terça-feira, 27 de agosto de 2013

A ilha

Uma escapadela indevida para uma ilha deserta pareceu-lhe o programa ideal para carregar baterias, após três meses de alguma mudanças no rumo da sua vida.
De repente Linda George estava a preparar a mochila para ir até à província de Kep. Nas agências dizem que a viagem dura três horas, mas a condição das estradas fá-la durar o dobro do tempo.
O mais fácil é apanhar o autocarro no Central Market, estação principal. Um autocarro meio atabalhoado, mas o ar-condicionado funciona. As estradas que fazem o caminho até Kep são tortuosas, o que se vê da janela não é Phnom Pehn. A capital do país é uma bolha, que faz parecer uma terra em desenvolvimento. A poucos quilómetros do perímetro da cidade principal do reino, reinam guetos, mercados lamacento  gente pobre e suja.
- Lembro-me de ver uma senhora a vender acessórios de cabelo mesmo ao lado de um pedaço de lixeira deteriorada e coberta de insectos. Mais à frente a carne...
Nesta terra de encanto, nem tudo são rosas, a pobreza traz consigo pouca higiene, há gente que vive sem água.
Mas, o que se encontra no final faz deixar o que se viu, o que se sentiu e leva-nos a crer que esta terra tem a magia de um país que tenta sobreviver, a passo lento.



No Cambodja não há pressa, não há stress. E quanto mais saímos da bolha, mais lento fica o reino.
Uma terra de campos de arroz, que dão à paisagem tonalidades de verde, que de tão extensas se encontram com o azul do céu. Linda gosta de frisar que o Cambodja tem um céu magnífico.
- A cor, as formas que as nuvens formam. É lindo.
Nos quilómetros a percorrer é isso que se vê. O arroz a ser cultivado, por pessoas e animais. Uma ruralidade com um toque de charme, porque se está no Cambodja. Casas em bambu  madeira ou para os mais afortunados, em pedra, sempre acima do chão. Os animais vivem à solta, convivem com as pessoas. As vacas tentam encontrar comida, mas de certo que não devem ter muita energia, a magreza é extrema.
- Não admira que as refeições aqui não contenham muita carne. Esta gente não está habituada a fartura. O arroz é o alimento que há e que abunda, daí o arroz ser noventa por cento da alimentação da gente do Cambodja.
Vai anoitecendo. As estradas vão ficando cada vez mais escuras e não há iluminação artificial. De paragem em paragem, aquele autocarro vai deixando pessoas em locais cada vez mais remotos. Onde nada acontece. Um cenário tranquilo de um pós guerra. E por isso, esta gente vive feliz. A paz reina neste pequeno país. Um país que se estendia pela Tailândia e Vietname  Um país que foi “comido” por eles, geograficamente e economicamente. 
A chegada à província foi, então, já de noite. Desta vez, nada tinha sido planeado. Linda tinha apontado uns nomes de umas residências e o resto, era tentar lá chegar, esperando que o taxista soubesse.
Mas quando chegaram, Linda e o amigo Lee conheceram um francês, dono de uma guesthouse. A dormida estava resolvida. O primeiro passo estava dado.
A noite estava tranquila, tinha ficado para trás o barulho e a enchente da capital. Os sons nocturnos da natureza podiam-se ouvir. Uma pequena cidade à beira do mar. Ainda mais tranquila, porque esta altura é época baixa, por ser a estação da chuva.
A travessia para a ilha é feita de barco. Vinte a quarenta minutos, que parecem cinco quando se olha à volta e vê a paisagem que nos rodeia. mar e ilhas.





- A Tailândia está carregada de turistas, e os locais também. Está demasiado cotada no mercado. Aqui encontramos mais realidade. Eu gosto mais.
- Foi ideal. Poucos turistas e a ilha onde íamos estava praticamente deserta. Havia uma outra turista a dormir.
Poucos ali passam a noite, pelo menos pela altura – Agosto. A época alta é entre Novembro e Maio. Agora visitam, passam umas horas, mas quase ninguém fica para apreciar um dos mais belos pôr-do-sol, que Linda haverá visto. E poder ver uma noite sem luzes artificiais. Apenas a luz das estrelas e o preto da noite. Perto das nove o gerador da electricidade é desligado. É hora de recolher que o dia começa cedo... porque vale a pena ver amanhecer naquela ilha.
- Consegues imaginar um sítio onde nenhuma luz humana se avista? É ali. A noite é noite. É escura, mas guarda nos pequenos pontos de luz a beleza do céu.



Um pequeno pedaço de terra, com um areal pequeno, o mar mesmo ali à beira. Um jardim quase privado para quem pernoita.
- Uma paisagem idílica, bom marisco, cerveja fresca, um paraíso na terra.
Linda confessa que o mais belo naquela ilha é a pacatez, que te obriga a reduzir a pressa da cidade, a respirar e a relaxar.
- Parece uma ilha criada para a Alice no País das Maravilhas. Os bugalows preenchem o espaço verde de forma coquete, digamos assim.
Linda passou a noite numa casinha de madeira, com janelas azuis, um amok na varanda e uma flor alta e amarela, sempre à sua espera. O mar sente-se, o corpo deixa-se levar pela sonoridade de água calma, que embala.
- As cores do céu transformam-se a cada passagem do dia, e todas elas nos deixam em contemplação.
O sol estava tímido, mas entre ameaças de temporal e alguma chuva, espreitou e levou Linda e o amigo ao mar.
A nossa personagem há muito que não ia à praia. E mesmo não sendo uma fã incondicional, o local em si, a paisagem fazem-na sentir viva e activa.
- Estava mesmo a precisar disto. Sol, mar e boa comida... – comentou Linda com Lee.
- Foi uma boa ideia de última hora.
O tempo, infelizmente, foi curto.
Houve tempo ainda no regresso a terra, para um almoço à beira da praia e um mergulho enquanto se aguardava o autocarro. Ali à beira da estrada, onde os carros passam, as pessoas vendem e descansam, onde os autocarros chegam e vão. Um sol que convidava, um mar que exigia. Um último mergulho antes de voltar à confusão da cidade e à realidade da vida na bolha.



- E não importa Linda, somos brancos. Parecemos deuses a sair do mar – gerou uma gargalhada.
Linda lavou a alma. Lee despediu-se do Cambodja. Um reino difícil de entender, mas apaixonante de se conhecer.