domingo, 18 de agosto de 2013

Música, álcool e pavões

Uma saída à noite na capital, na sua maioria combina com música pop, da mais comercial que anda por aí. Aqui, desde miúdos a graúdos vive-se uma cultura do, agora tão afamado K-POP, Korean Pop. Que toca Gangman Style em coreano e Khmer, há uma outra que é Gentleman, que tem uma relação qualquer com estilo anterior. Linda não percebeu se é outra música ou o nome do dito artista. E claro, os grandiosos hits americanos.
- Os meus miúdos vivem naquilo. É o que cantam e dançam. Na escola às sextas-feiras de manhã é dia de música e de dançar e é esta a música que passa. Os miúdos ficam loucos, excitados e todos dançam numa coreografia que parece ensaiada. Os movimentos estão lá todos.
- Fico estupefacta, confesso. Como é possível darem isto a ouvir a miúdos de cinco anos. Noutro dia tive um aluno a dizer-me:
- Teacher... you are a sexy girl!
- Sabes o que significa isso?
- Sei – respondeu confiante.
- Explica.
- Oh, não sei...
Apesar da nossa personagem querer ser correcta e dizer que não devia dizer aquilo.
- No máximo, na idade dele, as meninas são bonitas. Disse-me está bem. Logo a seguir vira-se para uma colega que estava sem uniforme:
- Hey, today you are sexy girl!
Linda conta que a pequena ficou deslumbrada com o elogio.
- Podem não saber explicar, mas o sentido está lá – comenta Linda.
Isto está em qualquer geração. Os adolescentes vibram, os jovens e adultos partilham a vibração e a loucura.

Uma noite inesperada

Linda foi convidada para um serão de comida mexicana, cerveja e boa companhia.
O seu amigo Wild Bill regressava aos Estados Unidos dali a dois dias. Uma espécie de “até já”, que Bill lhe confessou levar no coração. Um americano do Texas, um cowboy dos seus 65 anos, uma história de vida, que o levou à guerra no Vietname, ao volante de aviões e a viagens pelo mundo. Agora reformado, deixou a família a cuidar do seu “aligator´s ranch” e anda a curtir a vida, literalmente. Um homem com uma abertura de mente, rara e cada vez mais lúcida. Tem a idade de um jovem experiente na direcção que dá à vida.
Uma noitada com amigos, boa conversa e muita cerveja. Bill estava pronto para ser maroto, como gosta de dizer.
Depois do momento mexicano, uma voltinha pelo Night Market, para digerir e aliviar a alegria da cerveja e comprar umas lembranças.
- Aquelas tretas que se compram para se levar à família para mostrar que estivemos lá – diz a nossa personagem sorrindo-se.
O rumo a seguir foi escolhido pelo Tony, um outro amigo local, que geralmente acompanha Bill.
- Fomos até ao outro lado da ponte, à Ilha do Diamante, como lhe chamam. Há uma espécie de parque de diversões à beira rio, ideal para casais apaixonados e cerveja barata para os mais festeiros.
O grupo de Linda é danado para a brincadeira e ainda se beberam algumas jarras. Já tudo alegre, Tony diz ter que regressar à base. Assim que o militar arranca, Kaheng liga a dizer que acabou uma missão e está livre naquela noite.
Trocam-se os turnos, e agora é a vez de Kaheng guiar os amigos ocidentais que queiram tanto dar um passinho de dança.
A noite bem bebida estava ao rubro. O amigo levou-os a uma discoteca no River Side. Linda já estava à espera de uma música qualquer da moda, mas que talvez a leveza de espírito a tornasse suportável. Qual não foi o seu espanto, a música era boa. Uma mulher Dj a passar um som com boa vibração. A nossa personagem deixou-se levar pelo som e dançou, dançou. No meio houve gays do Vietname, como eles se apresentaram, a dançar à volta de Linda e a desafiá-la para uns shots. No meio daquela animação, havia um outro acontecimento a decorrer. Kaheng, o amigo local e certinho, que já deixava a cerveja falar e estava a dançar. A nossa personagem conta ter sorrido. Ele estava a divertir-se e havia miúdas a rodeá-lo.
- Afastei-me para apreciar o engate local – gracejou. Ele mirava-as de alto a baixo, elas sorriam-se. O ego macho foi aumentando e produzindo os movimentos sexy das coreografias pop. Uns movimentos da anca, ditos sensuais, um braço esticado e o outro atrás com a mão a rodar. Ainda lancei uma gargalha. Mas ele estava todo contente. Soltou a franga o menino certinho! Mais tarde disse-me:
- Ah, ainda sei dançar melhor, aquilo foi uma amostra.
A cultura pop não agrada à nossa personagem, por isso não ficou muito entusiasmada em ver mais do que aquilo. Contudo, houve uma surpresa naquela dança.
- Aqui a dança é baseada no movimento das mãos. Uma vez Kaheng disse-me que os ocidentais se mexiam muito a dançar. Naquela noite, ele esteve lá, naquilo que lhe dão a conhecer da vida ocidental. Mexeu-se muito.
Enquanto isto se passava, Wild Bill tinha encontrado uma esplanada, menos barulhenta, para beber umas cervejas e observar as pessoas – coisa que gosta de fazer.
Os amigos foram ao seu encontro.
No grupo estava também um americano hippie, oriundo da Virgina.
- Mais um queimado do cérebro pela cultura U.S.A. – comentou Linda.
Este jovem estava a deitar a asa a Linda. Kaheng segredou-lhe que ele a achava hot.
- Ele diz que te acha boa (em português), deves ser bonita no Ocidente.
- Jovem, o significado de tal adjectivo no nosso mundo, não significa beleza, mas sim que és boa para levar para a cama.
- A sério? – perguntou o amigo meio confuso.
Entretanto gera-se ali uma disputa de galos. O americano desafia Kaheng a beber finos “a penálti”. As saudades de uma branca confessadas e o álcool a falar mais alto - aí estavam os motivos para um desafio digno de machos... depois de um não.
Que comece o duelo. Linda foi chamada a júri.
- Kaheng bebemos este?
O fino estava a meio.
- Sim, fácil – responde o amigo  tranquilamente.
E desta forma, também ingeriu o líquido, numa levada. Do outro lado, o concorrente reclama e desafia a outro, desta vez cheio.
- Está bem, vamos a isto – continuando com serenidade e confiança.
O resultado foi o mesmo. O mesmo concorrente reivindica. E inventa mil e uma razões para a derrota. Um belo discurso à americana.
- Não há duas sem três. Por isso, paremos o desafio à terceira – desafia Linda o macho. Mais duas, por favor.
Entretanto discutem-se regras. Linda declara-as, o americano já derrotado diz:
- Lá está o europeu a pensar – declarou.
E assim Linda ficou a saber o que os americanos pensam dos europeus. Um povo que pensa.
 A terceira foi o aniquilar do pavão. Não tinha sido suficientemente macho para conquistar a fêmea.
A nossa personagem também aprendeu que estes jogos ainda se usam na hora do cortejo sexual do macho humano.
- Bem, resta-me ir para casa – constatou o derrotado de tão desafiante duelo.
- Kaheng, o segredo é embebedar o homem que te cobiça.
O amigo riu-se.
Linda seguiu viagem até ao último destino da noite, casa. No tuk tuk despediu-se de Wild Bill. Na hora da sua ida, passearam-se como nos primeiros dias em que se conheceram.
Um abraço forte foi deixado para trás. Uma admiração mútua a florescer.
- Admiro-te como admiro a minha filha. Parecem feitas da mesma fibra.
- Eu... quem me dera ter tido um pai tão porreiro como tu...
Wild Bill seguiu caminho até casa. A família espera-o. E ele vai cheio de histórias para contar.