela resolve os obstáculos que a vida lhe põe, a rir-se. Sempre que algo de mal lhe acontece, ela solta uma gargalhada sentida e pára para olhar o estrago. A cabeça começa a fervilhar de divagações, que nem sempre fazem sentido a quem a ouve. O enredo talvez esteja completo, mas apenas dentro dela. Ela desabafa umas palavras e como sabe que não lhe seguem o raciocínio, age.
Quando o faz de forma impulsiva mete os pés pelas mãos. A ressaca é sentir-se má pessoa. Quando planeia as coisas vão correndo, mesmo que a um ritmo lento.
Um resumo de um auto-retrato, que antecedeu a viagem de Linda à China.
- Não tive tempo para parar e pensar. Fui levando as coisas, fui tentando sobreviver em terras de chinês. Lá tudo o tempo é mais rápido, tem outro ritmo. Uma coisa acelerada.
Esta foi a primeira paragem de Linda na Ásia. Situada na província de Cantão, a Região Administrativa Especial de Macau – RAEM – foi a sua casa durante cerca de dois anos.
Chegou de mochila às costas àquela terra, prometida de trabalho e vida em tons de dourado, como apraz o bom chinês.
- Ninguém dá nada a ninguém, senão deres em troca a alguém... E passado três meses estava, de novo, de mochila às costas, sem casa e sem dinheiro. Mas estava na China.
Em três meses Linda confessou ter vivido e ouvido coisas estranhas, meio ofensivas. Do chefe lhe dizer para usar o corpo para ter fontes.
- Sabes quando te fazem um comentário daqueles que te dá para ficar meio burra? Olhei-me de alto abaixo e ainda perguntei, meio boquiaberta, qual corpo.
- Esse que tens? – veio a confirmação do que tinha ouvido.
- Ela nem sabe o que tem – comentou o chefe para o lado.
A nossa personagem soltou a sua gargalhada e deixou cair em saco roto. O senhor estava a recebê-la como uma rainha, a levá-la a sítios caros e portugueses. De lembrar, que Macau foi antes governada sobre haste portuguesa. Ao terceiro mês o trabalho terminou. A razão foi:
- És mona. Mas do que li, há muita gente que escreve livros e coisas assim. Vou-te enviar para de volta para o teu país.
- Não quero.                        
- Vais.
- Não.
E Linda ficou...
- Hum, interessante. Vai a ver não usei o corpo da forma pretendida! – pensou mais tarde.
Nas ruas pequenas de Macau Linda encontrou um rapaz que tinha conhecido nos tempos da faculdade. Ele tinha um quarto vago e Linda um tecto.
E mais uma vez, ninguém dá nada a ninguém.
O homem estrangeiro chega à Ásia e parece ficar a sofrer de “febre amarela”. Ter mulheres asiáticas na cama, o sentir-se macho superior por ser branco e ter dinheiro  o entrar numa competição consigo, a ver quem “papa mais gajas”, deixa as feromonas masculinas ao rubro. Tudo o que é mulher é um objecto a ter na cama.
A casa era então, um entre e sai de filipinas, indonésias e chinesas. Umas sérias, outras amantizadas e meninas para ganhar um extra, porque na maioria são empregadas de limpeza – as filipinas e indonésias. As tácticas de engate desta espécie era de rir.
- Hello! Sou dos Serviços de Migração e posso ajudar-te com o visa.
- Hello! Sou professor universitário e cheguei a Macau há uns dias.
- Cheguei a passar por irmã dele. E elas caiam. Ele tinha um nome artístico, era de várias nacionalidades e profissões.
Estas eram dirigidas às meninas mais carentes, que acreditam numa qualquer balela e acreditam que um homem rico as vai salvar.
- Elas querem carinho e  atenção e é isso que quero dar -  disse um outro amigo.
Às vezes é negociado.
- Dou-te sexo e comida, tu limpas-me a casa.
Naquela casa havia de tudo. Ameaças de chulos à porta, orgias e uma certa violência psicológica. Cansada daquilo, houve uma noite que Linda, literalmente fugiu. Pediu a um amigo que a ajudasse. Em intantes desceu cinco andares com os seus pertences e nunca mais voltou àquela casa.
- Até passar na rua me custava. Ficava ansiosa e com receio de ver aquele louco.
Saltando entre casa de amigos que foi fazendo, a nossa personagem encontrou o seu canto.
- Num ano mudei sete vezes de casa. Estava exausta, nem queria acreditar que finalmente tinha paz.
O trabalho esse foi sendo esporádico, part-time, meio freelancer... até que voltou à redacção de um jornal a tempo inteiro.
Tudo parecia tranquilo. O director apreciava a sua escrita, mas entre bebedeiras e ressacas, pouco lá punha os pés. Um dia pôs e decidiu criar uma coluna de opinião, mas anónima.
A nossa personagem que gosta sempre dizer umas coisas, entusiasmou-se e não foi simpática com a comunidade dos antigos, acham eles, colonos.
- Entretanto vou fazendo bons trabalhos, inclusive capa de revista do suplemento cultural, que nem era escrita pelos jornalistas da redacção. Como profissional que gosta do que faz, fiquei orgulhosa.
- Numa outra vez, passando para o gabinete o director comentou que o meu antigo chefe lhe andava a ligar.
Linda tinha férias marcadas, e já não voltou.
- Gosto do que escreves e não queria fazer isto, mas tem que ser – não voltes.
- A cara dele não estava convencida do que estava a fazer. Artigos de opinião mal recebidos, telefonemas e uma cunha a meter... – guardei para mim.
- Parei para pensar e olhar à minha volta. Então estava eu na China a aturar as loucuras de arrogâncias de quem não é nada no seu país, e aqui, continuam incompetentes, mas têm cargo e dinheiro e acham que têm poder sobre todos?
Soltou-se uma grande gargalhada  Estava na hora de ser uma verdadeira moça de mochila às costas, chegada a um país da China. E esta cultura abriu-se para ela, como nem a ocidental não o fez.

Foi nesse lado chinês de Macau que a nossa personagem se encontrou e que aprendeu a amar aquela região tão especial, que agora lhe ensina uma palavra nova em português - saudade... pela cultura chinesa.